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De onde vem a PAZ
22 de abril de 2019

Cheguei ao pátio da escola e encontrei a Fernanda chateada com o João. Eu perguntei aos dois o que tinha acontecido e ela disse: “Estou brava porque ele disse que bandido existe e a minha mãe disse que bandido não existe!”

Cheguei ao pátio da escola e encontrei a Fernanda chateada com o João.  Eu perguntei aos dois o que tinha acontecido e ela disse: “Estou brava porque ele disse que bandido existe e a minha mãe disse que bandido não existe!”

Eu me senti numa tremenda saia justa. Como conversar sobre esse assunto com duas crianças de quatro anos?  E, pior, como desmentir o que a mãe provavelmente dissera por não saber como responder?

Então eu temporariamente fui salva por outra criança. A Gabriela, de 6 anos, passou por nós e disse: “ Claro que existe. Bandido é ladrão!”

Para fugir um pouco do assunto eu falei: “Olha, querem saber o que não existe mesmo?  Que só existe na televisão? Os super heróis!  Eles não existem de verdade”.

Imediatamente o João levantou e apontando pra si próprio, com as duas mãozinhas, disse: ”Existe sim, olha eu aqui!” Naquele momento me senti nocauteada.

               Passados alguns dias o assunto surgiu novamente.  O João me perguntou por que bandido existe. Que droga, eu preferia ter que responder sobre a existência do Papai Noel ou do Coelhinho da Páscoa, que embora  fantasiosas não me tirariam da área de conforto e até seria mais fácil continuar “mentindo”.  Então eu devolvi a pergunta tentando fazê-lo pensar: “Me diz então você: por que leão existe?”  E ele: “Porque veio da barriga!” Eu:” Por que existe macaco?” Ele: “Porque veio da barriga!” Eu: “Por que existe pessoa?”  Ele: Ué, tudo existe porque veio da barriga! Então percebi que não podia continuar nesse raciocínio, ou ele entenderia que bandido nasce bandido.

Então, eu disse: “Os bandidos são meninos que não foram bem educados” 

Ele: Ué, eles não foram pra escola?

Eu: Acho que foram, mas a escola deles não era bacana, não ensinou a falar o que sentem e o que querem, só a bater e fazer coisas feias!

Ele: Ué, tem escola que ensina coisa errada?… mas, eles não tinham pai e mãe? Ou o pai e a mãe deles também eram bandidos?

Eu: Eu acho que eles tinham pai e mãe. E, o pai e a mãe dos bandidos talvez sejam bons e ficam tristes porque os filhos são bandidos.

Ele: Será que eles mataram o pai e a mãe deles?

Eu: Olha João, a vó não sabe todas as respostas.

E, ele fazendo uma carinha “eureka!” disse: “Vó, não fica triste, vamos convidar os bandidos pra irem pra nossa escola e a gente ensina eles!!! A gente sempre ensina os pequenos que ainda não sabem! Passei os braços a sua volta e enchi meu neto de beijos.  Quem dera…

               Depois que ele foi pra sua casa eu fiquei sofrendo: O que faltou a esses meninos que viram bandidos, afinal? O que não estamos fazendo que a cada dia fica-se sabendo de mais e mais crimes? Como entender que todos temos uma parte de responsabilidade nessa história? Então, o que cada um de nós pode fazer?  São tantas as perguntas…

               Até agora eu só tenho uma resposta para entender como gerar paz.  Pode até parecer simplista, mas creio que é o acolhimento amoroso e a boa comunicação.   As crianças precisam falar de seus desejos e intenções desde pequenos.  Com o direito de falar tudo o que pensam e sentem, mesmo que surjam discordâncias, elas aprenderão a se conhecer e a ouvir o outro.  O que precisam é aprender COMO falar.  É a forma e não o conteúdo que assegura o bom relacionamento.  Os sentimentos trancados, silenciados ou calados podem causar traumas, tristezas e agressividade. Em longo prazo geram desajustes.  Então o caminho é inverso. Liberar as emoções, liberar os desejos, colocar-se no lugar do outro e entender que ele também tem seus próprios desejos e emoções e, que precisam ser respeitados.  Com a ajuda de um adulto a intermediar as conversas dando voz e vez a todos os envolvidos nas questões, as crianças compreenderão a parte mais importante da vida: como funcionam os relacionamentos, como comunicar-se.

                Completo esse texto com mais uma perspectiva infantil.  Entrei num espaço e uma menina de quase cinco anos me disse: “ Rê, o Marco jogou areia em mim!” Eu perguntei: “ E você, o que fez?” Ela: “ Eu falei pra ele que não gostei que ele tinha que parar!” Eu: “ E o que aconteceu?” Ela: “ Ele parou, claro!”

Cheguei ao pátio da escola e encontrei a Fernanda chateada com o João.  Eu perguntei aos dois o que tinha acontecido e ela disse: “Estou brava porque ele disse que bandido existe e a minha mãe disse que bandido não existe!”

Eu me senti numa tremenda saia justa. Como conversar sobre esse assunto com duas crianças de quatro anos?  E, pior, como desmentir o que a mãe provavelmente dissera por não saber como responder?

Então eu temporariamente fui salva por outra criança. A Gabriela, de 6 anos, passou por nós e disse: “ Claro que existe. Bandido é ladrão!”

Para fugir um pouco do assunto eu falei: “Olha, querem saber o que não existe mesmo?  Que só existe na televisão? Os super heróis!  Eles não existem de verdade”.

Imediatamente o João levantou e apontando pra si próprio, com as duas mãozinhas, disse: ”Existe sim, olha eu aqui!” Naquele momento me senti nocauteada.

               Passados alguns dias o assunto surgiu novamente.  O João me perguntou por que bandido existe. Que droga, eu preferia ter que responder sobre a existência do Papai Noel ou do Coelhinho da Páscoa, que embora  fantasiosas não me tirariam da área de conforto e até seria mais fácil continuar “mentindo”.  Então eu devolvi a pergunta tentando fazê-lo pensar: “Me diz então você: por que leão existe?”  E ele: “Porque veio da barriga!” Eu:” Por que existe macaco?” Ele: “Porque veio da barriga!” Eu: “Por que existe pessoa?”  Ele: Ué, tudo existe porque veio da barriga! Então percebi que não podia continuar nesse raciocínio, ou ele entenderia que bandido nasce bandido.

Então, eu disse: “Os bandidos são meninos que não foram bem educados” 

Ele: Ué, eles não foram pra escola?

Eu: Acho que foram, mas a escola deles não era bacana, não ensinou a falar o que sentem e o que querem, só a bater e fazer coisas feias!

Ele: Ué, tem escola que ensina coisa errada?… mas, eles não tinham pai e mãe? Ou o pai e a mãe deles também eram bandidos?

Eu: Eu acho que eles tinham pai e mãe. E, o pai e a mãe dos bandidos talvez sejam bons e ficam tristes porque os filhos são bandidos.

Ele: Será que eles mataram o pai e a mãe deles?

Eu: Olha João, a vó não sabe todas as respostas.

E, ele fazendo uma carinha “eureka!” disse: “Vó, não fica triste, vamos convidar os bandidos pra irem pra nossa escola e a gente ensina eles!!! A gente sempre ensina os pequenos que ainda não sabem! Passei os braços a sua volta e enchi meu neto de beijos.  Quem dera…

               Depois que ele foi pra sua casa eu fiquei sofrendo: O que faltou a esses meninos que viram bandidos, afinal? O que não estamos fazendo que a cada dia fica-se sabendo de mais e mais crimes? Como entender que todos temos uma parte de responsabilidade nessa história? Então, o que cada um de nós pode fazer?  São tantas as perguntas…

               Até agora eu só tenho uma resposta para entender como gerar paz.  Pode até parecer simplista, mas creio que é o acolhimento amoroso e a boa comunicação.   As crianças precisam falar de seus desejos e intenções desde pequenos.  Com o direito de falar tudo o que pensam e sentem, mesmo que surjam discordâncias, elas aprenderão a se conhecer e a ouvir o outro.  O que precisam é aprender COMO falar.  É a forma e não o conteúdo que assegura o bom relacionamento.  Os sentimentos trancados, silenciados ou calados podem causar traumas, tristezas e agressividade. Em longo prazo geram desajustes.  Então o caminho é inverso. Liberar as emoções, liberar os desejos, colocar-se no lugar do outro e entender que ele também tem seus próprios desejos e emoções e, que precisam ser respeitados.  Com a ajuda de um adulto a intermediar as conversas dando voz e vez a todos os envolvidos nas questões, as crianças compreenderão a parte mais importante da vida: como funcionam os relacionamentos, como comunicar-se.

                Completo esse texto com mais uma perspectiva infantil.  Entrei num espaço e uma menina de quase cinco anos me disse: “ Rê, o Marco jogou areia em mim!” Eu perguntei: “ E você, o que fez?” Ela: “ Eu falei pra ele que não gostei que ele tinha que parar!” Eu: “ E o que aconteceu?” Ela: “ Ele parou, claro!”

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Aislan Munin
Pai da Liz. Membro cooperado do Portal da Educadora, Estudou Ciências Sociais na PUCSP e FESPSP, autodidata em Sistemas Web, uniu as duas áreas trabalhando como sócio-educador lecionando Introdução a Informática.