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De Paulo Freire à Guilherme Boulos, a esperança por uma educação antirracista para a cidade de São Paulo
23 de novembro de 2020

Neste período de pandemia somada as eleições municipais, com tantas crianças no país ainda sem acesso as aulas pelas telas, vale lembrar de quem inaugurou novas escolas e salas de informática no município de São Paulo, ao lado de Paulo Freire. 

Enquanto manifestações antirracistas multiplicam-se pelo mundo, com milhões de pessoas de todas as cores se rebelando contra um sistema histórico e estrutural secular genocida da população negra, no Brasil passamos do primeiro turno das eleições municipais, do dia 15 de novembro, para o segundo turno, a realizar-se no dia 29 de novembro, em 57 cidades brasileiras.

Em São Paulo, a maior capital do país com 12 milhões de habitantes, o governo do PSDB de Bruno Covas mesmo após denúncias graves vinculadas a um esquema de corrupção de desvio de recursos públicos responsável pela merenda escolar dos estudantes, segue para competir no segundo turno com a chapa de Guilherme Boulos e Luiza Erundina, (PSOL). 

Luiza Erundina, primeira mulher eleita prefeita da cidade de São Paulo, em 1988, concorre desta vez com o cargo de vice, ao lado do candidato à prefeito, Guilherme Boulos, Filósofo, professor, psicanalista e ativista político de destaque na liderança e coordenação dos movimentos de luta por moradia (MTST). 

A falta de moradia digna para população é não apenas o maior problema da cidade de São Paulo, como talvez o problema mais grave de todo o país e de muitos outros países do mundo. A moradia digna é um direito primordial para a possibilidade de garantia de outros direitos sociais, sem um lar seguro a vida familiar torna-se complicada em todas as outras dimensões. No Brasil 6.9 milhões de pessoas não tem onde morar (IBGE, 2019), ainda que cerca de 6 milhões de imóveis permaneçam desocupados há décadas (BBC, 2018). A nossa Constituição Federal defende inclusive que um imóvel precisa cumprir a sua função social. Mas enquanto por aqui ainda se criminaliza os movimentos sociais por moradia digna, em cidades como Barcelona pessoas como Guilherme Boulos já foram eleitas, a exemplo da prefeita catalã Ada Colau que deixou uma ocupação de moradia para ocupar a prefeitura da cidade. 

Ada Colau, Ativista Social (Prefeita de Barcelona, desde 2015)

Após encher a Avenida Paulista para retirar da presidência a primeira mulher eleita na História do Brasil, a cidade de São Paulo tem a oportunidade agora de se reconciliar com as urnas e recolocar na prefeitura a sua primeira mulher eleita prefeita.

Quando prefeita, Luiza Erundina mostrou toda a sua competência ao trazer à Secretaria de Educação de São Paulo o nome de Paulo Freire, patrono da educação brasileira e um dos autores mais traduzidos em todo o mundo, educador andarilho da esperança e do amor. Em uma das suas grandes obras, Pedagogia da Esperança, Freire apresenta a educação como um ato de amor e o amor como um ato de coragem, fazendo da educação um ato permanente e corajoso de amor pelos outros e pelo mundo. Paulo Freire é reconhecido mundialmente pela sua Pedagogia do Oprimido, na qual construiu toda uma concepção de educação voltada para libertação e emancipação da consciência humana em suas relações.  Vale lembrar a famosa frase de Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e Nobel da paz, “se aprendem a odiar, também podem aprender a amar”.

Luiza Erundina, então prefeita de São Paulo, recebendo o líder Nelson Mandela em 1991.

Como Secretário de Educação de Luiza Erundina, Paulo Freire trouxe a educação democrática para gestão do município, investindo no acesso e na permanência dos estudantes nas escolas, na qualidade dos processos de ensino aprendizagem e na educação de jovens e adultos.

Luiza Erundina e Paulo Freire juntos em ato contra censura nas escolas, 1989, São Paulo.

Os obstáculos no país ainda são diversos diante de nossas raízes estruturais capitalistas e escravocratas históricas que nos colocam na sétima posição da nação mais desigual do mundo. Ainda no século XXI, no Brasil, de acordo com o Atlas da violência, 70% das vítimas de homicídio são negras, em média os brasileiros brancos possuem o dobro da renda da população negra, a população negra corresponde a 78,9% dos 10% de indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios, as mulheres negras também estão dentre as mais atingidas pela violência doméstica, 58,68% (de acordo com o disque denúncia). O Brasil abriga ainda a quarta maior população carcerária do mundo, são 622 mil pessoas privadas de liberdade, destes 61,6% são negros (Infopen). Os números são apenas sintomas reveladores de violências históricas de um processo de colonização nomeado como civilizatório. A promoção da igualdade racial no país depende de justiça social, caso contrário seguiremos reproduzindo um sistema produtor de exclusão e violências. São milhares de pensadores, artistas, cientistas, esportistas… desperdiçados por falta de oportunidades. 

Se hoje no Brasil a cor clara da minha pele me protege de inúmeras violências e injustiças estruturais direcionadas a população negra, tampouco aceito ser reduzido a um homem branco, uma vez que toda a família dos meus avos foi assassinada pelos nazistas justamente por não serem reconhecidos como brancos, arianos, puros, loiros de olhos azuis, como diziam há menos de um século atrás os nazistas. Na Associação Janusz Korczak do Brasil (www.ajkb.org) trabalhamos com alguns indicadores que também apresentam sintomas de patologias sociais. O abandono paterno atinge 5,5 milhões de crianças no país, temos 47 mil crianças em situação de abrigo e 8,7 mil em espera de adoção. São números tristes e assustadores, são crianças que precisam de oportunidades agora. Já passou da hora de nos reconhecermos como corresponsáveis por todas as periferias e violências deste mundo, disto depende a construção de culturas de paz.

Luiza Erundina e Paulo Freire inaugurando novas salas de informática para rede municipal de São Paulo, 1990. 

Os eleitores paulistanos têm agora a oportunidade de decidir nas urnas a educação que desejam para os próximos quatro anos na cidade de São Paulo. Uma gestão consciente de sua responsabilidade com as periferias da cidade, preocupada e atenta aos problemas de moradia e educação, representa uma nova oportunidade para cidade de São Paulo se transformar quem sabe em uma cidade educadora. Como seres humanos é nosso dever lutar pela igualdade de direitos e oportunidades. É nossa responsabilidade quanto espécie preservar a vida de todos os povos do planeta acima das nossas diferenças. Nossa igualdade racial depende de justiça social, cientes de que não somos raças, somos gente, seres humanos, todos da mesma espécie, homo sapiens. 

De Zumbi à João Alberto Silveira Freitas,

De Janusz Korczak à Aylan Kurdi,

De Chico Mendes à Emrya Wajãpi,

De Anisio Teixeira à Marielle Franco,

Que a indignação supere os posts nas redes para transformar verdadeiramente as relações sociais racistas e fascistas deste mundo. 

Chapa Boulos-Erundina ganha apoio de petistas - Pensar Piauí

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Denis Plapler
Sociólogo pela PUC, SP, Mestre em Filosofia da Educação pela FE USP, Presidente da Associação Janusz Korczak Brasil.