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A maravilhosa Rotina da EMEF Padre José Pegoraro
2 de julho de 2018

A maravilhosa Rotina da EMEF Padre José  Pegoraro.. sob o olhar de um Coordenador Pedagógico…. Texto II

Mediação pelo diálogo… Defesa de direitos.. Comunidade ativa já!!

É preciso muito mais que um conhecimento dos fatos, ou críticas, sem ação o discurso se perde por uma sociedade mais justa… Numa tarde de fevereiro,  pouco antes da greve em 2018..  uma aluna adentrou a sala da coordenação com um olhar triste e  apreensivo..larguei a organização burocrática que inunda as escolas e atendi prontamente a jovem. Sua fala trêmula trazia para mim um dos mais tristes relatos de vida, algo encarado como comum às vezes na vida de nossas crianças, na imensidão desse país.. quiçá na periferia de São Paulo , sua fala trazia para mim um pedido, uma súplica de que a escola fizesse algo para que seu pai olhasse com atenção a ela e sua irmã, sim – a escola, não havia outra opção naquele momento, e mesmo que houvesse confiava à escola…ao relatar afirmou que seu pai ao deixá-las  ao cuidado da avó acamada .. e optar por morar com uma companheira .. não estava ela suportando.. a responsabilidade pela irmã mais nova e o distanciamento dele.. mesmo trazendo dinheiro para as compras, ou comparecendo aos finais de semana.. relatava a jovem…sentia falta dele por perto…sentia-se mais segura quando ele cuidada delas.. quando levava para passear, quando mesmo bravo estava por perto… conversamos durante 1 hora aproximadamente: após seu relato, da tamanha dificuldade que estava sobre suas costas.. perguntei sobre a rotina em sua casa, o contexto do bairro, vizinhos..em nenhum momento houve críticas negativas ao pai, mas identifiquei inúmeros aspectos a considerar numa situação de plena vulnerabilidade.. uma avó acamada, nenhum adulto próximo a acompanhar a rotina dessas crianças… o contexto do Grajaú.. imediatamente após nossa conversa comuniquei a toda a equipe gestora da escola..e após alguns dias a direção solicitou a presença do pai à escola, o pai compareceu e  numa conversa muito sincera e dura, entre a escola e ele sobre direitos e deveres.. afirmara que isso mudaria..  a dúvida ficou no ar e nossa preocupação mais acentuada ainda, pois como se resolveria tal situação?? Quais seriam os desdobramentos?? Essa mediação não provocaria represálias contra a adolescente? Semanas depois a aluna descia para uma atividade na quadra, pois era dia do Dia do Desafio.. ela estava sorrindo com brilho nos olhos, ao perguntar como estavam as coisas, afirmou que as coisas mudaram, aos prantos alguns segundo depois agradeceu pela ajuda… hoje mês de junho passo pelo corredor e a encontro feliz, conversando com uma colega sobre um trabalho sobre caveiras ( inspirado no COW Parade) que a professora de Arte está desenvolvendo com seus alunos..

Esse relato real é apenas um dos tantos que inundam o cotidiano escolar, e sempre nas reuniões com os docentes ao compartilhar surge aquele espanto ou questionamento: até que ponto é o limite da escola? Quem deveria fazer o papel…famílias não cumprem o papel social… fato é que diante da urgência e do apelo de uma criança, jovem… como seria se esparássemos outrem agir ? Alguns fatos em escola implicam uma ação imediata, mesmo que escola perceba-se desamparada por outros serviços nesse contexto.. na escola não há advogados, não há juízes..mas educadores, que trazem consigo um olhar necessário, agudo, e disposto a proteger nossas crianças e jovens..Escolas não são fruto do fracasso como propagam por aí..  O Estatuto da Criança e do adolescente completou pouco mais que 29 anos … e escolas são pessoas que necessitam de atenção… pessoas que sofrem com os desmandos de uma sociedade violenta, massacrada pelo fator econômico, social.. estamos em pleno Grajaú onde o Índice de Desenvolvimento Humano é sempre negativo.. onde as políticas públicas deixam de existir nos desmandos governamentais.. assim.. torna-se mais aguda a dor. Alternativas.. podemos pensar juntos.. caminhar juntos.. penso que é possível.. clamamos por uma maior mobilização da comunidade na luta pela defesa de seus direitos..como foi na luta pela construção da escola há 1 década atrás… contudo, vemos que é uma ação também lenta no período atual… mas urgente…organizar a comunidade para lutar por direitos, a escola sendo a comunidade pode contribuir nesse sentido é o que acredito..  No caso relatado talvez não fora o fator econômico o preponderante, pois o pai da aluna, trabalha, provê o necessário…para alimentação, vestuário.., mas cuidar do outro não implica em apenas prover bens materiais.. como na visão do pai ou de muitos pais ou reposáveis pelas crianças.. afirmam ser essa a responsabilidade dele.. ( como posso trabalhar e cuidar das crianças ao mesmo tempo ?? ) esse é um diálogo contínuo que temos com as famílias quando essas por sorte comparecem à escola, quando numa reunião de pais.. alguns comparecem..

Contudo,  ecoa muito forte na minha memória a frase da menina:  “Não quero interferir no seu relacionamento com a companheira do meu pai, mas preciso dele ”. As crianças gritam e não somente por alegria como no intervalo, ou numa atividade na quadra no Dia do Desafio.. nas atividades, no intervalo, na classe também agridem umas as outras …são gritos ou sinais por atenção..precisam de amparo..no caso relatado numa família em que duas filhas foram abandonadas pela mãe quando novas…. vemos uma adolescente que lhe foi retirada o direito à infância.. aprendeu a ser mãe desde cedo ao cuidar da irmã mais nova.. e se não estamos na escola para agir com quem essa criança contará.. Maravilhosa a oportunidade pelo diálogo da aluna que procurou professores e a coordenação, e diante disso conseguirmos de certa forma ter êxito.. embora nem sempre a escuta ou diálogo é possível… devemos insistir e resistir… nesse fato acreditamos que nossa ação educadora não se não legitima apenas na lousa ou nas lições..diante da política pública , à qual estamos inseridos, mas com nossa relação pedagógica se dá com a vida.. a vida real , cotidiana, de cada dia…. a vida caminha, o tempo é frio lá fora, mas não podemos esfriar nossa vontade política.. nesse sentido muito além de pontuar críticas, precisamos agir, constituir ações por uma sociedade mais justa, mais humana… exigir de todos os serviços o apoio à vida, à escola pública.. aos direitos sociais…a escola e comunidade devem constituir um só corpo.. nessa luta.. assim, o diálogo percorre as formações, as ações…em nossa escola.. e também é fato que na EMEF Padre José Pegoraro.. o sol brilha todo dia trazendo novidades, seja numa intervenção artística que dialoga e faz as crianças refletirem de maneira divertida.. com a vida ou a morte, seja a própria vida que adentra nossa rotina e arranca de nós a urgência para ação, pelo direito da criança..da jovem..  nesse rico exercício para o olhar…aprendemos a urgência do diálogo. Gratidão é o que sinto ..por fazer parte dessa história.

 Marcelo Costa Sena- Coordenador Pedagógico da EMEF Padre José Pegoraro.

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Aislan Munin
Pai da Liz. Membro cooperado do Portal da Educadora, Estudou Ciências Sociais na PUCSP e FESPSP, autodidata em Sistemas Web, uniu as duas áreas trabalhando como sócio-educador lecionando Introdução a Informática.