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Dedo verde na escola
9 de janeiro de 2021

CULTIVANDO A ALFABETIZAÇÃO ECOLÓGICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A experiência em coordenar o projeto Dedo Verde na Escola nos anos de 2009 e 12 em escolas públicas da cidade de São Paulo me trouxeram inúmeras aprendizagens ao longo do processo cocriativo e participativo com a equipe do Instituto 5 Elementos e das escolas, que em 2018 transformei no livro – DEDO VERDE NA ESCOLA – Cultivando a alfabetização ecológica na educação infantil https://www.educacaoesustentabilidade.com.br/p/livro-dedo-verde-na-escola/.

Trago aqui um relato especial para o Portal da Educação dessa vivencia tão enriquecedora para todos/as que puderam participar, com a intensão de ampliar esse projeto em outras escolas e assim construir os valores e práticas da cultura da sustentabilidade.

Iniciando o processo

“O clima de respeito que nasce de relações justas, sérias, humildes, generosas, em que a autoridade docente e as liberdades dos alunos se assumem eticamente, 

autentica o caráter formador do espaço pedagógico.” 

Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia, 2003. 

Criar espaços educadores e ecológicos nas escolas, onde são vivenciadas atividades lúdicas, criativas e práticas de contato direto com os ambientes naturais para despertar o olhar das pessoas para os ciclos biológicos e, aprender sobre os padrões de funcionamento da Natureza, fundamentado no conceito de alfabetização ecológica foi um dos principais objetivos do projeto Dedo Verde na Escola, desenvolvido pelo Instituto 5 Elementos – Educação para a Sustentabilidade, em duas EMEIs – Escola Municipais de Educação Infantil do município de São Paulo, Dona Leopoldina e Ricardo Gonçalves nos anos de 2009 durante 12 meses e 2012 durante 8 meses, sendo financiado pelo FEMA – Fundo Especial de Meio Ambiente de São Paulo, com a coordenação de Mônica Pilz Borba, educadora ambiental, pedagoga e fundadora do Instituto 5 Elementos.

 1 Alfabetização Ecológica de Fritjof Capra – Segundo os pensadores e educadores que escreveram este livro, reorientar o modo como os seres humanos vivem e educar as crianças para que atinjam seus potenciais mais elevados são tarefas com aspectos bem semelhantes. Ambas têm de ser vistas e abordadas no contexto dos sistemas – familiar, geográfico ecológico e político. Para criar comunidades sustentáveis será necessário que as futuras gerações aprendam a estabelecer uma parceria com os sistemas naturais, em benefício de ambas as partes. Em outras palavras, elas terão que ser ‘ecologicamente alfabetizadas’. O conceito de ‘alfabetização ecológica’, inspirado nas teorias de Fritjof Capra e de outros líderes do Centro de Eco-Alfabetização, localizado em Berkeley, na Califórnia, vai além de educação ambiental como disciplina escolar.

Para promover a prática da educação para a sustentabilidade junto à comunidade escolar – crianças, professoras, gestoras, famílias e colaboradores – foram desenvolvidas metodologias participativas envolvendo tecnologias sociais inovadoras, capazes de sensibilizar as pessoas para apoiar a construção de valores fundamentado nas interações entre as várias formas de vida e em uma visão sistêmica que possibilita o conhecimento do micro ao macro e vice-versa.

Foi a partir desse objetivo que apresentamos o projeto Dedo Verde na Escola as diretoras das EMEIs em 2008, que compreenderam a importância de sua realização e desafios, apoiando em sua execução. O projeto foi um sucesso em ambas as escolas e as diretoras solicitaram sua continuidade, sendo encaminhada uma nova proposta para um novo edital do FEMA em 2010, que foi aprovado em 2012.

A 2ª etapa do projeto, junto as escolas, EMEI Ricardo Gonçalves com a importante presença da diretora Vera Tomasulo e com a EMEI Dona Leopoldina com nova diretora Marcia Covelo Harmbach reavaliamos o projeto ocorrido em 2009 retomando as necessidades conceituais, práticas metodológicas necessárias para recomeçar em 2012. É importante salientar e na EMEI Ricardo Gonçalves a equipe permaneceu praticamente a mesma, facilitando a continuidade e aprofundamento dos temas e práticas propostas pelo projeto, já na EMEI Dona Leopoldina além da direção boa parte do grupo docente também era novo, sendo necessário retomar do início o propósito do projeto.

Equipe de educadores do Instituto 5 Elementos de 2012 com as diretoras Vera Tomasulo (à esquerda) de vestido verde e Marcia Covelo (à direita) de vestido listrado.

Para desenvolver este projeto havia uma equipe onze profissionais envolvidos diretamente do Instituto 5 Elementos, sendo uma coordenadora geral, uma pedagógica, quatros educadores ambientais e dois estagiários (3 para cada escola), duas da área de comunicação e uma da área administrativa. 

O público beneficiado das EMEIs Dona Leopoldina e a EMEI Ricardo Gonçalves atendeu 32 professores, 360 crianças, 22 funcionários, 5 coordenadores e diretores e 562 familiares, por meio de diferentes metodologias e atividades educativas, envolvendo toda a comunidade escolar.

EMEI Ricardo Gonçalves envolvidos 14 professores, 125 crianças, 07 funcionários, 03 coordenação e direção e 246 familiares. Esta escola possui 5 salas de aula, 1 sala de leitura e 1 sala de informática. Área total: 1.920m². Área construída: 403m². Área verde: 265m². Área livre*: 1.252m². *existe um mosaico de espaços na escola. Partes com área cimentada, mas sem toldo, partes cimentadas e com cobertura, cantinhos ociosos que não se enquadram nem em áreas verdes nem em áreas construídas.
EMEI Dona Leopoldina envolveu 18 professores, 235 crianças, 15 funcionários, 02 coordenação e direção e 316 familiares. Esta escola possui 8 salas de aula e 1 multimídia. Área total: 8.000m². Área construída: 3.500m². Área verde: 4.500 m².

Como podemos observar as escolas tem características estruturais bem diferentes, pois a Ricardo Gonçalves tem o espaço praticamente 100% construído e impermeabilizado. Já a Dona Leopoldina tem muita área verde, sendo um desafio para a gestão cuidar e utilizar todas as áreas externas. E essa realidade foi contemplada no planejamento das atividades propostas para as escolas, porém com o desafio de criar espaços educadores ecológicos nas escolas.

Envolvendo todos no processo

O projeto teve como objetivo geral contribuir para a transformação do ambiente escolar baseado num trabalho cooperativo e solidário que promoveu o diálogo entre gestores, professores, funcionários, alunos e suas famílias, orientado pelos princípios da alfabetização ecológica e da permacultura. 

Como objetivos específicos: 

• incentivar a integração das ações do projeto com o conteúdo programático da escola;

• estimular e fortalecemos o processo de formação dos professores em alfabetização ecológica e da permacultura envolvendo a comunidade escolar;

• apoiar a criação, construção e manutenção dos espaços educadores;

• e desenvolver atividades práticas de sustentabilidade com alunos e pais, reforçando as ações educativas vivenciadas na escola.

Uma das primeiras metodologias desenvolvidas na versão de 2009 foi a construção participativa dos Mapas Verdes de cada escola, por ser uma ferramenta que facilita o redimensionamento no tempo e espaço escolar, e que apoiou um primeiro diagnóstico e direcionamento da construção do plano de ação. 

Os Mapas Verdes das escolas sistematizaram informações de todos os espaços físicos e social, sendo a coleta de dados realizada com as crianças, professoras, funcionários e equipe gestora, envolvendo – água, energia, ecossistemas, resíduos, locais de convívio e bem-estar, locais de risco, locais para alimentação, espaços educadores aconchegantes, locais para observação da fauna e flora e pela observação dos educadores ambientais. Na concepção dos mapas, foram utilizados os ícones do green map e criados novos ícones que foram disponibilizados nessa rede internacional de mapas verdes. Na sistematização, os ícones se apresentaram em três categorias: 

  • vida sustentável em azul
  • natureza em verde
  • cultura e sociedade em laranja,

tendo alguns ícones a serem criados em preto, e os já existentes em amarelo.

2permacultura é um método holístico para planejar, atualizar e manter sistemas de escala humana (jardinsvilasaldeias e comunidades)ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis. A permacultura foi criada pelos ecologistas australianos Bill Mollison e David Holmgren na década de 70, se baseando no modo de vida integrado à natureza das comunidades aborígenes tradicionais da Austrália.

3 Green Map – é uma rede de ícones globais e ferramentas adaptáveis, envolvendo comunidades em todo o mundo no mapeamento verde vivo, da natureza e recursos culturais.

A partir dessa sistematização foi possível observar, refletir e conversar sobre a concretização de espaços educadores ecológicos tais como: horta, sala verde, viveiro de mudas, apiário, observatório de aves e plantas, entre outros desejos das crianças e das professoras.

Em 2012, na reedição do projeto Dedo Verde na Escola foi utilizada a metodologia participativa da Flor da Cultura da Sustentabilidade visando identificar como estavam sendo trabalhados temas ligados à sustentabilidade na escola e a partir deste diagnóstico construir projetos que possibilitassem trazem esta temática de forma conceitual e prática para toda a comunidade escolar. Abaixo o cartaz da Flor da Cultura da Sustentabilidade.

Para desenvolver o projeto em ambas versões foram priorizadas cinco tipos de ações estratégicas, sendo elas reuniões de gestão, roda de conversas, oficinas temáticas, café com prosa e mutirões, envolvendo diferentes públicos.

Nas reuniões de gestão e rodas de conversa que acontecem nas JEIF eram priorizadas conversas sobre os conceitos das pétalas e planejamento das atividades.

Nas oficinas temáticas aconteceram as seguintes ações por pétalas: 

  • Energia e Tecnologia: Minhocário e compostagem, Terrário, Bioconstrução;
  • Segurança Alimentar: Horta Pedagógica, Horta com palha em caixote, Alimentação saudável; 
  • Interação Humana: Jogos Cooperativos, Vivências com a Natureza, Danças Circulares, Café com Prosa, Mutirão, Festa da Cultura Brasileira; 
  • Água: Sensibilização com água, Vivências com a Natureza; 
  • Espécies e ecossistemas: Vivências com a Natureza, Canteiro suspenso, Sementeira, Construindo significado de Natureza; 
  • Economia Local: Feira de Trocas, Mobilização da comunidade para doação de brinquedos, Mutirão.

O café com prosa promoveu encontros entre os docentes e gestores das escolas envolvidas no projeto em visitas monitoradas e oficinas de avaliação.

Os mutirões ecológicos possibilitaram a socialização e estímulo ao trabalho coletivo em torno de um objetivo comum, envolvendo e integrando familiares, educadores, funcionários, gestores e alunos, trazendo os saberes populares junto as práticas ecológicas, bem como o despertar da noção de pertencimento junto a escola.

Nas reuniões de gestão com coordenadores, diretoras da escola, professores e funcionários aconteciam mensalmente na JEIF – Jornada Especial Integral de Formação e num primeiro momento o projeto foi apresentado para ser integrado ao PEA – Plano especial de Ação. Ao longo do ano estas reuniões tiveram como objetivo acompanhar, replanejar e avaliar todas as atividades realizadas no projeto, para alinhar as ações tornando-as parte do dia a dia da escola. A partir deste canal de gestão participativa o projeto em cada escola criou sua identidade própria atendendo as necessidades da programação pedagógica estabelecida no planejamento escolar, integrando os novos conteúdos e atividades trazidas pelo projeto. Antes de iniciar as reuniões sempre eram realizadas dinâmicas de integração, danças circulares, alongamento e canto.

Nas rodas de conversa participam professores e os gestores das escolas, quinzenalmente sendo um espaço para sensibilizar e informar temas da alfabetização ecológica e da permacultura, viabilizando a construção participativa de um diagnóstico socioambiental escolar. Foi retomado a Mapa Verde de cada escola elaborado em 2009 e em 2012 utilizamos a “Flor da Cultura de Sustentabilidade” onde fizemos um diagnóstico sobre como foram desenvolvidos os temas: segurança alimentar; água, energia e tecnologia; interação humana; espécies e ecossistemas e economia local e questionando como vivemos cada um destes aspectos em nosso ambiente escolar, com o objetivo de promover reflexões e levantar questões ou problemas em relação a cada pétala/tema. Todas estas questões foram anotadas em pétalas sobrepostas a já existentes, como você pode observar nas fotos abaixo.

Conversar sobre estes temas socioambientais integrando os conhecimentos e inquietações era algo novo aos educadores e gestores. Durante a roda de conversa verificamos possíveis soluções para resolver os problemas abordados e registramos as sugestões de solução dos problemas numa terceira pétala. A partir desta construção coletiva foram priorizadas a sequência das ações que deveriam ocorrer para a realização do projeto Dedo Verde na Escola, envolvendo todos os integrantes da escola. A partir deste acordo coletivo as rodas de conversa foram realizadas leituras complementares de diversos autores para apoiar a criação de novos repertórios de transformação que as soluções dos problemas exigiram.

Abaixo os cartazes da Flor da Cultura da Sustentabilidade de cada escola, que é um elemento vivo de planejamento das atividades que serão desenvolvidas nos próximos meses e anos na escola, sempre aprimorando e aprofundando ações que potencializem a cultura da sustentabilidade com toda e rede de pessoas envolvidas com as EMEIs.

4 Leitura dos textos das publicações ao longo do projeto: Aprendendo com a natureza (Frijof Capra / Alfabetização Ecológica); “A Escola Sustentável” (Lucy Legan /IPEC); “Os Mapas” (Rubens Alves); Parâmetros Nacionais de Qualidade para Educação (Volume II – MEC); Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: formação pessoal e social (Volume II – MEC); Vivencias com a Natureza, Joseph Cornell; “O Menino do Dedo Verde” (Maurice Druon).

Desafio para profunda mudança de comportamento

Segundo observações dos educadores ambientais existiam falta de compromisso de parte da equipe de professoras em relação ao projeto. Perceberam que o comportamento de algumas era baixo ou nenhum envolvimento com as atividades do novo repertório, e não demonstravam nem interesse ou desejo em relação as atividades de aproximação com a Natureza. A partir dessa percepção convidamos as professoras em um dos encontros a saírem da sala e escolherem um lugar na escola, onde se sentissem em situação confortável para refletir sobre as seguintes perguntas norteadoras: 

  • Lembre-se de uma experiência que você teve em contato com a natureza. 
  • Pense na sua experiência do cotidiano e da profissão. 

Apesar de orientarmos para que as professoras saíssem da sala de aula e buscassem um espaço ao ar livre para fazer a atividade observamos a identificação de perfis diferentes de professoras, enquanto um grupo buscou lugares próximos à Natureza para suas reflexões, o outro grupo sequer tomou a iniciativa de sair da sala de informática, demostrando pouca abertura para a mudança ou transformação na forma em realizar as ações propostas. Durante a roda de conversa retomamos a importância de não perdermos o “encantamento” desta relação dos Seres Humanos – Natureza. Para encerrar a atividade a equipe do projeto analisou os dados coletados a partir das questões, trazidas pelos educadores foram feitas as seguintes reflexões: 

  • Alegria e Paz são sentimentos que apareceram com maior frequência entre as professoras quando a reflexão proposta foi sobre a relação pessoal de cada uma delas com a natureza. 
  • E quando esta relação é analisada do ponto de vista do “cotidiano e profissionalmente” é possível perceber que alegria é algo muito presente e importante nas atividades destas educadoras. 
  • É interessante observar também outros sentimentos nem tão presentes, mas nem por isso, menos significativos, como por exemplo: ansiedade e medo. 
  • Todos estes aspectos foram retomados ao longo das vivencias de contato direto com a Natureza com o objetivo de resgatar e ajudar a transformar estas sensações na busca do autoconhecimento e superação de problemas pessoais e profissionais de suas relações com a Natureza. 

Essa foi uma tentativa de envolver as professoras que estavam mais distantes do projeto, pois o engajamento no processo é de fundamental importância para atingir o objetivo almejado.

Novos repertórios para potencializar a cultura da sustentabilidade

As oficinas temáticas foram direcionadas aos professores e alunos quinzenalmente ou mensalmente, sendo a Horta construída como um espaço educador onde todos são responsáveis pela sua manutenção. Desde a escolha do local, o designer dos canteiros, cuidado com o solo, escolha das plantas foram planejados em conjunto com as professoras e alunos. Para a manutenção da horta foi definido que cada classe iria cuidar de um canteiro semanalmente, além do apoio de um jardineiro educador, que fez parte da equipe do projeto. Nessa atividade, as crianças tiveram um pouco mais de contato com a terra, retiraram plantas espontâneas dos canteiros, ajudaram na mistura do adubo orgânico com a terra do canteiro e semearam. 

Algumas crianças apresentaram receio em mexer com a terra no início, mas com um pouco de conversa, elas foram relaxando e respondendo bem às sensações que tiveram com a atividade. Alguns comentários: “a terra é geladinha”; “minha mãe não vai gostar de ver minha roupa suja assim”. Para encerrar, foi feita uma roda para cantar uma música alinhada ao tema do dia, quem vem sendo trabalhado pelas crianças. “Brota, brota semente da terra. Se abre ao sol, se balança ao vento, refresca da chuva, alimenta da terra. Respira, respira, vamos respirar”. 

Os comentários das crianças iluminam nossos caminhos e nos ajudam a refletir sobre os diversos desafios que esta prática nos revela, por exemplo o contato com a terra traz muitos benéfico para os seres humanos, pois segundo estudos é uma atividade terapêutica e que nutre nossa conexão com a mãe Terra, porém a cultura urbana desvaloriza a terra, plantas e insetos, enfim a Natureza e muitos adultos acreditam que estes elementos são sujos e prejudicam os seres humanos. 

O passo a passo da construção da horta em detalhes – estimula a memória das crianças por meio de perguntas como: “O que temos plantado na nossa horta?”, “O que mais podemos plantar na horta?”, “Por que temos que cavar a terra?”. A importância de realizar a rega, a adubação (adaptamos parte da história para mencionar a adubação), a importância das minhocas, a colheita e a importância de higienizar os alimentos antes do consumo. 

Uma conversa sobre economia solidária também fez parte das oficinas temáticas onde trouxemos a atividade da feira de trocas, mencionando que esta seria mais uma experiência para trabalhar alguns conceitos e valores em escala local, tais como: consumo consciente: resgatando o valor de uso e não o valor de mercado dos objetos; desapego; reutilização. Também foi mencionado que algumas comunidades criam moedas sociais para facilitar a troca de objetos e serviços. Solicitamos que os educadores trouxessem roupas, livros e objetos em bom estado para a feira de trocas. Os objetos foram colocados sobre a mesa e os participantes circularam para observar o que estava em exposição e logo iniciaram as negociações. Algumas pessoas compreenderam bem o conceito do desapego e da desconstrução da ideia de valor de mercado dos objetos. Em compensação, uma professora, afirmou ser impossível desapegar de seus objetos pessoais e revelou que ainda comprou algo para ser trocado na feira. É importante refletir que nossa atual sociedade de consumo está fundamentada nos valores do TER, sendo importante promover o diálogo sobre o tema consumo e sustentabilidade, além de promover ações práticas para estimular a troca, ao invés da compra, que tanto estamos acostumados.

Em outras oficinas temáticas destinadas a professoras o jardineiro educador realizou uma apresentação com breve introdução sobre o histórico, conceito e aplicação da permacultura com o intuito de reforçar a ideia e estimular as professoras para que possamos dar continuidade a essa segunda fase do Projeto Horta. Também abordamos as possibilidades de conteúdos relacionados a implantação dos terrários nas salas de aula. Cada uma delas pode escolher o melhor modelo de terrário, levando em consideração o tipo de animal e ou sua demanda de manutenção. Cuidar dos bichos e plantas diariamente trouxe a oportunidade de conhecer diferentes espécies, suas relações além de aprender a reconhece-las e a cuidar de todas elas. Todo este cuidado revelou-se nas relações humanas nas escolas, que segundo relato das professoras conforme o projeto trouxe este tipo de vivencia extremamente respeitosa com os seres vivos a amorosidade foi ampliada nas relações humanas da comunidade escolar.

Também ocorreu a oficina temática de Alimentação Saudável na reunião dos pais, onde foram feitos sucos naturais tais como: suco verde, suco de frutas e suco de cará, que auxiliam na melhoria de alimentação das crianças, valorizando o consumo de mais vitaminas e nutrientes. Na oficina foi orientado sobre a importância em substituir a alimentação industrializada pela natural, a necessidade de se preparar os alimentos junto com as crianças, pois assim elas aprendem a fazer e valorizar os nutrientes e vitaminas para que cresçam mais fortes e saudáveis.

Na oficina temática para professores utilizando o Jogo da Carta da Terra, que é cooperativo sendo criado pelo Instituto Harmonia na Terra, onde o tema central é a sustentabilidade, trouxe questões reais relacionadas com a nossa vida cotidiana e nossa responsabilidade em relação ao futuro da nossa casa planeta Terra. As cartas estimulam o diálogo, os jogadores compartilham trazem suas experiências pessoais e realizam ações práticas, como plantar uma semente, sempre pensando no grupo e como resolver juntos as situações propostas”.

Outra oficina temática que tivemos abordou as questões sobre a Mata Atlântica, sua fauna e biodiversidade e sobre convivência ambiental com a SOS Ambiental, que trouxe animais vivos para contato direto com as crianças. Esta experiência propiciou uma aproximação inédita das pessoas com animais: iguanas, cobras, sapos, tartarugas, trazendo uma vivência inesquecível para todos, quebrando paradigmas em relação aos medos que muitos tinham em seus inconscientes.

Ao construímos a horta, jardins de ervas e flores, compostagem e minhocário, novas possibilidades de uso ecológico do pátio da escola, sendo todas estas oficinas temáticas elencadas por professores, pais, funcionários, coordenadores e diretores a partir das rodas de conversa. 

Na oficina temática em visita ao parque da Água Branca, acompanhamos as crianças em um café da manhã muito animado, indo conhecer a Trilha Pau Brasil, explicando e fazendo as crianças explorarem a textura e algumas peculiaridades das plantas e árvores encontradas durante o percurso, como por exemplo, as características das sementes, troncos, folhagens e flores. Relacionamos a importância da floresta com a qualidade do solo, destacamos as semelhanças com as plantas da horta da escola, a diferença de temperatura dentro e fora da mata, explicamos também sobre as plantas exóticas e nativas do Brasil e o porquê de terem dado este nome ao nosso país. Estudos do meio como estes reforçaram todos os conteúdos e práticas adotados pelo projeto, trazendo a oportunidade de vivenciar o contato com a Natureza em outro espaço público.

Resultados

O projeto Dedo Verde na Escola criou espaços mais que educadores nas EMEIs, que a partir da difusão dos conhecimentos e práticas ligadas a alfabetização ecológica e da permacultura, os olhares e valores educacionais foram transformados, possibilitando um maior cuidado com a terra, com as pessoas e repartindo os excedentes. Para conhecer um pouco mais dessa história assista esse vídeo realizado em 2009.

Esse projeto se tornou um livro – DEDO VERDE NA ESCOLA – Cultivando a alfabetização ecológica na educação infantil https://www.educacaoesustentabilidade.com.br/p/livro-dedo-verde-na-escola/

Esse projeto inspirou a formação online Educação para a Sustentabilidade https://www.educacaoesustentabilidade.com.br/ que a partir de março de 2021 serão oferecidas aulas diretamente com a professora Mônica Pilz Borba.

Bibliografia básica do projeto

  • A Escola Sustentável, de Lucia Legan.
  • Alfabetização Ecológica. Frijof Capra.
  • Brincar e aprender com a Natureza, Joseph Cornell.
  • Criando Habitats na Escola Sustentável. Lucia Legan.
  • Hortas da Escola de Jardinagem do município de SP.
  • Manual de Hortas – Escola de Jardinagem – Helen Elisa C. R Bevilacqua.
  • O Menino do Dedo Verde. Maurice Druon.
  • Os Mapas. Rubens Alves.
  • Que Horta! Tatiana Belink.
  • Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: formação pessoal e social (Volume II – MEC).

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Monica Pilz Borba
Mônica Pliz Borba é Educadora Ambiental, formada em Pedagogia pela PUC - SP, fundadora do Instituto 5 Elementos, pós-graduada pela Faculdade de Saúde Pública da SP e em Agricultura Biodinâmica pelo Instituto Elo e Faculdade Uberaba.