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A gestão dos resíduos na escola, uma experiência no Pantanal
29 de novembro de 2020

Chegando e conhecendo a realidade 

Estava muito animada com a minha ida para a Escola Jatobazinho no meio do Pantanal em área de preservação ambiental (APA). Saí de São Paulo, Viracopos/SP para Corumbá/MS após o almoço, e depois mais 2h de lancha pelo rio Paraguai até a escola. Era março de 2019 tempo quente e auge da temporada dos pernilongos,  ao chegar no final da tarde no porto da escola fui devorada por centenas deles que logo me deixaram em paz ao entrar no alojamento. Estava encantada e honrada por estar no meio do Pantanal numa escola idealizada e mantida pelo Instituto Acaia em parceria com a Prefeitura de Corumbá. A Escola Jatobazinho tem um pouco mais de 10 anos de existência e nasceu para atender a população dos ribeirinhos.

Logo que cheguei foi servido o jantar num lindo refeitório onde crianças e adultos comem juntos 3 refeições ao dia,  2 lanches da manhã e tarde. Todas as 60 crianças chegavam para jantar de banho tomado, com um brilho no olhar e sorrisos admiráveis. Tudo parecia meio mágico a meia luz, pois lá a energia vem de gerador e a economia faz parte dos costumes locais.

Nessa noite fui apresentada ao grupo de 27 profissionais da escola: coordenadores, professores, monitores, residentes e equipe de campo. Os processos participativos fazem parte das dinâmicas de educação ambiental, pois são uma forma de envolver todos no processo, resgatando suas histórias afetivas e seus saberes, então propus uma atividade onde um apresentava o outro e respondiam se gostavam de horta e se tinham experiência com plantas. Nos relatos 12 tinham familiaridade e 15 não tem conhecimento nem habilidades com a horta, mas todos demonstraram interesse em aprender.

Meu principal objetivo na escola nessa semana de visita presencial era conhecer a realidade local e orientar as rotinas necessárias junto à horta, aconselhando o trabalho educacional dos professores junto às crianças, bem como da equipe de campo para intensificar a produção de hortaliças e temperos para auxiliar a alimentação escolar.

Figura.1: Foto aérea da Escola Jatobazinho no Pantanal.

Credito da foto: Instituto Acaia

Iniciando na horta e aplicando os 5Rs em toda a escola

Visando sensibilizar a equipe da escola para adquirirem uma visão sistêmica em relação aos fluxos e ciclos da horta orientei que uma prática prioritária seria a montagem da composteira e do minhocário, pois a produtividade das hortaliças e temperos depende da qualidade do solo dos canteiros, que necessita adubação com composto, húmus e esterco periodicamente. Segundo relatos na horta não havia esse manejo, então as hortaliças não tinham um bom desenvolvimento. Naquele momento, como não havia composto buscamos terra da superfície da mata, além de esterco e cinzas, recompondo a vida e a qualidade do solo.

Figura.2: Compostagem. Crédito foto: Instituto Acaia

Para se obter composto de qualidade é necessário diversidade de matéria orgânica e fui verificar se os resíduos da cozinha poderiam ser utilizados para esse fim, porém constatei que os resíduos estavam misturados, sendo impossível utilizá-los para esse fim. A prática de descarte de todo esse lixo na escola era enterrar, pois no local não há coleta nem aterro.

Implantar um projeto de educação ambiental numa escola exige trazer um novo olhar, ou seja, oferecer novas lentes para transformar os olhares dos educadores, auxiliando-os a enxergar conexões ignoradas anteriormente, e a horta por tratar de um sistema vivo evidencia a visão dessas ligações, estimulando uma visão sistêmica no pensar e agir.

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Imaginem a quantidade de alimentos que uma cozinha que produz refeições para 90 pessoas 5 vezes ao dia, necessita? E pensar que quase tudo é entregue por meio de lanchas freteiras particulares dedicadas também ao transporte de gado e de pessoas, necessitando de embalagens que permitem o acondicionamento adequado dos alimentos. Se cada pessoa come uma média de 400gr por refeição, faça as contas. São 450 refeições ao dia, perfazendo um total de 180k por dia. Calcular é um exercício fundamental para compreendermos o nosso impacto no consumo e também no descarte. É esse pensamento sistêmico que contribui com uma nova forma de pensar e agir valorizando os ciclos e suas conexões, trazendo a essência dos 5Rs, e que nada se perde e tudo se transforma. Aplicar os 5 Rs – Repensar, Recusar, Reduzir, Reutilizar e Reciclar é a base para transformar problemas em soluções. A partir da realidade local, e sempre conversando com equipe, buscamos destinos viáveis localmente para todo o descarte das embalagens e dos restos dos alimentos. Para orientar essa mudança total de comportamento envolvendo crianças e adultos foram criadas placas de orientação definindo tipo de resíduos e seu manejo. Segue abaixo os modelos de placas produzidas.

Resultados imediatos

  • Diminuição de 70% do volume de rejeitos, mantendo o processo de enterrar apenas para metais, papéis e plásticos sujos; 
  • Encaminhamento à zona urbana de 100% de resíduos perigosos como pilhas, baterias, frascos de desodorante, remédios, e outros, para destino adequado; 
  • Aproveitamento de 70% dos resíduos secos recicláveis como papeis, madeiras, plásticos, vidros e metais limpos, reutilizados no ateliê de artes, aulas e na horta para armazenamento de mudas. Os demais 30% encaminhados à cooperativa urbana, para reciclagem. 
  • Aproveitamento de 100% dos resíduos úmidos como cascas de frutas e verduras, chá, borra de café, cascas de ovos – com exceção de restos de alimentos cozidos na compostagem para produção de hortaliças, temperos e ervas medicinais. 
  • Destinação de 100% dos restos de alimentos cozidos na ceva de peixes, despejando-os no rio facilitando o local onde os funcionários pescam.
  • O rejeito foi reduzido significativamente, e por consequência reduzida a emissão de CO2; 
  • Mudança de comportamento de toda a equipe, bem como das crianças, criando muitas oportunidades de abordar os temas ambientais de forma significativa, com soluções viáveis de tratamento adequado dos resíduos;
  • Produção de alimentos (hortaliças e ervas medicinais e temperos) que são utilizados na cozinha pedagógica, ou na cozinha institucional complementando com as refeições;
  • Definição de área adequada para a pesca por parte dos funcionários;
  • Apoio à cooperativa urbana do município de Corumbá, enviando resíduos limpos, com valor agregado;
  • Implantação de sinalização com placas informativas para orientação da coleta seletiva da Escola Jatobazinho.

Figura.3. Alunos cuidando da horta escolar. Crédito da foto: Instituto Acaia

Formação da equipe de profissionais

Em 2019 visando aprofundar os conhecimentos dos educadores e demais profissionais junto a horta, foi elaborada um curso online “Horta Escolarcom 11 aulas, com textos, vídeos, exercícios e uma sessão saiba mais, com bibliografia e filmes complementares. Os temas das aulas são os seguintes:

  1. Horta, educação e valores.
  2. Classificação das hortaliças, escolha das espécies a serem cultivadas, consórcio de plantas companheiras e rotação de culturas.
  3. Preparo do solo, compostagem e minhocário.
  4. Semeadura, propagação e poda.
  5. Pancs – plantas alimentícias não convencionais.
  6. Irrigação.
  7. Princípios e práticas de sistemas agroflorestais.
  8. Plantas medicinais.
  9. Controle biológico de pragas e doenças, alelopatia.
  10. Colheita, produção e armazenamento de sementes de polinização aberta.
  11. Transformando a horta num espaço educador: organização do local, ferramentas, comunicação educativa.

A formação descortinou novos saberes a muitos funcionários operacionais que tinham práticas não adequadas arraigadas há muito tempo. Os funcionários conseguiram transpor os novos conhecimentos e implementar mudanças significativas nas rotinas da escola, alcançando em pouco tempo as metas almejadas.

Aos educadores a formação permitiu visualizar novos horizontes pedagógicos, onde os cuidados com o ambiente permeiam a prática escolar e resultam em ações integradas. 

Em 2020 está previsto a equipe de professores irá mudar integralmente e dessa forma iremos retomar a formação online e encontros virtuais e presenciais. Mas também estão previstos a realização de dois novos cursos online “Segurança Alimentar e Implantação de Coletas Seletivas na Escola”, visando dar continuidade a esse tema nas atividades pedagógicas junto aos alunos.

A mudança de comportamento da equipe nesse processo foi significativa, pois ao longo desta semana em que estive presente na escola aconteceram grandes transformações através de conversas e orientações envolvendo todos os grupos de funcionários e educadores, potencializando um pensamento mais circular e sistêmico, além de sensibilizá-los para possibilidades que estavam em suas mãos e não eram acessadas. A ampliação da consciência desse coletivo, e principalmente de seus gestores foi fundamental para a consolidação de práticas de sustentabilidade integradas à realidade local, tornando realidade o lixo zero na escola Jatobazinho no Pantanal.

Para conhecer mais a escola acesse: https://www.acaia.org.br/pantanal

Breve currículo da autora:

Educadora Ambiental há 30 anos, Mônica Pilz Borba é mãe e avó e dedicou sua carreira profissional a construir vínculos entre as pessoas e a natureza buscando a compreensão e a cooperação entre ambos, propiciando práticas educativas de sustentabilidade no cotidiano dos ambientes urbanos e rurais. Nesse percurso desenvolveu inúmeros jogos, publicações, exposições, encontros, projetos e criação de espaços educadores.

Em 1993 fundou o Instituto 5 Elementos – Educação para a Sustentabilidade www.5elementos.org.br que em 1997 recebeu o Prêmio Itaú Unicef, na categoria de material de apoio ao professor, onde atua como diretora executiva. Buscando aprofundar seus conhecimentos e práticas, cursou Teoria e Prática do Meio Ambiente pela CETESB em parceria com o ISER em 1998, especializou-se em Educação Ambiental na Faculdade de Saúde Pública /USP em 2000, participou do curso de Permacultura, Bioconstrução e Ecovilas no IPEC – Instituto de Permacultura do Cerrado entre 2004 a 2009, e fez uma especialização no curso de Agricultura Biodinâmica do Instituto Elo e Faculdade Uberaba entre 2009 e 2012. 

Autora e pesquisadora de diversos temas socioambientais elaborou inúmeras publicações na área de educação ambiental, destacando: 

Lançou sua plataforma online de cursos com foco em educação e sustentabilidade https://www.educacaoesustentabilidade.com.br/ em dezembro de 2019.

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Monica Pilz Borba
Mônica Pliz Borba é Educadora Ambiental, formada em Pedagogia pela PUC - SP, fundadora do Instituto 5 Elementos, pós-graduada pela Faculdade de Saúde Pública da SP e em Agricultura Biodinâmica pelo Instituto Elo e Faculdade Uberaba.