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Cidadania
24 de abril de 2019

Numa escola, da qual não importa referir o nome ou lugar, por ser igual a tantas outras escolas, alunos destruíram mobiliário, depredaram o edifício. Num colégio particular, um jovem de 12 anos agrediu selváticamente um colega de 11 anos e foi “suspenso p

Numa escola, da qual não importa referir o nome ou lugar, por ser igual a tantas outras escolas, alunos destruíram mobiliário, depredaram o edifício. Num colégio particular, um jovem de 12 anos agrediu selváticamente um colega de 11 anos e foi “suspenso por um dia” …

O amigo Severino diz-nos que cidadania é a medida da qualidade de vida humana, que se desdobra apoiada na presença das mediações histórico-sociais.

E o nosso amigo Freire considerava a educação uma prática de liberdade. Porque havia lido esses e outros sábios, a Maria entrou na sua nova escola disposta a fazer jus à leitura dos mestres. Chegada ao refeitório, deparou com uma longa fila e no último lugar da fila se colocou.

Não tardou que uma criança lhe dissesse: Setôra, por que não vai lá para a frente da fila?

Meu querido, eu devo ficar no meu lugar – contestou a Maria.

A criança insistiu: Na nossa escola, os professores passam à nossa frente. A senhora é professora, pode passar à frente.

Exatamente por ser professora é que eu não vou para a frente da fila, meu querido – Completou a Maria. E por aí se quedou o breve diálogo.

Mas não o episódio…  Outra professora chegou ao refeitório, ultrapassou toda a gente e se serviu de alimento. A criança, que falara com a Maria, ousou interpelar quem tinha “passado à frente”. Foi repreendido por essa e outras indignadas professoras.

A Maria herdara uma cultura diferente daquela que ali prevalecia. Havia trabalhado numa escola onde palavras como respeito e cidadania não serviam apenas para enfeitar um projeto pedagógico apenas escrito. Numa escola onde as regras eram decididas em coletivo e por todos cumpridas, onde valores escritos não eram negados na prática. Num tempo e lugar onde se educava no exercício da cidadania. Na sua nova escola, a Maria surpreendia-se com o fato de haver quarto de banho de aluno (coletivo e sem espelho) diferente de quarto de banho de professor (coletivo e com espelho) e este separado do quarto de banho do diretor (privativo e com espelho). Surpreendia-se que todo mundo “achasse normal” que até no defecar e urinar houvesse hierarquia. Sabia que não se prepara jovens para a cidadania, mas que se educa na cidadania, em contextos onde haja igualdade na diversidade, onde prevaleça o exemplo. Isso ela aprendera numa escola onde não se “passava à frente”.

A Maria desta história encontrou quem partilhasse esperançosas práticas. Porém, quando se propôs trabalhar em equipe, reunir em assembleia com os alunos, partilhar projetos com a comunidade, foi-lhe dito que, há alguns anos, outra Maria havia tentado fazê-lo e se arrependeu.

Vícios e tabus se revelam nos mais ínfimos pormenores, representações sedimentadas tendem a esconder a origem de formas sociais de dominação. Não surpreende, por isso, que uma solícita inspetora tenha demovido a Maria dos seus audazes propósitos, ordenando-lhe que desse as suas aulinhas e fizesse o que lhe mandavam fazer. E que uma prudente diretora a aconselhasse: Maria, tenha paciência. Aqui, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Qual terá sido o desfecho desta história? A Maria terá conseguido cumprir o projeto pedagógico da escola e desenvolver cidadania? Ou terá passado da fila do refeitório para a fila de espera da consulta de psiquiatria?

Esta história admite vários desfechos. Inclusive, aquele que o eventual leitor lhe quiser dar.

Numa escola, da qual não importa referir o nome ou lugar, por ser igual a tantas outras escolas, alunos destruíram mobiliário, depredaram o edifício. Num colégio particular, um jovem de 12 anos agrediu selváticamente um colega de 11 anos e foi “suspenso por um dia” …

O amigo Severino diz-nos que cidadania é a medida da qualidade de vida humana, que se desdobra apoiada na presença das mediações histórico-sociais.

E o nosso amigo Freire considerava a educação uma prática de liberdade. Porque havia lido esses e outros sábios, a Maria entrou na sua nova escola disposta a fazer jus à leitura dos mestres. Chegada ao refeitório, deparou com uma longa fila e no último lugar da fila se colocou.

Não tardou que uma criança lhe dissesse: Setôra, por que não vai lá para a frente da fila?

Meu querido, eu devo ficar no meu lugar – contestou a Maria.

A criança insistiu: Na nossa escola, os professores passam à nossa frente. A senhora é professora, pode passar à frente.

Exatamente por ser professora é que eu não vou para a frente da fila, meu querido – Completou a Maria. E por aí se quedou o breve diálogo.

Mas não o episódio…  Outra professora chegou ao refeitório, ultrapassou toda a gente e se serviu de alimento. A criança, que falara com a Maria, ousou interpelar quem tinha “passado à frente”. Foi repreendido por essa e outras indignadas professoras.

A Maria herdara uma cultura diferente daquela que ali prevalecia. Havia trabalhado numa escola onde palavras como respeito e cidadania não serviam apenas para enfeitar um projeto pedagógico apenas escrito. Numa escola onde as regras eram decididas em coletivo e por todos cumpridas, onde valores escritos não eram negados na prática. Num tempo e lugar onde se educava no exercício da cidadania. Na sua nova escola, a Maria surpreendia-se com o fato de haver quarto de banho de aluno (coletivo e sem espelho) diferente de quarto de banho de professor (coletivo e com espelho) e este separado do quarto de banho do diretor (privativo e com espelho). Surpreendia-se que todo mundo “achasse normal” que até no defecar e urinar houvesse hierarquia. Sabia que não se prepara jovens para a cidadania, mas que se educa na cidadania, em contextos onde haja igualdade na diversidade, onde prevaleça o exemplo. Isso ela aprendera numa escola onde não se “passava à frente”.

A Maria desta história encontrou quem partilhasse esperançosas práticas. Porém, quando se propôs trabalhar em equipe, reunir em assembleia com os alunos, partilhar projetos com a comunidade, foi-lhe dito que, há alguns anos, outra Maria havia tentado fazê-lo e se arrependeu.

Vícios e tabus se revelam nos mais ínfimos pormenores, representações sedimentadas tendem a esconder a origem de formas sociais de dominação. Não surpreende, por isso, que uma solícita inspetora tenha demovido a Maria dos seus audazes propósitos, ordenando-lhe que desse as suas aulinhas e fizesse o que lhe mandavam fazer. E que uma prudente diretora a aconselhasse: Maria, tenha paciência. Aqui, manda quem pode e obedece quem tem juízo.

Qual terá sido o desfecho desta história? A Maria terá conseguido cumprir o projeto pedagógico da escola e desenvolver cidadania? Ou terá passado da fila do refeitório para a fila de espera da consulta de psiquiatria?

Esta história admite vários desfechos. Inclusive, aquele que o eventual leitor lhe quiser dar.

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Aislan Munin
Pai da Liz. Membro cooperado do Portal da Educadora, Estudou Ciências Sociais na PUCSP e FESPSP, autodidata em Sistemas Web, uniu as duas áreas trabalhando como sócio-educador lecionando Introdução a Informática.