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Educação e crise na pandemia: Comunicação direta e autogestão como alternativas possíveis.
14 de abril de 2021

A atual pandemia nos trouxe uma situação extraordinária que nos força a refletir, com maior ou menor profundidade, sobre os nossos hábitos individuais, as relações, os projetos de vida e tantas outras questões relacionadas a uma dimensão pessoal, ao mesmo tempo que também tem nos colocado para pensar, ainda que timidamente, sobre a organização mais geral da nossa sociedade. 

Com esse cenário, não tem sido difícil encontrar falas de especialistas, de diferentes áreas, anunciando a necessidade de alternativas para mudanças mais estruturais. No caso da educação não tem sido diferente.  

A cada momento, tem surgido debates que refletem questionamentos e necessidades de educadores, famílias e sociedade em relação à educação. 

O fechamento dos prédios escolares, a implementação do ensino remoto e atualmente o debate sobre a retomada do ensino presencial são discussões que tocam e revelam aspectos do esgotamento do atual modelo educacional orientado pela obediência, memorização e a passividade. Apesar da sua importância nesse momento, tais demandas desviam ou ocultam outras reflexões centrais e necessárias para repensarmos nossos projetos educativos. Além de servir de cortina de fumaça para os movimentos de alguns grupos.

O setor privado da educação, através de fundações e institutos, tem se articulado de forma rápida, consolidando sua influência em secretarias de educação e educadores, oferecendo respostas para esses novos tempos que se aproximam. Apostando na formação dos educadores, a cada dia vemos mais cursos e formações que prometem domínio dos termos (normalmente em inglês) que estão na moda no âmbito educativo .

Ao mesmo tempo, esse setor tem investido em soluções para as mudanças ocorridas  com a chamada Uberização das relações de trabalho. Tais mudanças têm resultado na exploração da mão de obra por algumas grandes empresas, tendo como principal característica a ausência de qualquer vínculo de responsabilidade ou obrigação com relação aos “parceiros”, como são chamados os prestadores de serviços. 

Vende-se a ilusão de um trabalho atraente e ideal e a possibilidade de se tornar um empreendedor, autônomo, com flexibilidade de horário e ganhos financeiros imediatos. Mas a realidade tem sido de extensas jornadas de trabalho com rendimentos cada vez mais baixos.

A resposta dada a esse fenômeno, no campo educacional, é um projeto que atualiza a chamada “educação bancária”, nomeada por Paulo Freire, com as prioridades e necessidades atuais do neoliberalismo. 

Vemos surgir, então, em espaços de educação, uma nova cultura organizativa para os trabalhadores e para os educandos a instrução para essa nova selva do trabalho, em que o mais forte sobreviverá. 

Dessa forma, a reprodução das contradições da sociedade atual, são mantidas em um modelo que prepara poucos para os postos de gestão de um sistema doente e destina a massa dos nossos jovens para trabalhos cada vez mais precários e um futuro de incertezas.

Certamente, as crises abrem espaço para novas posturas e movimentos de diferentes setores organizados, ao revelar o esgotamento do ciclo anterior. Nesse momento de aumento das desigualdades e de ausência de políticas públicas capazes de atenderem as necessidades da nossa população, é preciso pensar os tipos de articulações possíveis para discutir e construir a educação que queremos em nossas comunidades. 

Sem a pretensão de dar uma resposta exata para realidades tão complexas e distintas, mas partindo de algumas experiências, e da urgência do momento, penso que algo aparentemente simples como a organização de ambientes de comunicação entre famílias, educadores e sociedade, para solucionar conflitos e criar possibilidades, é um excelente início. 

Dado o momento, parece ser difícil encontrar espaços para criar coletivamente e também escutar e se comunicar verdadeiramente. Propostas simples, podem parecer inocentes para os que se acostumaram a complicar as coisas. Sentar-se com outros para encontrar soluções comuns rompe a dinâmica do individualismo e colabora em experiências de organização e vivências comunitárias e autogestionadas em que o “nós” ocupa o lugar central.

Ocupar o vazio deixado pela omissão do poder público e se organizar junto a outros pensando e construindo a educação que queremos, com nossas crianças e jovens, é uma tarefa urgente e necessária. A famosa frase de Darcy Ribeiro, “A crise da educação no Brasil não é crise, é projeto” nos mostra que seria uma ingenuidade pensar que os poderes político e econômico estivessem dispostos a criar um projeto de educação e de país que diminuíssem sua influência e controle. E que a resistência a tais projetos deve existir superando a normalização dos absurdos que nos acostumamos a ver diariamente.

Disputar os espaços nas nossas comunidades, propondo e construindo projetos, nos lugares em que possamos, de uma educação humanizadora e democrática, identificada com seus territórios e com as necessidades e direitos da nossa gente, é uma missão que pode ser ampliada a partir de coletivos de educadores, famílias e também dos estudantes.

Em tempos difíceis como os que vivemos, é preciso dar sentido a nossa ação cotidiana, fortalecendo laços em projetos comuns que nos abra o futuro individual e coletivamente. Não se entregar a aceitação de um projeto que desumaniza a nós e aos que estão ao nosso redor como única verdade e assumir a tarefa de recriar a educação em nossos territórios, com criatividade e potência, é o tipo de ousadia que necessitamos. 

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Samuel Chaves
Samuel Chaves é geógrafo e educador formado pela Universidade de SP. Estudante de pedagogia e professor da rede municipal de SP. Coordenador pedagógico da Cooperativa de educadores da Cohab II e militante humanista.