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Do movimento estudantil ao MOVA
11 de outubro de 2021

 

Uma história de compreensão das sombras da Caverna de Platão ao diálogo com a Educação libertária de Paulo Freire.

Como uma fagulha de esperança, um olhar que se abre para um caminho nos move na construção de uma sociedade mais humana, justa, capaz de possibilitar conviver com ciência, saúde e paz? Graças à educação pública, o acesso à leitura, à uma professora, uma utopia juvenil seria apenas um sonho, contudo , sonhos também tornam-se a realidade de uma vida, uma busca incessante, diante do que muitos pensadores e ativistas já declararam como  uma luta urgente: educação como base para consolidação da democracia. 

Ao ler a história dos antepassados e contemporâneos, suas imensas contribuições para o avanço da humanidade,  percebi quando da possibilidade de acesso ao conhecimento desde a adolescência que pessoas podem mover o mundo e tem sido assim na história da humanidade. Imaginemos nosso mundo e onde não chegaríamos, não fosse a República de Platão sobre os diálogos de Sócrates do século IV antes de Cristo, não fosse Zumbi dos Palmares ter chegado à sala de aula após estudos de historiadores, não fosse Martin Luther King Júnior ser retomado várias vezes na célebre frase :  “ O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”, que nos possibilita compreender que não é aceitável uma brutal violência contra George Floyd assassinado em Minneapolis por um policial branco Derek Chauvin culminando no movimento Black Lives Matter ( Vidas Pretas Importam)retomando as mesmas marchas contra o Apartheid existente nos EUA , não fosse Carolina Maria de Jesus em seu Quarto de Despejo: Diário de uma favelada, ou não fosse Quino com sua Mafalda tão humana, não fosse Richard Bach em Fernão Capelo  Gaivota ensinando-nos sobre liberdade, quebrando os paradigmas e as amarras num vôo livre, o qual diferentemente de Ícaro, pela simplicidade e ousadia pode aprender a ser feliz e não através do Negacionismo ou pura presunção, buscar sua posição no mundo, não fosse Graciliano Ramos denunciando o abandono social das políticas públicas de um Brasil das Vidas Secas ou da brutalidade machista presente em São Bernardo ou ainda sua impecável administração pública como prefeito de 1928 a 1829 em Palmeira dos Índios, município de Alagoas, Mário de Andrade com a criação da escola parque propondo um olhar para infância,  não fosse Darcý Ribeiro que não somente em manifesto, foi ministro da educação e denunciou que a crise na educação não era uma crise, mas um projeto, não fosse Pagu uma normalista que colocou a questão do direito da mulher na pauta em pleno 1920 não só pela irreverência ou seu engajamento político no Partido Comunista do Brasil, 23 prisões, perseguida pelo governo de Getúlio Vargas, ou não fosse o olhar sobre o mundo e a sagacidade de Cecília Meireles “ Liberdade não é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que entenda”, não fosse a filósofa Hannah Arendt conceituar a importância do pluralismo político como potencial de uma liberdade e igualdade política ou Angela Davis como filósofa, feminista, perseguida pelo FBI, não fosse tantas outras pessoas que apesar de não estarem mais fisicamente entre nós , cuja luta seguem em nossas memórias,  alimentando nossa luta pela democracia, pelo direito à terra, pelo direito à vida, pela justiça e dentre essa infinidade de seres humanos inquietos com o mundo a sua volta, em especial em minha trajetória tive o privilégio de conhecer Paulo Freire muito antes da leitura de suas obras, na prática de uma educação libertadora no MOVA – Movimento de Alfabetização de Adultos. 

Legenda: ENCONTRO DE PROFESSORES E ALUNOS DO ENSINO MÉDIO DA TURMA DE 1992 REALIZADO EM 2013 NA  ESCOLA ESTADUAL PROFESSORA CLARINA AMARAL GURGEL

Antes de chegar ao Mova nessa conversa,  em 1990 quando Freire era Secretário de Educação na Cidade de São Paulo,  eu era estudante do Ensino Médio, começara a trabalhar com 13 anos, no centro de São Paulo, numa loja de roupas chamada  DICIL , saía de casa às 5 da matina, percorria 2 horas de ônibus ida, 3 horas retorno até o Grajaú, chegava sempre atrasado à aula que iniciava às 19h na E.E Professora Clarina Amaral Gurgel, e nessa rotina já começava a compreender também que sobreviver nesse turbilhão da metrópole de São Paulo exigiria de mim muito mais que sonho, ao observar  a rotina das pessoas, a luta diária contra o desemprego e um ônibus lotado com certeza pude viver uma leitura de mundo intensiva, à produção e escuta atenta às letras da Legião Urbana traziam-me a dimensão exata do quão a juventude nesse país não pode se contentar com migalhas ou obstáculos intencionais. Por isso atravessar a cidade, para ajudar a família pagar as contas e chegar à escola era pelo menos para mim, naquele momento um caminho mais curto para um amanhã, muito embora fossem oferecidos muitas outras possibilidades atrativas e levavam a não ter sonho ou pensar um amanhã senão a dor com que convivi nas perdas de amigos, vizinhos, para a violência comum do bairro. 

Legenda: A REPÚBLICA DE PLATÃO -OBRA

Como cheguei então ao magistério então? A esse percurso construído partiu do entusiasmo com que a professora  Ana Kátia Brandão , abriu as portas para a  Filosofia quando nas suas aulas de  Língua Portuguesa e Literatura trouxe-nos no 3º ano do Ensino Médio da E. E Clarina Amaral Gurgel uma proposta de leitura do capítulo 7 da República de Platão, e não era apenas uma leitura, era dramatização, roda de conversa, análise de imagens do cotidiano, eram intertextualidades e dialética, assim após inúmeras discussões sobre o Mito da Caverna, para mim um dos conteúdos mais relevantes até hoje, para reler o mundo e compreendi  que correntes são essas que aprisionam corações e mentes,  possibilitou-me valorizar o que podíamos ser ou manter sobre a busca da luz ou ainda manter a inércia observando as sombras e vendo a vida passar, como diria Raul : “com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”,  essa alegoria da Caverna e das sombras, dos Amos, das correntes,  tão forte em minha trajetória,  não demorou muito para querer mesmo sem saber como aquele  que mesmo retornando à caverna, caindo e se arrebentando, acreditasse na possibilidade de retirar as correntes que nos cercam e na utopia, mas como fazê-lo? Ainda não tinha respostas como.

Em 1992 ocorreu uma grande mobilização política no país para o impeachment de Fernando Collor de Mello, hoje não tenho dúvidas de que minha trajetória com a educação não findaria somente como aluno, nasceria junto ao movimento estudantil . Em 19992 ocorreu uma grande movimentação para participação estudantil no movimento do impeachment, na escola não havia Grêmio Estudantil, nem tampouco a Lei de Diretrizes e Bases da Educação existia, mas nosso apoio na luta era a constituição, após muito diálogo e com apoio dos professores, da União da Juventude Socialista realizamos um processo eleitoral de muito debate entre duas chapas: uma que defendia a Ordem e o Progresso  repleta de jovens, muito parecida com um MBL atual, e a chapa  na qual ocupei o cargo de presidente até o final do ano de 1992: “Consciência e Luta”, essa não foi somente uma vitória de um grupo, mas a partir do desejo de mobilizar a luta pela democracia percebíamos que demos início ao primeiro Grêmio Estudantil na E.E Clarina Amaral Gurgel que durou até 1995 quando a escola passou a ser apenas escola de Ensino Fundamental I num processo de reorganização das escolas estaduais de São Paulo. Nossa chapa fez ampla movimentação na escola para o diálogo e entendimento da democracia, do nosso papel como sujeitos históricos, nos engajamos  no movimento Fora Collor.  Contudo, se aproximava o fim do ensino médio em minha vida, e diante da vontade de passar no vestibular, incentivado pelos professores, o acesso em 1993 ao curso de Filosofia da FFLCH da USP não se concretizou, fiquei na lista de espera, considerei-me vencedor por ter passado para segunda fase da Fuvest e não ter desistido.Anos depois estaria na Faculdade de Educação, uma outra história.  

Legenda: MOVA SÃO PAULO

Ainda em 1992 nas caminhadas pelo Fora Collor conheci a Professora Élida (também Professora da E. E Professora Clarina Amaral Gurgel ) que convidou-me a participar de uma roda de conversa na Igreja do bairro, Paróquia Nossa Senhora de Fátima, era meu primeiro contato representando o Grêmio Estudantil numa conversa com um dos maiores movimentos pela educação popular que já tive conhecimento, com  uma grande caminhada em São Paulo a partir do governo de Luiza Erundina e de seu secretário de educação até 1991 Paulo Freire, e na sequência com um grande mestre Mario Sergio Cortella, à frente da Secretaria de Educação. Esse convite da mestra Élida, uma oportunidade de diálogo levou-me a um universo do qual concretizaria uma busca desde as viagens para praça da Sé, à aula sobre o Mito da Caverna, o engajamento no movimento estudantil pela UJS e sim no Mova – Movimento de Alfabetização de Adultos, comecei ainda no Ensino Médio dialogar com a pedagogia de Freire compreendendo que de fato quando  a “educação não é libertadora quando o sonho do oprimido é  ser opressor” ( Pedagogia do Oprimido), essa noção para um estudante de Ensino Médio possibilitou vislumbrar que a luta para transformação da sociedade passava essencialmente pela educação, e não qualquer educação, a mais desafiadora promover a mudança da escola pública, pois “ Educação não transforma o mundo, Educação muda as pessoas , Pessoas transformam o mundo” ( Pedagogia da Indignação) , se a “ Leitura de Mundo precede a leitura da palavra”( Ato de Ler) , todo sentido com a qual me deparei com o Mito da Caverna, a possibilidade de quebrar as correntes que nos amarram ao mundo das sombras, do controle, sem dúvida seria pela educação. Finalizei o Ensino Médio, em 1993 vivíamos à época uma dicotomia ininteligível numa leitura superficial e rápida, mas para qualquer leitura à Paulo Freire trago aos dias de hoje como provocação essencial para refletirmos sobre  o atual cenário, em 1993 tínhamos o primeiro operário na Presidência da República e na Prefeitura de São Paulo a eleição de um governo oriundo do governo militar, a prefeitura de São Paulo passava à administração de Paulo Maluf eleito pelo voto direto, enquanto estávamos na luta para não fechar as salas de Alfabetização de Adultos, uma perseguição maciça e estruturada contra as entidades que administravam os núcleos de Alfabetização do MOVA, enquanto Lula iniciava um grande movimento de acesso ao Ensino Superior , ao mesmo tempo aqui na cidade de São Paulo, nós educadores estavamos respondendo inúmeras questões da supervisão escolar do porquê:  “ Não basta saber ler que Eva viu a Uva.  É Preciso compreender qual posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”, se isso não foi viver Paulo Freire em todos os sentidos, não aprendi nada em minha existência.  Enquanto eu maravilhado descobria que a educação proposta por Freire guiava adultos a se  perceber como cidadãos e não como marginais, enquanto eu  aprendia nas formações de sexta-feira sobre a pedagogia e o diálogo pela autonomia, pela esperança , pela justiça social, enquanto construía uma noção sólida de que estamos e devemos ter uma noção como sujeitos históricos, para compreender que a educação permite o entendimento de que a noção de classe social é uma estação de partida e não de aprisionamento, infelizmente após inúmeros ataques, inclusive com  a invasão da Polícia Militar a pedido do governo Maluf aos Núcleos do Mova, na Igreja São Pedro ao qual trabalhava com 19 anos, cujo coordenador do Núcleo- Mateus*  tivemos que ver sendo algemado de forma truculenta, após grande revolta dos presentes, tentamos ali recuar para que a Rota não disparasse contra tantas vidas presentes, esse fato deu-me a dimensão da potência dessa educação freiriana, e hoje do quanto querem apagar essa história, mas que reside na memória e no sangue de muitos que lutaram e lutam pela democracia, pela educação e apesar de toda essa  perseguição política ao MOVA SP ainda com o corte de verbas pela Prefeitura à Associação Jardim São Pedro, o núcleo resistiu até o final do ano de 1993 de forma clandestina, e devido às inúmeras ameaças daquela situação minha história no Mova pausou em dezembro de 1993, contudo, “ Se a educação sozinha não transforma a sociedade, ela tampouco a sociedade muda” em Pedagogia da Indignação. A luta do MOVA continuou e com a eleição de Marta Suplicy e o projeto de Lei  01-0110/2005 de Paulo Fiorilo na Câmara Municipal o MOVA é reconhecido como organização legítima de alfabetização de Jovens e adultos respeitada em todo seu trabalho e ação pela erradicação do analfabetismo. O Movimento cresce em termos de organização e ocupa Brasil afora as pautas de luta.

Legenda: Da Esquerda para Direita – Paulo Fiorilo ( Foi Vereador por dois mandatos em SP Capital e agora está no mandato como Deputado Estadual de SP – autor do PROJETO DE LEI 01-0110/2005 que “Institui o programa “Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos do Município de São Paulo – MOVA-SP”, Educador Marcelo Costa Sena , Educadora Priscila Siriano

Conto esse relato porque a história está repleta de tiranos, mesmo acreditando que pessoas podem mudar o rumo da história, se essas pessoas encontram-se e comungam da mesma esperança a força é certa, e não significava o fim de uma luta ou uma decepção para busca de outras áreas. 

Ao retornar em 1994 para  educação pública, quando ingressei na universidade no curso de letras, encontrei-me numa sala de aula da rede estadual de São Paulo que em nada dialogava à rica experiência  com o MOVA, estava em outro espaço, mesmo sendo a escola de minha infância e adolescência, na E. E Professora Clarina Amaral Gurgel, o prédio continuava o mesmo com poucas mudanças, contudo profunda era minha perspectiva e conhecimento do que era educação e o que encontrava frente às crianças e adolescentes nas aulas, iniciava-se ali na escola em que aprendi a ler o Mito da caverna uma nova luta por uma educação democrática, significativa num sistema educacional organizado pelo Estado,  encontrava-me cercado de cartilhas, programas de educação, subsídios para o trabalho docente, na mão e olhava sempre para o passado tentando encontrar uma forma de encontrar a mesma escola em que fui gremista e aluno, mesmo agora inserido num grupo de docentes,muitos ex professores  que não somente defendiam Paulo Freire nos diálogos, mas carregavam isso nos projetos desenvolvidos, o sistema educacional, com inúmeras normatizações e imputando à escola desafios para dar conta de todo abandono social, uma lógica implementada das políticas neoliberais que transformam o potencial transformador da educação em algo assustador, mas mesmo assim, diante de toda opressão, o movimento de greve contra todos ataques continuamos resistindo.  

Uma escola pública que se limita a ser a Caverna de Sócrates está a serviço do Estado negligente,da exclusão social, mas para quem caminhou junto a Paulo Freire definitivamente tornar-se  inimigo desse estado seria elogio e estranho seria se não houvesse oposição numa democracia, portanto, para finalizar esse começo de diálogo convido  você que com paciência acompanhou essa prosa até aqui a manter Freire vivo, pois : “ É FUNDAMENTAL DIMINUIR A DISTÂNCIA ENTRE O QUE SE DIZ E O QUE SE FAZ , DE TAL FORMA QUE, NUM DADO MOMENTO , A TUA FALA SEJA A TUA PRÁTICA”.  

Viva Paulo Freire e gratidão a todos os educadores, mestres em minha trajetória que contribuíram para um jovem reconhecer-se educador no mundo, admirando os docentes valorizasse o magistério como, o local de onde falo e  pertenço a um caminho para construção de um mundo melhor. Portanto continuemos nessa caminhada de luz, pois, os  AMOS (personagens que controlam os homens no Mito da Caverna)  que habitam o poder sonham apagar a história de Paulo Freire porque reconhecem e temem que é possível a partir de sua proposta de educação, apagar da história da humanidade as sombras do Mito da Caverna.Link : https://www.youtube.com/watch?v=tdM2VGlI9Io participação de Mateus minuto 5:40 a 5:60 no documentário MOVA SP.

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Marcelo Costa Sena
Sou Professor de Língua Portuguesa e Língua Inglesa ( CEU EMEF Três Lagos), Assistente de Diretor da EMEF João da Silva. Além da carreira no magistério desenvolvi ao longo dos nos estudos, pesquisas , projetos e ações que visam a formação política e engajamento da sociedade com uma educação democrática e significativa, no combate às desigualdades sociais e o fortalecimento do direito à educação pública, gratuita, laica, que valorize as culturas e a história do povo e da comunidade, assim, entre as ações destaco atualmente o CANAL FALA ESCOLA e o Portal da Educadora que dialogam com essa visão e, sobretudo, minha vida pela educação.