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Educação de Surdos: crise feita de crises e mobilidade em um momento de pandemia
10 de junho de 2021

Aviso: neste texto, sempre que possível, adoto pronomes neutros para me referir a generalizações e plurais, embora a prática ainda não seja aceita pela norma vigente da Língua Portuguesa. Por exemplo: ao invés de surdo, utilizo o termo Surde. Nos casos em que não consigo utilizar da neutralidade, utilizo pronomes no feminino – mas isso não significa a exclusão de homens ou pessoas que se identificam com pronomes no masculino.

Obra do artista Odrus (reprodução)

A palavra crise é uma velha conhecida do povo brasileiro desde que a colonização colocou os pés (e armas) nessas terras. Hoje, enfrentando uma pandemia aliada a um projeto de governo genocida, a população vem enfrentando uma série de crises nos diversos setores: saúde, moradia, segurança, educação etc.

Sobre esse ciclo de crises, o professor Milton Santos, referência do pensamento geográfico, já apontou: as crises não se tratam de problemas que surgem de forma alienada, elas fazem parte do projeto capitalista de manter determinado grupo de pessoas no poder enquanto outros grupos são explorados para servir à manutenção desse sistema. 

Foi no livro Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal que o professor Santos apontou o caráter cíclico das crises. A crise, na prática, é composta por uma sucessão de crises manifestadas em momentos e localidades diferentes, em um processo de crise permanente cujos ciclos não são duradouros, mas contínuos e perversos. 

Por isso, comecei este texto comentando sobre diversos setores afetados na atual conjuntura, embora meu objetivo seja o de discutir sobre a educação de Surdes nesses tempos de pandemia: a crise na educação nunca foi e jamais será isolada das outras crises enfrentadas pela sociedade. Os problemas que debato aqui com você, leitora crítica, fazem parte de todo um projeto de necropolítica (não aprofundarei nas questões teóricas acerca desse conceito, portanto fica a sugestão de leitura do professor Achille Mbembe, que brilhantemente o discute à luz Foulcaltiana).

Populações minoritarizadas e o subjugar de suas vidas

Acredito que neste ponto tenha ficado claro que alguns grupos da população fiquem “por baixo” nesse esquema de crises organizados para e pela manutenção do capitalismo. Entre esses grupos, podemos citar LGBTQIA+, Pretes, mulheres, idoses, crianças, pobres, Pessoas com Deficiência, imigrantes.

Considerades Pessoas com Deficiência, Surdes participam dos mesmos processos que as pessoas ouvintes. Porém, há ainda um outro fator que implica sua exclusão/ posição por baixo da sociedade: a língua. A professora Ana Claudia B. Lodi em artigo de 2005 sobre a história da educação dos surdos à luz da visão bakhtiniana, explica em  que pessoas surdas vêm enfrentando conflitos e controvérsias acerca da necessidade ou não de aprenderem língua falada (e, claro, com discussões e decisões determinadas por pessoas ouvintes).

Surdes e linguagem: reconhecimento da Libras 

Marcada por momentos de imposição da língua falada pura (Oralismo), uso de sinais e gestos como instrumentos de ensino de fala (Comunicação Total) e luta pelo reconhecimento e respeito à língua de sinais (Bilinguismo), a educação de Surdes carrega marcas de violência e opressão, resistência e luta. 

No mundo acadêmico e no mundo das artes, ela tem sido estudada à exaustão. Histórias de Surdes que tiveram suas mãos amarradas para que fossem impedides de interagir pela língua de sinais em um passado não distante circulam em livros, textos, vídeos e rodas de debate. Assim como histórias de abandono pela família, patologização de sua diferença e capacitismo cometidos por profissionais de escolas, hospitais e instituições de atendimento à Pessoa com Deficiência.

A preocupação se deveria ou não ser ensinada a língua falada por pessoas ouvintes para Surdes é, sim, importante. Mas é uma discussão ultrapassada, já bastante desgastada na Comunidade Surda. Deveria ser algo já amplamente divulgado, discutido e sabido pelo resto da população.

Nossa história se inicia com a primeira escola de surdos em 1857 (atual Instituto Nacional de Educação de Surdos — INES) no Rio de Janeiro, e foi somente no final dos anos 90 que as discussões acerca de desenvolvimento começaram a ser realizadas na área. E isso inclui perspectivas sobre língua(gem).

Tela do artista plástico Rudolf Werner (reprodução)

Finalmente agora, em 2021, tramita um projeto de lei que reconheça a Libras como primeira língua e o português como segunda nas escolas bilíngues para Surdes, a partir da proposta de um senador do Podemos do Rio Grande do Norte. Isso significa que, caso aprovado, fique garantido que nessas escolas a Libras não seja proibida ou seu uso seja prejudicado.

Pandemia – crise na educação de Surdes em um mundo de injustiças sociais

Ilustração da artista plástica Nancy Rourke (reprodução)

Um estudo realizado no estado do Paraná pelas professoras Elsa Shimazaki, Renilson Menegassi e Dinéia Fellini indicou que os problemas enfrentados por alunes Surdes durante essa pandemia são similares aos relatados por ouvintes:

a) o ensino remoto é um desafio na preparação de aulas; 

b) alguns alunos vulneráveis economicamente não acessam atividades remotas; 

c) alunos sem auxílio parental para os estudos;

d) dificuldades de compreensão e interpretação dos enunciados; 

e) sem contato social escolar, o isolamento afeta o desenvolvimento linguístico e social dos surdos.” 

Destaco que esse estudo, realizado com 47 alunes entre 0 e mais de 50 anos de idade, também apresentou o resultado que 88% das familiares desses alunes não usam e nem dominam a língua de sinais.

Sobre isso, Bakhtin e Volochínov (1981, p.85) já apontavam a perspectiva da expressão ideológica em relação à linguagem na construção do eu a partir da interação com o outro em um contexto. Não se restringe à função comunicativa ou às suas estruturas e regras. Dominar o discurso torna-se avançar na hierarquia do sistema, manipular mais e ser menos manipulável (LEFFA; IRALA, 2014, p.24).

Imagine então a situação de alune pobre sem internet banda larga em casa cuja família não conheça e não utiliza a língua de sinais. Com a chuva de novos aplicativos e plataformas de ensino adotadas em caráter emergencial pelas escolas, como esse alune acessará as aulas e realizará as tarefas? Há algum tipo de organização para orientação quanto ao uso dessas ferramentas ou ficou a critério de cada unidade escolar?

Estamos condenades? – mobilidade na atualidade e o futuro que nos aguarda

O cenário que enfrentamos atualmente infelizmente não tem prazo para acabar. Mas, como um grande estudioso que admiro, Gee, disse: a missão do educador deve ser a de construir com os alunos uma relação de ensinar-aprender, com objetivo de possibilitar aprendizagens que os levem para uma participação social completa e em posição de equidade. 

Nesse sentido, é preciso que estejamos alinhades com a história de lutas na educação de Surdes e que não sucumbamos à série de tentativas de nos enfraquecer. Na área da Sociolinguística, há um conceito muito explorado por Blommaert que proponho para nos nortear: mobilidade. 

O autor defende que o termo não se refere apenas ao transitar em espaços geográficos. Mobilidade trata-se aprendizagem de roteiros, construindo modos de agir em determinada interação que possibilitem ao sujeito ser bem-sucedido mesmo em uma situação com a qual ele não seja necessariamente familiarizado.

É preciso ampliar horizontes, experimentar vivências reais, contextualizadas e com objetivos reais, para que esse aprendiz se mobilize, conheça outras realidades e então problematize e transforme sua própria realidade e, consequentemente, transforme a realidade (a própria e a de nossa sociedade) frente ao capitalismo e à tirania da informação e do dinheiro.

Então, como promover mobilidade em tempos de aulas remotas em uma pandemia no Brasil? Esse artigo obviamente não tem a pretensão de esgotar essa discussão. Ao contrário, trata-se de uma chamada para o debate de forma dialógica pela emancipação de alunes Surdes (saudações ao querido mestre Paulo Freire). 

Começo esse debate convocando professoras e professores da educação a refletir de forma crítica sobre nossas práticas como sujeitos que também estão sofrendo os efeitos dessa realidade cruel. De que forma eu, em minhas vivências e lutas, consigo utilizar ferramentas e repertórios para promover essa mobilidade para alunes Surdes? Como posso contribuir para a luta, mesmo trabalhando majoritariamente com ouvintes?

Comente suas reflexões nas redes sociais do Portal da Educadora, vou adorar ter essa troca com você.

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Sayuri Hamada
Sayuri Hamada é professora de Inglês e trabalha com Surdes e ouvintes. Co-fundadora da Sister – Inglês para todes.