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A necessidade da manutenção dos vínculos das crianças durante a pandemia
30 de junho de 2020

Mediar o tempo nas telas e ao mesmo tempo preservar os vínculos e os estudos, desafios inconciliáveis?

Diante do atual cenário mundial, a educação em tempos de coronavirus é, sobretudo, conservar vínculos afetivos, proporcionar segurança emocional e ajudar as crianças a entenderem o tempo e espaço em que vivem hoje. Uma pandemia repentina pegou a todos os setores despreparados, para as escolas não foi diferente. Além de conteúdos didáticos, a escola enquanto um organismo vivo da sociedade com uma função social, precisa reestruturar suas práticas levando em conta o contexto social, econômico e político que nos encontramos. Todo o planejamento do ano letivo de 2020 precisou ser reformulado diante do COVID-19. Utilizar das modernas ferramentas digitais e esquecer que atrás da tela existem famílias, relações, crianças e todo um turbilhão de sentimentos provenientes pelo isolamento social é transformar uma escola em uma máquina produtivista. Produção de conteúdo, produção de operário, produção de relações mercantilistas e vazias.

Todavia, se a escola, consciente de sua função social deseja manter-se viva em tempos de coronavirus, deve voltar o seu olhar para o palco da vida hoje, a casa. Se antes as mães saiam de casa cedo pela manhã e deixavam seus filhos na escola, hoje o trabalho (para os privilegiados, não se esqueçam disso) é realizado de casa e, o cuidado das crianças, volta-se novamente para estas mães e pais.

Se antes da pandemia haviam famílias preocupadas em respeitar as orientações da Organização Mundial de Saúde (2019), de evitar o contado de crianças menores de 2 anos com as telas e de restringir a 60 minutos diários o acesso das crianças de até 5 anos, diante dos desafios impostos pelo enclausuramento, agora a realidade é outra, impossibilitadas de dar conta dos filhos, da casa e do trabalho, simultaneamente, as telas parecem estar servindo como salvação para mães e pais, agora ainda mais desesperados ou preocupados, diante da possibilidade de contato e conservação dos vínculos sociais através dos mesmos computadores, que se abrem como janelas para o outro e o mundo.

Obviamente, não proponho que haja substituição para o contato olho no olho, o toque, a empatia, o brincar e as experiências vividas no próprio corpo da criança, na relação com o outro, no espaço-tempo criado e organizado pela escola e as professoras.

Compartilho reflexões sobre novas possibilidades de existência da escola e da necessidade de olharmos para as crianças com respeito. Nesse sentido, sugiro que a escola que se utiliza de ferramentas digitais, deva voltar seu olhar para o cenário das crianças no aqui e agora, bem como perguntas e investigações que possam advir desta realidade da “vida caseira”. Isso não inviabiliza o olhar para fora, pelo contrário, “E se olhássemos as linhas das nuvens?” “Como é o céu da sua janela?”, ” O que passa embaixo da janela da sua casa?”

Palco da vida hoje, a casa pode nos inspirar a olharmos “a vida como ela é”, como diria Nelson Rodrigues. Panelas, roupas, pratos, banheiros. Quais os cuidados e tarefas para manutenção de uma casa? Como as crianças percebem estas tarefas e participam delas. Se responsabilizam e brincam junto, claro. Sem ignorar, a realidade de crianças que já ajudam nas tarefas domésticas ou de outras com tão pouco tempo para brincar, ou para si.

Pontuo que, este momento de recolhimento é um tempo para estreitar os laços familiares e aprofundarmos os conhecimentos sobre nossos filhos e nos mesmos. Observar como nossos filhos brincam e o que falam nas brincadeiras de faz de conta é uma excelente forma de entendermos o universo das crianças e como ela manifesta sua compreensão da cultura.

Por outro lado, a equação do uso de telas por crianças é muito delicada, não proponho que seja uma decisão simples para famílias e responsáveis, busco trazer alguns pontos fundamentais que precisam ser levados em conta. Primeiramente, cabe considerar as recomendações da OMS sobre o uso de telas, analisando o impacto disso na saúde das crianças e adolescentes de acordo com a faixa etária. A partir disto, refletir o uso e a finalidade que se faz das telas. A criança pode ter um contato passivo enquanto espectador da tela ou utilizá-la de forma interativa para se relacionar, se expressar e se comunicar com amigos e colegas.

Nesse panorama, há de ser considerada também o perigo a exposição a conteúdos inadequados e a violência, além da desigualdade social promotora da exclusão digital. Por isso, a necessidade de um adulto que acompanhe as crianças e adolescentes e de democratização do acesso ao conhecimento.

Como mãe, pedagoga e advogada, penso na importância do nosso trabalho, que nos garante segurança financeira, preserva nossa saúde mental e nossas relações, não menosprezemos também as crianças e seus direitos, seu brincar e suas relações são devem ser negligenciados.

O médico-educador judeu Janusz Korczak, assassinado pelos nazistas, nos deixou um livro intitulado O Direito da Criança ao Respeito (1986), onde fala sobre menosprezo e a desconfiança que os adultos têm com relação as crianças: “Não levamos a criança a sério porque ela tem muitas horas de vida pela frente. Nós sentimos o esforço que custa cada passo que damos, o peso dos gestos interesseiros, a mesquinhez das nossas percepções e sensações. Já a criança corre e pula, olha em volta, espanta-se e faz perguntas, tudo isso espontaneamente, sem segundas intenções. Desperdiça suas lágrimas e vive generosamente suas alegrias.” (pág.73).

Por que ao invés de oferecermos às crianças a desconfiança, não lhes garantimos o direito de preservar os seus vínculos afetivos, o direito de questionar, de se relacionar? Pense em quantas lives você assiste, suas ligações para familiares, amigos, reuniões de trabalho, mas e as crianças, como estão vivendo esta pandemia?

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Gabriela Guth
Mãe do Lior, advogada pela PUC - SP e pedagoga pelo Instituto Singularidades. Atuou no Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, no desenvolvimento de políticas e ações sociais voltadas para garantia dos direitos humanos. Com experiência no trabalho em defesa do direito à moradia, na assistência a crianças e adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade social e no monitoramento de ações judiciais referentes aos direitos territoriais de comunidades indígenas e quilombolas no Brasil. Trabalhou no Programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, na produção e disseminação de conteúdos que estimulam e fortalecem o contato da criança com a natureza, inclusive no ambiente urbano. Atualmente é professora na Escola do Bairro, que através da pedagogia da investigação pretende que as crianças se aproximem com curiosidade dos quatro elementos naturais- fogo, terra, água e ar- e do conhecimento acumulado pela humanidade, levantando suas próprias teorias.