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Como professoras e professores avaliam a possibilidade de reabertura das escolas
12 de outubro de 2020

No Brasil, segundo o IBGE, 36,8 milhões de pessoas com idade entre 06 e 29 anos tiveram acesso às escolas e universidades remotamente, totalizando 80% dos alunos. Porém, somente no mês de agosto, 7,6 milhões de estudantes não tiveram acesso às aulas online por falta de recursos como internet, celulares, tablets e computadores. Uma pequena melhora com relação a julho, quando 8,7 milhões de estudantes se viram sem acesso a este ensino (IBGE). 

Os números mostram que quanto menor a renda familiar, maior é o percentual de estudantes sem acesso ao ensino escolar digital. Mensurando por regiões, segundo o IBGE, no Norte do país, 38,6% dos alunos não tiveram acesso às atividades durante a pandemia, enquanto no Sul, apenas 6,4% de estudantes se encontravam na mesma situação. No Sudeste o percentual sobe um pouco, chegando a 10,3%. A ausência das escolas acarreta problemas para além das questões curriculares. A falta de sociabilização e o confinamento desencadeiam questões psicológicas nas crianças imersas neste trauma social mundial. 

Como forma de buscar aprofundar o olhar sobre o cenário da educação brasileira neste contexto de pandemia, entrevistamos cinco professores, três deles de diferentes regiões de São Paulo, sendo duas escolas públicas municipais, no Grajaú e em Itaquera, e uma escola particular de Cotia, somados a uma professora universitária de Fortaleza e uma professora de Ensino Médio, em uma escola Estadual de Goiás:

  • Márcia Freire Pinto, docente do Curso de Licenciatura Plena em Ciências Biológicas na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos (FAFIDAM) (Fortaleza – CE). 
  •  Luciana Cristina Sousa Leite, professora de Educação Física do Ensinos fundamental II e Médio no Colégio Estadual João Bênnio e no Colégio Estadual Professor Vitor José de Araújo (Goiânia – GO). 
  •  Rodrigo Toyama, professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental I, da rede particular Escola da Maré (Cotia – SP).
  •  Marcelo Costa Sena, 45 anos, Assistente de Direção e Professor de Ensino Fundamental II e Médio, na EMEF João da Silva, no Grajaú (São Paulo – SP)
  •  Samuel Chaves, professor de Geografia no Ensino Fundamental II do Ceu Emef Jambeiro, em Itaquera (São Paulo – SP).

Portal: Como você se sente diante da possibilidade do retorno das aulas presenciais ainda neste ano? 

Marcia (CE) – Particularmente quero muito retornar às aulas presenciais, mas a situação no momento ainda não é favorável, principalmente, porque os casos ainda estão aumentando nas cidades do interior do estado. Embora eu more em Fortaleza, trabalho em Limoeiro do Norte e os estudantes moram em cidades próximas à Limoeiro como Morada Nova, Russas, Jaguaruana e Quixeré. Como nessas cidades, os casos de covid-19 ainda não estabilizaram, o risco ainda é alto. Sem contar com o deslocamento realizado de ônibus.

Marcelo (SP) – O sentimento inicial é de total descaso do poder público , da falta de apoio às equipes gestoras das escolas desde o início da pandemia, decisões tomadas em gabinete e anunciadas no SPTV onde somos pegos de surpresa e temos que responder aqui na ponta para população, uma secretaria sem qualquer escuta ou deliberação sobre de fato haverá ou não reabertura, causando cada vez mais apreensão por parte de todos. O Protocolo produzido a exemplo prevê um processo de formação dos funcionários, estamos há 13 dias da possível data de reabertura para aulas extracurriculares como foi dito na Televisão e quando isso ocorrerá ? Quais procedimentos deverão ser adotados para não contaminar o outro dentro do espaço escolar? Se as equipes não tiveram suporte ou foram ouvidas mesmo no processo de LIVE que o Secretário de Educação realizou em Julho, de que forma terão agora apoio ou escuta, deslocar verba de formação pedagógica para compra de máscaras ou outros EPIs resolverá? Ou acentuará as desigualdades? Em que momento as famílias serão ouvidas pela secretaria de educação? Como garantir que crianças e jovens não se abracem ou toquem o rosto, a boca , o nariz, são muitas as indagações. Após a realização de um inquérito sorológico pela secretaria de saúde que indica que 66% das crianças testadas são assintomáticas, aumenta mais ainda nossa preocupação diante de tudo isso, temos um protocolo que ainda é um documento tramitando nos e-mails e grupos de whatsaap que não dialoga com a realidade da escola, dos recursos humanos escassos, onde muitos docentes obviamente estarão afastados, a dúvida das famílias, e quando diz que apenas 35 % será atendida como dizer isso aqui na comunidade que vai comparecer em peso no portão da escola para deixar seu filho e garantir seu direito à educação? São perguntas, entre outras para expressar toda nossa preocupação, articulação, movimentação para que vidas sejam garantidas, pois, ano letivo se recupera, vidas não.

Rodrigo (SP) A questão do retorno é bastante complexa. A pandemia não é apenas uma crise sanitária. Vivenciamos uma crise multidimensional. Ela é sanitária, política, econômica, cultural, humana, educacional. Portanto, um possível retorno deveria considerar todas essas questões. Não se trata somente de ter álcool em gel nas escolas. Temos que pensar no aumento da circulação de pessoas no transporte público. Temos que agir sobre a infraestrutura das escolas que não têm condições de higienização digna, ainda mais em momento de pandemia. Precisamos combater o abismo social que se abre entre os estudantes das escolas públicas e privadas. As crianças precisam ter seu direito à educação assegurado. As escolas precisam cumprir seus compromissos financeiros. A comunidade escolar precisa de um ambiente de total segurança contra o covid-19. Há alguma solução que leve essas e outras tantas questões em consideração?

Samuel (SP) – Me sinto inseguro. Essa insegurança vem principalmente pelo fato das autoridades responsáveis, não terem colaborado na criação das condições necessárias para uma volta segura. Por um lado, são apresentados protocolos, que todos sabemos que são muito difíceis de serem aplicados nas nossas escolas e distantes do contexto social dos nossos territórios. Por outro lado, nossas autoridades, mais uma vez não foram capazes de pensar em políticas que atendessem a maior parte da população, dando assistência e apoio nesse momento tão complicado que estamos vivendo. 

Luciana (GO) Vivemos um momento de angústia, insegurança, tristeza, é uma mistura de sensações, nós professores estamos sendo acusados de não querer voltar a trabalhar, e olha que estamos trabalhando mais do que nunca, ficamos por conta das aulas remotas os 7 dias da semana, sem hora para dormir. Cogitar um retorno nesse momento é ignorar a realidade das escolas, a estrutura física o quantitativo de alunos por sala, a completa falta de condições sanitárias.

Portal: Você acredita que a articulação dos governos federal, estadual e municipal foi competente para elaboração do planejamento realizado até este momento de modo efetivo e seguro para professores, alunos e seus familiares? 

Marcia (CE) Federal não houve nada nesse sentido. Já o governo estadual atuou e até o momento tem atuado com cautela no retorno das atividades e de forma diferente de acordo com a situação em cada município. O governo estadual e os municípios aparentemente estão trabalhando de forma conjunta. Porém, não vejo os professores, estudantes e seus familiares sendo consultados para o diálogo de uma construção coletiva de ações.

Marcelo (SP) – Eu falava sobre a escuta, qualquer ação que se faça de forma vertical sem considerar a realidade local de cada escola, de cada comunidade, já é um desastre real na política educacional, tem sido assim há décadas. Na LDB prevê que os sistemas de ensino devem se organizar, mas cabe a cada escola dentro do seu Projeto Político Pedagógico decidir e avaliar seu rumo.São Paulo- Capital virou uma plataforma de disputa política que em Março se subordinou às decisões do Estado de São Paulo, alinhando um discurso de cuidados e isolamento social, até então necessários para conscientização da população, contudo, tudo isso ficou no discurso, na prática não foi garantido às famílias esse cuidado, no discurso até se expressou que a Pandemia expôs a desigualdade social, mas o que foi feito, para diminuir essa desigualdade? O CRAS ( Centro de Referência da Assistência Social ) no território do Grajaú permaneceu inerte a tudo isso, quando deveria ser o protagonista, com atendimento por agendamento que não deu conta da demanda , ou seja, não houve uma política de assistência, colocou-se nas costas da escolas o papel da Assistência , da Saúde, do Conselho Tutelar , famílias começaram a descobrir que não tinham o NIS ativo quando não receberam o Cartão Merenda, o auxílio emergencial para muitas famílias começou a aparecer agora em julho, agosto, com total descaso na organização disso tudo, público e notório. Portanto, do ponto de vista legal não houve na educação municipal uma articulação real com propósito de garantir às crianças com atividades remotas tendo em vista toda exclusão das crianças pelo acesso com internet ou falta de aparelhos celulares ou computadores. As medidas tomadas pelo governo municipal foram na contramão do previsto na lei de diretrizes e bases da educação 9394/1996 com suas alterações ao Estatuto da Criança e do Adolescente que completou agora 30 anos, posso exemplificar: o direito à merenda escolar – inicialmente a empresa terceirizada foi comunicada pela cessação dos contratos, portanto, as funcionárias nos procuraram com grande tristeza para comunicar que a partir de 20 de março não sabiam como seria suas vidas, informaram que os alimentos em estoque para a merenda iriam ser retirados pela empresa logo em seguida, o que ocorreu no dia 23 de março de 2020.  A Lei federal 13.987/2020 sancionada após pressão de setores do congresso, garantiu a alimentação das famílias dos estudantes da rede pública que estão com as aulas suspensas em razão da pandemia do coronavírus (Covid-19), contudo no município de São Paulo a distribuição da merenda se deu com a criação de um cartão merenda, inicialmente distribuído de acordo com o Cad Único às famílias em alta situação de vulnerabilidade social, ou seja, excluindo a alimentação escolar como direito de todos estudantes matriculados na rede. Após o caso parar na defensoria pública por pressão nossa nas redes de enfrentamento, o secretário de educação passou a dizer que todos os estudantes iriam receber, enfim, chamando de universalização do direito ao cartão merenda, o que na prática fere a própria legislação, foram abertas dois períodos de cadastro no site da Secretaria Municipal de Educação, realizamos a divulgação no facebook da escola, mas a maioria dos pais sequer realizaram cadastro, alguns por perder a data, outros por não possuir o número do eol (um cadastro que cada aluno tem na rede), mesmo que a escola tenha enviado às famílias, muitos sequer ligaram perguntando, ou entraram em contato após o término do cadastro. Para agravar mais a situação dessa ação o que foi dito pelo secretário de educação é que os cartões chegariam nas escolas, os funcionários dos Correios decretaram greve e a situação de desespero das famílias só se agravou, ao ponto de agressões verbais, ameaças, entre outros casos que o cotidiano da escola nos proporciona , esse é apenas um contexto e exemplificação para afirmar que a melhor saída deveria de fato já que querem nos colocar como responsáveis para uma solução ao contexto social, deem à escola total autonomia sobre a verba pública, sobre a distribuição de renda, sobre o gerenciamento da assistência e da saúde, são políticas públicas , direitos que estão sendo desmontados quando sobrecarregam covardemente as equipes escolares.

Samuel (SP) – Penso que não. A realidade foi que a maior parte dos nossos estudantes ficaram excluídos do processo de ensino remoto que foi aplicado na pandemia. Não acredito que isso se dê por falta de condições materiais, mas sim por falta de vontade política. Na rede municipal de SP houve uma tentativa de volta para setembro que foi deixada de lado, após uma série de lives com o secretário de educação expondo a total falta de critério de realidade nos protocolos que foram propostos para a volta. A verdade é que não me sinto seguro e confiante porque a impressão que é passada é de falta de conhecimento das nossas necessidades e da realidade das nossas escolas.

Luciana (GO) – Não existe articulação entre o governo federal com nada, estamos a deriva ou melhor já afundamos o barco. Os estados e municípios estão nas mãos dos empresários que querem retomar seus grandes lucros sem medir as consequências. Aqui em Goiás a secretária de Educação, Maria de Fátima Gavioli, já articulou o retorno diversas vezes apresentando protocolos de segurança que não garantiam nem a compra de álcool em gel para as escolas e nem a distribuição de máscaras aos alunos e alunas. Não existe protocolo seguro, ignoram a segurança dos funcionários, hoje os administrativos,(secretaria, limpeza, cozinha) estão trabalhando e os equipamentos de segurança não foram fornecidos pela secretaria de educação, ficou tudo por conta de cada funcionário.

Rodrigo (SP) – Há determinações do governo federal, outras do estadual, e outras do municipal. Aparentemente não há uma corresponsabilização entre essas instâncias. Nesse momento está difícil saber a quem seguir. 

Portal: Você sente que professores e escolas estão atentos aos cuidados necessários para o acolhimento dos estudantes em um possível retorno?
As crianças terão de se adaptar a uma realidade bastante adversa, como isto está sendo planejado?

Marcia (CE) Nas escolas privadas sim, mas nas públicas não vejo a possibilidade desse retorno, principalmente pela escassez de recursos materiais, bem como condições básicas que faltam em muitas escolas. Com relação ao planejamento das atividades, não sei responder, pois isso depende de cada escola. No entanto, o governo estadual divulgou um protocolo de retomada das atividades escolares, que as escolas devem seguir com relação aos cuidados relacionados à saúde, mas que não se leva em consideração os cuidados com a saùde mental tanto dos estudantes, como dos professores e das famílias. Tudo isso também vale para as universidades. 

Marcelo (SP) Diante da pandemia muitos professores e escolas mobilizaram doações às famílias, aqui no Grajaú realizamos junto ao coletivo Grajaú Faz Assim (coletivo intersetorial com profissionais da educação, saúde, assistência, coletivos de cultura) uma ação de doação solidária que atendeu mais de 10.000 famílias, articulando, também empresas, coletivos, doação do próprio salário, vaquinhas on line, esse foi um processo muito rico e que diante do abandono do poder público às comunidades foi gratificante, agora por outro lado, o desafio do trabalho remoto , realmente nos consumiu e vem causando estafa com a carga de trabalho remoto, reuniões, um dado essencial a considerar quando se fala em acolhimento é a saúde mental , além do cargo de assistente que está ocorrendo de forma presencial abrindo e fechando a escola, passo horas diante de uma tela para postar atividades, ler e-mails,cuidar dos processos da escola, e atividades encaminhadas pelos alunos, na EJA adotamos além da plataforma o Whatsapp , os alunos em geral não trazem somente o conteúdo , mas todo seu sofrimento, então precisamos pensar como cuidar do outro, sem cuidar da nossa saúde, nesse contexto de desrespeito ao servidor, como cuidar do outro? Ou seja, se de um lado já discutíamos a necessidade de quebrar muros e romper a lógica mercantilizada da pedagogia por programas educacionais, agora se faz mais urgente, uma outra escola que é possível. Temos dialogado muito sobre isso aqui na escola em que sou assistente EMEF João da Silva, mesmo com uma cobrança contínua da Secretaria de Educação para apresentar resultados, pois, como disse essa lógica do programa educacional que deve ser seguido à risca, com resultados a serem alcançados , o indicativo de que a primeira medida será uma prova aos estudantes, não significa senão uma real retaliação e cobrança aos professores e equipes gestoras, isso cria uma atmosfera doente a que a escola está presa.. é preciso muita atitude política para romper tudo isso, fortalecer os conselhos de escola, reconstruir os caminhos que até agora só massacraram e não deram voz como protagonista toda potencialidade que está na escola, a exemplo , temos dialogado que antes de seguir o conteúdo programático, devemos ouvir os estudantes em roda para que pensem junto essa escola, que pautem o seu desejo e sua criatividade nesse espaço de direito, portanto, não ouvir os docentes, não ouvir os estudantes é um erro que não podemos cometer, ou atropelar preocupados com a entrega ou aplicação de uma prova , correção ou digitação de resultados, a avaliação é mediadora de conhecimento , não é o conhecimento, não é produto, é processo. , então ainda há um grande desafio nas escolas em que trabalho, agir por uma escola democrática e não pragmática.

Samuel (SP) – Eu acho que as pessoas que estão nas escolas estão dispostas a continuar dando o melhor, no caso de voltarmos, como sempre foi feito. Mas a realidade é muito adversa e não depende somente do nosso espontaneísmo. As condições objetivas para que seja possível um acolhimento a todos da comunidade escolar de maneira humanizada, levando em conta que muitas pessoas ainda estarão vivendo o luto, ou em situações de extrema vulnerabilidade em virtude da recessão econômica que se agravou com a pandemia, não estão e não devem ser dadas. Na escola que trabalho, todos estão dando o seu melhor e pensando já em como retornar, mas penso que quem deveria criar as estratégias e o planejamento para esse fim, não deva se mobilizar nessa direção.

Rodrigo (SP)Pensando em infância e no que as crianças precisam enquanto afeto e convivência, ninguém está preparado para um retorno que pressupõe distanciamento social. Entretanto, há protocolos oficiais que as escolas precisam seguir, e o ideal é que toda a comunidade escolar participe ativamente deste retorno. 

Luciana (GO) – Temos muitos professores, funcionários, alunos e familiares que não podem fazer isolamento por questão de sobrevivência e outros que não acham que o vírus é realmente perigoso o que agrava as questões de segurança. Não existe hoje um planejamento efetivo para o retorno, em algumas determinações o que foi solicitado pela secretaria de educação foi a higienização da escola, e organização das salas de aula com menos cadeiras. As duas escolas que trabalho são construídas com placas de concreto, e não possui circulação de ar adequada.

Portal: Ao longo deste trabalho de educação a distância provavelmente alguns estudantes tiveram mais dificuldade de acesso a internet, como pretendem trabalhar estas diferenças?  Pensam em realizar algum tipo de avaliação?

Luciana (GO) – É nítido como a pandemia colocou mais evidente a falência do nosso sistema de ensino, escancarou as enormes diferenças de acesso a bens de sobrevivência e comunicação. Temos muitos alunos que não tem acesso a internet, ou que a família possui apenas um celular para ser utilizado, o que dificulta a criança e adolescentes a acompanhar as atividades. Para tentar amenizar a essa dificuldade de acesso, as escolas que trabalho estão disponibilizando atividades impressas aos alunos e alunas que não tem acesso a internet, não conseguimos acompanhar de perto.

É possível perceber que temos muitos alunos e alunas do Ensino Médio que estão trabalhando, começaram a trabalhar na pandemia, e assim tem maior dificuldade para acompanhar as aulas online. Já os estudantes do ensino fundamental, muitos estão em outros estados com suas famílias pois como os responsáveis não param de trabalhar eles não tinham com quem ficar. Ainda não sabemos ao certo como vão avaliar os alunos para compreender melhor o processo de aprendizagem, a secretaria de educação informa que pode realizar uma avaliação no ano que vem baseada no material que a própria secretaria disponibilizou, impresso, online e televisionado.

Samuel (SP) – No caso da rede municipal, parece haver uma ideia de realizar avaliações na volta proposta pela secretaria de educação. Mas o que já sabemos é que a maior parte dos nossos estudantes ficaram excluídos do processo de ensino remoto. A pandemia escancarou as condições que acabaram por serem normalizadas na gestão da educação pública, descaso com estudantes e as famílias e com os profissionais de educação.

Rodrigo (SP)A comunidade na qual trabalho não apresentou esse tipo de dificuldade. Nossa avaliação se dá dia a dia, pensando na integralidade da criança. Os aspectos emocionais, sociais, cognitivos e físicos são considerados o tempo todo, fazendo com que reformulemos nossas estratégias.  

Marcelo (SP) – Há sim uma medida pela secretaria de avaliação , contudo, essa avaliação deve ser mediadora para pensar estratégias não apenas de recuperação de conteúdos não assimilados, ou ainda competências ou habilidades a se desenvolver, mas o aspecto humano, de pensar um trabalho pedagógico mais horizontal e menos artificial considerando apenas dados de uma prova é mais que urgente. E já estamos pelo menos na escola EMEF João da Silva construindo esse planejamento. Um diagnóstico já realizamos de que menos de 30% dos alunos tiveram garantidos o acesso remoto, ou seja, há um desafio enorme para um atendimento presencial.

Marcia (CE) – No geral, na universidade em que trabalho as atividades remotas ficaram praticamente suspensas nesse período. Os estudantes que tiveram alguma dificuldade de acesso no processo foram consultados por parte das coordenações de curso. A instituição não pretende retornar presencialmente esse ano e para dar suporte aos estudantes, que não tem acesso ou com acesso limitado, serão distribuídos chips.Com relação às escolas, a partir do relato de alguns colegas professores, não existe uma ação que tenha essa preocupação com o auxílio dos estudantes que não puderam acompanhar as aulas remotas ou que tiveram alguma dificuldade nesse período.

Portal: As escolas estariam estruturadas para realizar os encaminhamentos necessários caso alguma criança apresente sintomas de Coronavirus?

Samuel (SP) – Pensando na realidade que tenho conhecimento, não. Por qual motivo, devo acreditar que teremos uma grande mudança na maneira de se pensar educação e o cuidado com as pessoas.

Marcia (CE) – O governo do estado lançou essa semana um guia para a retomada gradual das atividades escolares, com orientação tanto para as instituições como para professores, estudantes, pais e responsáveis. No papel, tudo está bem detalhado, mas não sabemos como realmente será na prática, principalmente com relação a capacitação dos profissionais da educação nesse sentido. Acredito que de forma geral, os encaminhamentos necessários estão bem claros no protocolo, cabendo às instituições seguir. O problema é como ocorrerá esse acompanhamento por parte do Estado, sendo necessária uma ação conjunta. 

Marcelo (SP) As crianças já são enviadas à escola com febre, gripadas, com dor de garganta etc.. é da rotina da escola , ligar às famílias , orientar os pais para levarem ao médico, então , esse cuidado é visível, criança já mostra que algo não está bem. Mas que estrutura de suporte há para tudo isso? A saúde vai estar monitorando as famílias, nos cuidados básicos? A lei garantirá que essa criança tenha todos os cuidados necessários? Portanto é necessário que a saúde seja equipada, tenha recursos humanos, com o diálogo realizado em rede.

Rodrigo (SP)Penso que os protocolos de segurança sanitárias das escolas devem considerar esse tipo de situação. As escolas precisam trabalhar em corresponsabilização com as famílias. Se uma criança apresentar os sintomas do covid-19, a família deverá seguir os procedimentos das autoridades de Saúde.

Luciana (GO) – Não temos escolas preparadas nem para receber pessoas com segurança, falta papel higiênico,produtos de limpeza, banheiros adequados não sabemos, e é difícil imaginar como vamos garantir limpeza das escolas, pois além da estrutura que é precária existe falta de funcionários para limpeza da escola. Não existe uma organização clara de como vamos fazer esse retorno e os protocolos de segurança que vamos seguir.

Portal: Sua escola está estruturada da forma necessária para receber os estudantes selecionados para esta primeira etapa?

Rodrigo (SP) Já usamos frequentemente espaços abertos (quintal, quadra, rua, floresta). Na nossa escola não há espaços fechados (exceto a biblioteca). Quando estamos em algum espaço, geralmente sentamo-nos em roda (por vezes compartilhando a mesma mesa, o que teremos que mudar por conta das exigências sanitárias). As demandas urgentes da sociedade e do planeta norteiam nosso PPP, e são partes integrantes da nossa práxis. Penso que essa pandemia traz uma reflexão profunda a respeito dos paradigmas sob os quais nos alicerçamos enquanto sociedade. É urgente agirmos.

Luciana (GO) – Não, minha escola atualmente não tem condições nenhuma de receber nossos alunos e alunas, como disse, as duas escolas que trabalho são de placa de concreto o que faz ser um ambiente quente, e com pouca ou nenhuma circulação de ar, os ventiladores praticamente não funcionam e as janelas são pequenas.

Samuel (SP) –  Sei de algumas iniciativas da secretaria municipal como contratação emergencial de professores, (cerca de 20% do quadro total)*. De qualquer forma, imagino que devem ser organizadas algumas ações para que as escolas tenham alguma infra estrutura, mas sempre fica a dúvida, pelo o que nos acostumamos a normalizar nas nossas escolas, se isso vai ser cumprido de forma satisfatória.

Marcelo (SP) – Estamos adaptando os espaços, sinalizando conforme orientação, mas da seleção ainda não sabemos nada, não houve ainda uma conversa como ocorrerá essa determinação, o que novamente coloca a escola em demasiado questionamento pela comunidade. Muitos pais sinalizaram em reuniões e consulta nas redes sociais que não enviariam seus filhos para escola sem uma garantia de segurança, outros nos questionam toda semana quando a escola irá reabrir. Como escola, aprendemos muito durante a pandemia. Estamos lidando com questões inéditas, que nos fazem repensar diariamente o nosso papel como equipe, como escola, e como comunidade de aprendizagem. Tivemos que aprimorar nossa escuta e nosso olhar em relação às crianças, reformular nosso conceito de território, conhecer ferramentas tecnológicas e compreender a cultura digital… Tudo isso faz parte das aprendizagens deste período.  

Marcia (CE) – Como falei, a universidade não pretende retornar com as atividades presenciais, mas caso fosse necessário, não estaria estruturada para isso nesse momento.

Portal: Você sente que sua escola está aprendendo com esta pandemia? Estão aproveitando deste período para se repensar diante das demandas urgentes do planeta?
Pensam em usar mais espaços abertos com grupos menores ou tendem a seguir o modelo de carteiras e fileiras em salas fechadas?

Luciana (GO) – Não sinto que e a maioria das escolas e professores, gestores, população em geral, políticos estão aprendendo alguma coisa com a pandemia, Infelizmente me parece que vamos voltar para as salas fechadas e apertadas, lotadas de alunos, focando em dados e índices, deixando mais uma vez a humanidade o planeta de fora. Pode parecer pessimismo, e bem que poderia ser, mas não é. Não vemos nenhum debate, oferta de formação para novas perspectivas de educação, que superem as paredes das salas de aula e que busquem conectar os indivíduos entre si e com o planeta. Me inquieta e incomoda muito retornar para a velha escola, não quero e não pretendo, já sempre me incomodou e busco novas formas de pensar e transformar a escola, e a pandemia foi um momento interessante para isso. Participei de duas formações com professores que pensam a escola para as pessoas e com as pessoas, conheci e aprofundei as ideias do professor José Pacheco, que idealizou e transformou a Escola da Ponte em Portugal e inspirou tantas escolas aqui no Brasil, e estou fazendo uma formação para pensar escolas democráticas, com o professor Denis Plapler. Convidei os professores da escola que trabalho e não demostraram nenhum interesse, e a secretaria bombardeia os professores com formações técnicas, focadas em atingir metas.

Samuel (SP) – Acredito que todos temos aprendido muitíssimo nesse período e aproveitado para repensarmos os paradigmas aos quais pensávamos educação. Tudo isso foi imposto de certa forma pela pandemia. Dados os problemas que disse anteriormente, penso que devemos buscar saídas coletivas para criarmos novas condições e aproveitar esse momento. Com relação aos espaços abertos, grupos menores e ao modelo de salas fechadas, não acompanhei nenhuma discussão sobre, mas volto a dizer que a situação pode impor uma outra realidade que propicie essas mudanças e tenho certeza que grande parte dos professores vão buscar ressignificar suas práticas nessa direção.

Marcia (CE) – Na universidade nada mudou nesse cenário, infelizmente não existe por parte da instituição diálogos nesse sentido. A escola do meu filho segue a pedagogia montessoriana, que já não é nesse formato. A partir do relato de amigos professores, nada se tem falado sobre propostas de mudança no modelo educacional, por conta da pandemia, apenas se fala em ensino híbrido.

Marcelo (SP) – O momento além da tristeza e da ansiedade, exige de nós sempre um repensar. Nesse, momento temos dialogado muito acerca do aluno que atendemos, quem é essa criança, esse adolescente, quais são suas prioridades, necessidades, a conversa on line com estudantes do grêmio estudantil nas duas EMEFs que trabalho vão nessa direção. Está sendo um momento de muita produção de conteúdos para uma nova escola, evidente, que encontraremos como pontuei resistência pela cultura de uma escola pautada por programas educacionais, mas nesses momento as escolas conseguiram olhar para si, pensar sua trajetória, sua potência, realizamos um sarau online com os professores aqui da EMEF João da Silva, realizamos trocas de experiências com educadores de outras escolas, participamos de LIVEs do OCUPACIDADE trazendo a temática da importância da escola como centro da comunidade, para um diálogo com as famílias, então tudo isso tem sido um processo de luta e voz da escola, talvez agora as famílias também consigam enxergar mais a importância desse espaço de direito e participação é o que buscamos todos os dias, melhorar a qualidade de vida dos nossos estudantes, e mostrar o protagonismo docente. Acreditamos que no pós pandemia a escola esteja muito mais preparada do que antes para uma conversa horizontal, para estabelecer metas que vão além do IDEB, mas objetivos para superação das desigualdades sociais e valorização da vida.


Rodrigo Toyama e seus alunos (foto tirada antes do período de pandemia)


Marcelo Costa Sena, em atividade presencial

Luciana Leite

Márcia Freire

Samuel Chaves

Samuel e seus alunos (foto tirada antes do período de pandemia)

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Larissa Plapler
Mãe do Lucas, jornalista e entusiasta. Atuou em editoras de revistas impressas com diferentes temas e abordagens. Atualmente, atua como membra cooperada do Portal d@ Educador@, onde desenvolve e dissemina conteúdos relevantes a favor da educação e da valorização das vozes femininas do Brasil.