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Escola Para Quê? Para Quem?
30 de novembro de 2020

Cérebros brilhantes também podem produzir grandes sofrimentos. 

É preciso educar os corações.

Dalai Lama

Eu sempre fui professor de Ensino Médio nestes 31  anos de magistério e, por isso mesmo, nunca tive muito contato com professoras da Educação Infantil, para além das festas escolares e confraternizações da escola.

Um dia, na sala dos professores, me peguei prestando atenção à conversa de duas delas, em que uma estava contando para a outra que havia recebido em Agosto um estudante que “não sabia as cores”. Não consegui segurar a minha pergunta: “Ele é cego?”. A professora sorriu e com aquela calma e paciência que as professoras de Educação Infantil têm para ensinar o que seria óbvio para todos, me respondeu “Não, Fernando, ele ainda não consegue nomear as cores que ele vê”.

Naquela hora me veio esta percepção: A gente pode até esquecer que foi ensinado, mas não daquilo que nos foi ensinado. Isso foi fundamental para que eu revisse o papel da Educação Infantil e da Educação em minha atividade.

O questionamento sobre o papel da instituição escola deveria ser a prática de todo educador. Entretanto, graças à pandemia, este assunto está cada vez mais em pauta.  A estrutura escolar vem sofrendo, por parte dos estudantes e dos educadores, a cada dia, e nos últimos dias ainda mais. O contato, as trocas de olhares e sorrisos, os cochichos entreouvidos, tudo isso desapareceu de uma hora para outra, sendo trocado justamente por aquilo que mais criticávamos nos estudantes; a tela de um computador, tablet ou celular. Nós, que tanto criticávamos o “tempo perdido” por eles nas telinhas, passamos a exigir que eles ficassem em frente a uma por horas e horas a fio diariamente, vendo um professor de fotografia 3 X 4, sem cintura, sem pernas, sem mobilidade a não ser as mãos (desde que não saiam do enquadramento da câmera). As aulas presenciais, que em muitos casos já eram um tormento para os estudantes, se transformaram num inferno para eles e para os professores, que nunca haviam sequer imaginado este tipo de nova relação que se estabeleceu.

Nesta nova situação, muitas escolas tentaram replicar o modelo de sala de aula para a “sala virtual”. Haja programas, aplicativos e empresas que espertamente vendiam soluções mágicas para este “novo normal” (detesto esta expressão). Falharam miseravelmente. Mesmo quando disfarçadas de sucesso, falharam. O sociólogo Marshall McLuhan em sua obra “Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem”, lançou o principal axioma das escolas de publicidade : “O Meio é a Mensagem”. Em linhas gerais, o que McLuhan quis expressar, é que o meio faz a mensagem ser compreendida. Ou seja, cada mensagem precisa ser exposta no meio correto, caso contrário ela perderá, totalmente ou em partes, o seu objetivo. Então, me parece claro que se o meio muda, a mensagem deve mudar e isso, ao que parece, não foi aprendido pelas escolas.

Neste novo meio de escolarização remota (veja que não usei nem a palavra ‘ensino’ nem ‘educação’) o meio mudou, mas a mensagem não. A escola ainda parece querer garantir-se como espaço de saber, enquanto que o estudante é o sujeito que ignora. Não podemos mais pensar as relações de aprendizado nestes moldes. Na verdade nunca deveríamos ter pensado assim. O espaço do conteúdo acadêmico vai sendo transferido rapidamente do espaço escolar para o universo virtual. Querer impedir este movimento é como querer segurar com as mãos uma corda que corre rapidamente. Vamos nos machucar. Vamos nos machucar por querer manter estático algo que não apenas é dinâmico, mas velozmente dinâmico. O volume de conteúdo oferecido pela Internet cresce num dia aquilo que não somos capaz de aprender em uma vida. Ora, como competir com esta realidade?

Simples, não dá para competir. Temos que aceitar esta realidade. E a partir desta aceitação, chegamos à primeira pergunta que está no título deste texto – Escola para quê? – Se a escola não é mais o espaço do saber, do conteúdo, é o espaço de que? A epígrafe deste texto feita pelo Dalai Lama pode nos dar uma direção para onde olhar. A escola cada vez mais se tornou um espaço de treinamento ou adestramento das mãos. A própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação em seu artigo primeiro, parágrafo segundo parece indicar e priorizar os objetivos da educação: “A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social.”. Primeiro o trabalho, a sociedade vem depois. A grande maioria das escolas convencionais (prefiro esta expressão à chamá-las ‘tradicionais’) parece ter entendido o recado e cumpriu à perfeição seu objetivo. A escola se transformou em um espaço de aprendizagens – técnicas ou não – que permitem o ingresso e a adaptação do estudante ao “mundo do trabalho”, seja ao aprender competências técnicas como a leitura de manuais de operação e montagem, seja ao aprender competências relacionais como hierarquia, tempo, obediência.

Acredito ter chegado o tempo de “educar corações”, nas palavras do Dalai Lama. Quero deixar registrado que admiro e louvo a intenção do MEC em instituir as competências socioemocionais na BNCC. Creio ser um início, mas ainda muito tímido e longe do ideal. As competências socioemocionais ainda são vistas como um instrumento para se atingir um melhor desempenho escolar. Digo aqui com todas as letras: Às favas o ‘desempenho escolar’! De que adianta um conhecimento técnico sem estar profundamente ancorado em uma base ética? De que adianta estabelecermos a bela palavra “empatia” enquato a habillidade de “se colocar no lugar do outro”, sem que junto não esteja presente um genuíno interesse pelo bem estar deste outro? Estelionatários são pessoas extremamente empáticas, sabem muito bem como falar e agir para tocar o outro naquilo que é mais importante para ele a fim de ter um ganho pessoal e, por isso mesmo, criminoso. Sem um verdadeiro olhar compassivo que vai além da empatia tornando o outro o centro de seu interesse, as competências socioemocionais serão em um primeiro momento inócuas, para depois serem descartadas como algo que desvia a atenção do que “verdadeiramente importa”. A escola deve ser o lugar onde o coração está à frente. É no coração e não no cérebro a saída dos problemas que nós mesmos criamos ao inverter as prioridades. É na compaixão e não no algoritmo que devemos procurar instruções de como agir de forma a beneficiar a todos: a nós mesmos, ao outro, à sociedade e ao meio ambiente. Está na cooperação e não na competição a forma de sobrevivermos e nisso reside o nosso desafio de fazermos uma educação do coração.

O parágrafo acima, a meu ver, responde a segunda pergunta do título – Para quem?. Se a escola que educa o coração não for para todos, será para ninguém. Estamos todos no mesmo barco planetário e este barco já está dando sinais de que, se não fizermos algo com urgência, vai naufragar. Nesse naufrágio, não haverá sobreviventes, a não ser que todos ajamos. Não há primeira classe neste barco, não pode haver. Não há mais espaço para privilégios de qualquer grau – gênero, cor, renda ou educação ou nenhum outro.

Então pessoal há muito o que fazer e não há ninguém melhor do que nós educadoras e educadores para fazermos o que é necessário para que nossos estudantes possam até nos esquecer, mas não do que ensinamos.

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Fernando Leao