Comece a digitar sua pesquisa acima e pressione Enter para pesquisar. Pressione Esc para cancelar.
John Dewey e a Lição de Casa: A vida escolar não pode ser apenas uma preparação para a vida adulta, as crianças já estão vivas!
22 de abril de 2019

Dizer para criança que é preciso fazer qualquer coisa desagradáve simplesmente por ser desagradável, pois “a vida é assim e não fazemos apenas aquilo que queremos”, nada diz de significativo a criança. Ainda assim, apelar a todo o tempo apenas para o inte

Dizer as crianças que é preciso fazer qualquer coisa desagradável simplesmente por ser desagradável, pois “a vida é assim e não fazemos apenas aquilo que queremos”, nada diz de significativo a criança. Ainda assim, apelar a todo o tempo apenas para o interesse da criança também pode ser prejudicial a sua formação. A famosa e polêmica "Lição de Casa", por exemplo, precisa ser sempre significativa.

A obra de John Dewey aposta na capacidade de pensar, questionar e problematizar a realidade por parte de seus alunos. Influente no movimento da Escola Nova, motivou pensadores brasileiros como Anísio Teixeira, também partidário da democracia como elemento fundamental na educação. A filosofia da educação de Dewey defende a ideia dos alunos empenharem-se em atividades práticas que proporcionem experiências coletivas de aprendizado, como podemos observar em Democracia e Educação[1].

Persistente em estreitar relações entre a teoria e a prática, valorizava também a troca dialógica de experiências de situações cotidianas (DEWEY, 1959). Enxergava na escola um local de encontro potencializador. Não via a vida escolar como uma preparação para a vida adulta, mas uma oportunidade para recriação de significados, nos quais reflexão e ação são parte de um todo indivisível, pois, como afirmou, "Afinal, as crianças não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo" (DEWEY; 2007). Para Dewey, não há separação entre vida e educação, e  a educação deve promover o constante desenvolvimento das crianças.

Em sua obra, Dewey elabora uma profunda reflexão sobre as possibilidades de realização dentro da educação. Explicita a necessidade incondicional de uma sociedade verdadeiramente democrática para construir um sistema educacional que possa cumprir com os seu objetivo de habilitar os indivíduos a dar continuidade a sua educação, tomando como objeto da aprendizagem a capacidade de desenvolvimento constante. Dewey enxerga a educação como uma necessidade da vida humana independente da cultura e do tempo.

O autor acredita que o problema principal está no fato de a sociedade contemporânea não ser realmente democrática, e na forma como a educação está inserida nesta sociedade. Trabalho e lazer, assim como individuo e sociedade, natureza e cultura, atividade prática e atividade intelectual, nada disto pode ser uma dualidade. Esta incoerência na maneira de estruturar o pensamento e a sociedade precisa ser superada para que possamos construir uma sociedade pautada em um novo modo de pensar, na democracia.

Esta ruptura entre fim e meio, que segundo o autor, deprecia a importância da atividade educacional e tende a torná-la  um trabalho penoso, o qual o individuo evitaria se pudesse, e apenas realiza por obrigação ou medo, é o tema central de seu texto Interesse e Esforço.[2] Neste texto Dewey analisa tanto a teoria do esforço, que pretende ensinar através da insistência e da obrigação, como a do interesse, que visa estimular o aprendizado pelo desejo dos alunos.

Dewey explica que a teoria do esforço, ao dizer para criança que é preciso fazer qualquer coisa desagradável simplesmente por ser desagradável, nada diz de significativo a criança. E esta não cumprirá tal tarefa se não for obrigada a isto. Porém, na medida em que esta pressão externa diminui, a atenção da criança pode se voltar a algo do seu interesse. (DEWEY, 1985)

Na realidade, a teoria contradiz-se a si mesma. Psicologicamente, é impossível desenvolver qualquer atividade sem que algum interesse entre em jogo. A teoria do esforço substitui um interesse por outro. Substitui pelo interesse impuro do medo do professor ou esperança de qualquer recompensa, o interesse real e puro no material apresentado. (DEWEY, 1985)

Contra a teoria do interesse, afirma Dewey, poderia se alegar que a vida está cheia de coisas desinteressantes e que devemos suportá-las, pois a vida é assim.

A não ser que estejamos habituados a nos devotar a tarefa insípidas: a não ser que, por educação, nos acostumemos a fazer as coisas simplesmente porque devem ser feitas, sem nenhuma relação com a satisfação pessoal que nos possam trazer, nunca viremos a ter caráter nem força de vontade perante as coisas sérias da vida. A vida não é uma sucessão de amabilidades ou uma contínua satisfação de interesses pessoais. Tem que ser, pelo contrário, exercício contínuo de esforço no cumprimento de deveres, para que se forma o hábito de lidar com a laboriosa realidade da existência. Qualquer outra coisa destrói a fibra íntima do caráter e produz esses seres sem cor e sem vontade, moralmente dependentes e oscilantes ao sabor das solicitações da distração e do prazer. (DEWEY, 1985, p. 154)

Dewey defende que apelar todo o tempo para o interesse também é prejudicial a formação da criança, pois, se tudo se torna diversão e brincadeira, suas atividades são constantemente interrompidas. O resultado disto é uma criança “mimada e estragada, que só faz o que quer” (DEWEY, 1985, p. 154). Como vimos, o esforço necessário, mas deve estar ligado a satisfação pessoal, de forma que os hábitos desenvolvidos sejam realmente significativos, para que o caráter e os valores morais das crianças possam desenvolver-se de forma consistente.

Ao examinar as duas teorias Dewey afirma que ambas procuram destruir-se mutuamente, ambas não reconhecem a identificação de fatos e atos com o indivíduo e ambas são prejudicais moral e intelectualmente.  Isto porque atentam não aos pontos fortes uma da outra, mas focam-se nos pontos fracos. Reconhecem o objetivo final como exterior ao individuo. Se o objeto de estudo precisa ser enfeitado para atrair o interesse da criança, ou necessita de esforço para que ela o apreenda, isto implica em acreditar que não há um vinculo entre o sujeito e o objeto, pois ambas as teorias precisam compreender exatamente isto. “O legítimo principio de interesse, entretanto, é o que reconhece uma identificação entre o fato que deve ser aprendido ou a ação que deve ser praticada e o agente que por essa atividade se vai desenvolver.” (DEWEY, 1985, p. 155). A todo tempo notamos  na concepção de educação de John Dewey uma preocupação com a formação moral das crianças, assim como uma preocupação de uma aprendizagem realmente significativa, da qual o objeto de estudo precisa estar interiormente ligado a questões do íntimo de cada criança.

Com esta relação entre sujeito e objeto elaborada de forma a propiciar identificação dos agentes envolvidos, ele explica que os educadores não precisariam  apelar a todo momento para a força ou para a vontade, que formam, na concepção de Dewey indivíduos que ora aprendem a agir de forma mecânica e alienada, ora de forma a  imbecilizar a vida.

 

 


[1] DEWEY, John, Democracia e Educação; Apresentação e comentários Marcus Vinícius da Cunha; [Tradução Roberto Cavallari Filho]. – São Paulo: Ática, 2007.

[2] DEWEY, John, Experiência e Natureza; Lógica: a teoria da investigação; A arte como experiência: Vida e educação; Teoria da vida moral/ John Dewey; traduções de Murilo Otávio Paes Leme, Anísio S. Teixeira, Leonidas Gontijo de Carvalho. – 2. Ed. – São Paulo: Abril Cultura, 1985. – Traduzido de Interest and Effort in Education, edição da Houghton Mifflin Co. Of Boston ( Riversidade Educational Monographs, sob a direção de Henry Suzzallo). (N. do E.)

 

Dizer as crianças que é preciso fazer qualquer coisa desagradável simplesmente por ser desagradável, pois “a vida é assim e não fazemos apenas aquilo que queremos”, nada diz de significativo a criança. Ainda assim, apelar a todo o tempo apenas para o interesse da criança também pode ser prejudicial a sua formação. A famosa e polêmica "Lição de Casa", por exemplo, precisa ser sempre significativa.

A obra de John Dewey aposta na capacidade de pensar, questionar e problematizar a realidade por parte de seus alunos. Influente no movimento da Escola Nova, motivou pensadores brasileiros como Anísio Teixeira, também partidário da democracia como elemento fundamental na educação. A filosofia da educação de Dewey defende a ideia dos alunos empenharem-se em atividades práticas que proporcionem experiências coletivas de aprendizado, como podemos observar em Democracia e Educação[1].

Persistente em estreitar relações entre a teoria e a prática, valorizava também a troca dialógica de experiências de situações cotidianas (DEWEY, 1959). Enxergava na escola um local de encontro potencializador. Não via a vida escolar como uma preparação para a vida adulta, mas uma oportunidade para recriação de significados, nos quais reflexão e ação são parte de um todo indivisível, pois, como afirmou, "Afinal, as crianças não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo" (DEWEY; 2007). Para Dewey, não há separação entre vida e educação, e  a educação deve promover o constante desenvolvimento das crianças.

Em sua obra, Dewey elabora uma profunda reflexão sobre as possibilidades de realização dentro da educação. Explicita a necessidade incondicional de uma sociedade verdadeiramente democrática para construir um sistema educacional que possa cumprir com os seu objetivo de habilitar os indivíduos a dar continuidade a sua educação, tomando como objeto da aprendizagem a capacidade de desenvolvimento constante. Dewey enxerga a educação como uma necessidade da vida humana independente da cultura e do tempo.

O autor acredita que o problema principal está no fato de a sociedade contemporânea não ser realmente democrática, e na forma como a educação está inserida nesta sociedade. Trabalho e lazer, assim como individuo e sociedade, natureza e cultura, atividade prática e atividade intelectual, nada disto pode ser uma dualidade. Esta incoerência na maneira de estruturar o pensamento e a sociedade precisa ser superada para que possamos construir uma sociedade pautada em um novo modo de pensar, na democracia.

Esta ruptura entre fim e meio, que segundo o autor, deprecia a importância da atividade educacional e tende a torná-la  um trabalho penoso, o qual o individuo evitaria se pudesse, e apenas realiza por obrigação ou medo, é o tema central de seu texto Interesse e Esforço.[2] Neste texto Dewey analisa tanto a teoria do esforço, que pretende ensinar através da insistência e da obrigação, como a do interesse, que visa estimular o aprendizado pelo desejo dos alunos.

Dewey explica que a teoria do esforço, ao dizer para criança que é preciso fazer qualquer coisa desagradável simplesmente por ser desagradável, nada diz de significativo a criança. E esta não cumprirá tal tarefa se não for obrigada a isto. Porém, na medida em que esta pressão externa diminui, a atenção da criança pode se voltar a algo do seu interesse. (DEWEY, 1985)

Na realidade, a teoria contradiz-se a si mesma. Psicologicamente, é impossível desenvolver qualquer atividade sem que algum interesse entre em jogo. A teoria do esforço substitui um interesse por outro. Substitui pelo interesse impuro do medo do professor ou esperança de qualquer recompensa, o interesse real e puro no material apresentado. (DEWEY, 1985)

Contra a teoria do interesse, afirma Dewey, poderia se alegar que a vida está cheia de coisas desinteressantes e que devemos suportá-las, pois a vida é assim.

A não ser que estejamos habituados a nos devotar a tarefa insípidas: a não ser que, por educação, nos acostumemos a fazer as coisas simplesmente porque devem ser feitas, sem nenhuma relação com a satisfação pessoal que nos possam trazer, nunca viremos a ter caráter nem força de vontade perante as coisas sérias da vida. A vida não é uma sucessão de amabilidades ou uma contínua satisfação de interesses pessoais. Tem que ser, pelo contrário, exercício contínuo de esforço no cumprimento de deveres, para que se forma o hábito de lidar com a laboriosa realidade da existência. Qualquer outra coisa destrói a fibra íntima do caráter e produz esses seres sem cor e sem vontade, moralmente dependentes e oscilantes ao sabor das solicitações da distração e do prazer. (DEWEY, 1985, p. 154)

Dewey defende que apelar todo o tempo para o interesse também é prejudicial a formação da criança, pois, se tudo se torna diversão e brincadeira, suas atividades são constantemente interrompidas. O resultado disto é uma criança “mimada e estragada, que só faz o que quer” (DEWEY, 1985, p. 154). Como vimos, o esforço necessário, mas deve estar ligado a satisfação pessoal, de forma que os hábitos desenvolvidos sejam realmente significativos, para que o caráter e os valores morais das crianças possam desenvolver-se de forma consistente.

Ao examinar as duas teorias Dewey afirma que ambas procuram destruir-se mutuamente, ambas não reconhecem a identificação de fatos e atos com o indivíduo e ambas são prejudicais moral e intelectualmente.  Isto porque atentam não aos pontos fortes uma da outra, mas focam-se nos pontos fracos. Reconhecem o objetivo final como exterior ao individuo. Se o objeto de estudo precisa ser enfeitado para atrair o interesse da criança, ou necessita de esforço para que ela o apreenda, isto implica em acreditar que não há um vinculo entre o sujeito e o objeto, pois ambas as teorias precisam compreender exatamente isto. “O legítimo principio de interesse, entretanto, é o que reconhece uma identificação entre o fato que deve ser aprendido ou a ação que deve ser praticada e o agente que por essa atividade se vai desenvolver.” (DEWEY, 1985, p. 155). A todo tempo notamos  na concepção de educação de John Dewey uma preocupação com a formação moral das crianças, assim como uma preocupação de uma aprendizagem realmente significativa, da qual o objeto de estudo precisa estar interiormente ligado a questões do íntimo de cada criança.

Com esta relação entre sujeito e objeto elaborada de forma a propiciar identificação dos agentes envolvidos, ele explica que os educadores não precisariam  apelar a todo momento para a força ou para a vontade, que formam, na concepção de Dewey indivíduos que ora aprendem a agir de forma mecânica e alienada, ora de forma a  imbecilizar a vida.

 

 


[1] DEWEY, John, Democracia e Educação; Apresentação e comentários Marcus Vinícius da Cunha; [Tradução Roberto Cavallari Filho]. – São Paulo: Ática, 2007.

[2] DEWEY, John, Experiência e Natureza; Lógica: a teoria da investigação; A arte como experiência: Vida e educação; Teoria da vida moral/ John Dewey; traduções de Murilo Otávio Paes Leme, Anísio S. Teixeira, Leonidas Gontijo de Carvalho. – 2. Ed. – São Paulo: Abril Cultura, 1985. – Traduzido de Interest and Effort in Education, edição da Houghton Mifflin Co. Of Boston ( Riversidade Educational Monographs, sob a direção de Henry Suzzallo). (N. do E.)

 

Artigos Relacionados

Quem viver verá

Quem viver verá

É sempre muito difícil perceber uma revolução, enquanto ela acontece. Apenas ao passar dos anos,...

ler mais
Aislan Munin
Pai da Liz. Membro cooperado do Portal da Educadora, Estudou Ciências Sociais na PUCSP e FESPSP, autodidata em Sistemas Web, uniu as duas áreas trabalhando como sócio-educador lecionando Introdução a Informática.