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Não pisem no Brasil!
6 de julho de 2021

O mercado da educação após o golpe de 2016 e a pejotização da vida

O antipetismo tirou da presidência uma mulher com a justificativa das pedaladas fiscais (retirar dinheiro público de um local para aplicar em outro) e colocou no governo um senhor delinquente capaz de superfaturar a compra das vacinas, deixando de salvar centenas de milhares de vidas e abrindo caminho para um verdadeiro genocídio brasileiro, mais de quinhentas mil vidas perdidas para Covid-19, por falta de responsabilidades, atitudes e protocólos por parte do presidente e de seu governo, impeachment seria insuficiente para pagar o que devem ao país. 

Retirar da presidência Dilma Rousseff, para impor um projeto político, derrotado anteriormente nas urnas, significou também retirar justamente o governo capaz de conquistar pela primeira vez na história do Brasil, apenas no século XXI, os direitos trabalhistas para as mulheres empregadas domésticas, herdeiras da herança racista e escravocrata do colonialismo portugues, e colocar através de um golpe, justamente um governo competente em destruir todos os direitos trabalhistas conquistados historicamente, para assim iniciar um processo de pejotização da vida. O fim dos bons concursos e carreiras públicas, assim como as contratações “O” são cenários atuais já bem reconhecidos pelos educadores brasileiros precarizados.

O golpe de Estado infligido sobre o governo Dilma não foi apenas um evento pontual, datado, mas um fato que abriu precedentes para que uma nova cultura se estabelecesse no Brasil, a cultura do golpe, da antiética e da permissividade passou a ser a regra, passamos a viver o invivível, o inaceitável se tornou aceitável e habitual, em um país com suas instituições completamente desacreditadas, a quem recorrer?

Nesta última semana tomei um dos maiores golpes da minha vida, uma rasteira enorme da qual estou aqui buscando me levantar. 

No início da pandemia deixei a função que exercia da FGV para assumir a Associação Janusz Korczak Brasil (www.ajkb.org). Assim, após apresentar a nova diretoria que constituímos na Associação, o projeto de conquista de uma sede própria para abertura de uma nova escola, junto a minha família, em junho de 2020, nos mudamos para Ubatuba, uma cidade maravilhosa na qual já executava um trabalho de educação desde 2003, através de estudos de meio. Viemos com objetivo claro e declarado de abrir uma nova escola, de educação infantil ao ensino médio.

Uma semana após a nossa mudança, exatamente uma semana depois, indicado por uma colega educadora de muita credibilidade, recebo uma chamada de vídeo de um senhor de Portugal, Raimundo Sousa, querendo me entrevistar e me contratar para ser o diretor pedagógico da primeira unidade escolar de uma rede de escolas que pretendiam abrir no Brasil e no mundo. 

Me explica ele que estava entrevistando também outras pessoas, como por exemplo José Pacheco. Me solicita então que eu realize uma comparação entre os dois. Eu me recuso, explico que posso falar do Denis, mas de José Pacheco quem poderá falar é apenas ele. Explico também que se fui procurado por conta dos meus conhecimentos e práticas pedagógicas é importante informar que não trabalhamos com competição, mas colaboração e solidariedade, afeto, vínculo e principalmente confiança, como valores fundantes. 

Após algumas entrevistas aguardo ansioso a resposta e sou finalmente contratado como Diretor Pedagógico da escola e Diretor Estatutário do projeto como um todo, visando tanto abrir a primeira unidade, como a sua ampliação com suas  filiais. Me contratam com o objetivo de abrir uma primeira unidade na Granja Viana, Cotia, para  sozinho construir todo o projeto da escola, do pedagógico ao local escolhido, para a empresa Vermilion Group, vinculada a OK Student. Parecia ser um sonho.

Para felicidade, mas também desespero de minha família, começamos a repensar o que fazer, pois há uma semana havíamos deixado o bairro do Butantã, em São Paulo, justamente bem próximo ao local escolhido por esta empresa para abertura da escola. Não seria fácil uma nova mudança, com todas as nossas coisas em tão curto espaço de tempo. Sem receber adicionais para gastos como gasolina e hospedagem, passo meses então realizando diversas viagens de Ubatuba a Granja Viana, conversando com imobiliárias, corretores, proprietários de imóveis, amigos, parentes, educadores, muitos que certamente vão ler este texto e se reconhecer aqui. Após muito trabalho, inúmeros imóveis visitados, conversas e conversas, negociações e negociações, consigo finalmente, dentro dos critérios que me foram orientados, apresentar um lugar ao meu ver maravilhoso e imbatível, no miolo da Granja Viana. Nisso estávamos já no final do ano e na hora de assinar o contrato de aluguel do espaço para começarmos a preparar a escola, não assinaram. 

Informaram que conversando com José Pacheco estavam repensando o projeto de abertura de escola e que pensavam em desistir e investir apenas em cursos de formação a distância. Foi um primeiro grande choque, depois de tanta expectativa, tanto trabalho, tanto sonhar, tantas conversas. Mas seguimos em frente. Me pediram para começar a planejar um esboço deste projeto novo. Decidem então vir ao Brasil e passamos dois dias juntos, no qual eu mesmo elaboro um planejamento financeiro com cenário ano a ano, com toda estrutura da escola de funcionários, corpo docente, todos os gastos, concepção pedagógica, apresento a eles novamente e voltam a concordar em abrir  a escola. Explico que já estou em Ubatuba agora há mais tempo, com minha família criando vínculos, contratos, que seria possível nos mudarmos, mas que gostaria que olhassem o potencial da cidade que não por acaso escolhemos para viver. Apresentei a eles o atual contexto pandêmico, de pessoas migrando das grandes cidades para o interior e litoral, em busca de uma vida mais integrada a natureza e com possibilidade de trabalho remoto. Ao longo do processo tentaram trazer outra diretora para compor a equipe e me deixar apenas como diretor da escola. A primeira diretora permaneceu um mês trabalhando sem contrato, pois não chegaram a um acordo, desconfiada das intenções do grupo não permaneceu. Assim voltaram a me afirmar novamente como ocupando ambos os cargos.

Visitei a cidade de Ubatuba de ponta a ponta em busca de um local ideal para a escola, após muita dificuldade em encontrar um local amplo, verde e aberto para alugar, pensei então em visitar os campings. Fui de porta em porta, com respeito e cautela expliquei o projeto e questionei sobre a possibilidade de realizar uma escola nestes espaços. Foram inúmeras conversas novamente, alguns avançaram, outros não. Até que finalmente encontrei um local dos sonhos, maravilhoso, perfeito. Encontrei também um arquiteto perfeito para um projeto como este e juntos fomos avaliar o imóvel. Negociei eu mesmo os valores e dimensões do terreno com a família proprietária, dentro dos valores orientados pela empresa, consegui avançar para fecharmos negócio. Nisto, André Rosendo, investidor, idealizador e contratante, junto ao seu funcionário, Vasco Ramos, trazem para o projeto da Edu4All (empresa criada pelo grupo) Valéria Mateus, já sócia-funcionária da OK Student, empresa do mesmo grupo Vermilion Group, os mesmos que me contrataram para abrir esta nova escola, nomeada por escolha deles como Open Learning School, com o desejo de explorar o conceito de aprendizagem aberta, inspirados em outras escolas livres, justificavam a minha necessária e fundamental liderança no projeto. Ao entrar na negociação Valéria passa a questionar a escolha de Ubatuba, demonstra total desconhecimento sobre a cidade e também sobre a pedagogia proposta. Vem a Ubatuba e a levo para conhecer o local que encontrei, a apresento aos proprietários com quem já havia negociado e a empresa então pede para que os trâmites sigam com Valéria para o fechamento do acordo, para que assim eu possa seguir me dedicando as funções do pedagógico, minha principal atribuição.

Participo também de diversas reuniões para definição da agência de comunicação que viria a criar e trabalhar a marca da escola, site, redes sociais, tudo. Enquanto aguardo assinatura do contrato, já em conversa com a secretaria e diretoria de ensino para tomar todas as providências necessárias ao longo do ano para abertura da escola, mas sou surpreendido. 

No dia 01 de julho, através das mídias da Escola Aberta, contratada para realizar uma seleção prévia da equipe que viria a constituir a escola, após entrevistados e avaliados também por mim, conforme previsto em contrato, anunciam as vagas para o Brasil todo vinculada ao meu nome como Diretor Pedagógico da escola, espalhamos as mensagens para todos contatos, amigos, parentes, educadores, pessoas compartilham mensagens me parabenizando, mencionando o meu nome, WhatsApp, Facebook, Instagram, familiares me escrevem interessados em matricular seus filhos, educadores escrevem interessados em participar da seleção, amigos e familiares me parabenizam e, no dia seguinte, a empresa me chama para uma reunião dizendo que será breve. Aparecem apenas Vasco e Valéria e em poucas palavras dizem que por estratégia da empresa optaram por interromper a nossa parceria, que preciso entender que as relações são comerciais e que isto é normal, pois a empresa entendeu que esta seria a melhor estratégia de otimizar os investimentos. Pior, pretendiam seguir com o mesmo projeto sem mim, abrir a escola no local que eu encontrei sozinho, com o planejamento e projeto que eu construí, na cidade na qual vim morar com a minha família e na qual construí relações, tudo isso sem o menor constrangimento. 

Vejam, não sei qual a visão de vocês leitores, o que nomeiam como violência, ou não. Não sei o que pensam e sentem a respeito de ética, honestidade e caráter, ao ler esta história. Mas, gostaria de saber, o que fariam se fizessem isto com vocês?

Fui usado, me usaram do início ao fim alimentando o meu sonho em ser diretor de uma escola construída por mim desde o início, me usaram da pior maneira possível, usaram do meu nome, a minha imagem, do meu trabalho, mentiram por um ano alimentando meus sonhos e retirando de dentro de mim tudo que havia de melhor, todos os meus sonhos foram estuprados. Fui exposto, explorado e descartado de forma ilegal, imoral e antiética. 

A pejotização do mundo ao destituir direitos trabalhistas mínimos passou a construir espaço para todo tipo de imoralidade,  para que as pessoas esqueçam que relações, profissionais ou não, não são comerciais, são humanas, que pessoas não   são objetos, não são descartáveis, não se pode usar, fazer e desfazer do outro da forma como se quer e  imagina em benefício e interesse próprio apenas, sem qualquer escrúpulo e princípio ético. isto não é e nem pode ser tratado como normal. Muito menos para quem pretende atuar na educação. Educação é um processo efetivamente humano e relacional, não é negócio, não é comercial. Como escreveu Hannah Arendt, a educação é um ato de demonstração do compromisso que temos com o mundo, mesmo uma escola particular precisa conter a consciência ética sobre aquilo que é o compromisso com o público, um compromisso maior e ético com a sociedade que está inserida, como escreveu Janusz Korczak precisamos nos compreender como filhos de uma única pátria, o planeta Terra.

No momento de abrir a escola me dispensaram dizendo que as relações são comerciais e por estratégia da empresa decidiram interromper a prestação de serviço. Não houve nenhum erro, nenhum conflito, pelo contrário, tentaram é se aproveitar e se beneficiar de tudo que construí, mas sem mim.

Jamais colocaria o meu nome e o nome de qualquer pessoa, estudante ou educador, vinculado a uma escola com este tipo de atitude que certamente perdurará no tratamento com as pessoas que vierem a contratar. Pedi uma explicação, um motivo, covardemente permaneceram em silêncio, mas sei que facilmente podem ser ainda mais covardes e inventar qualquer outra coisa.

Antes de mais nada eu peço desculpas aqueles que confiam em mim, escolher escola para os filhos é um projeto de vida, de família, exige muita seriedade, afeto e principalmente confiança. Aceitei o trabalho por ter sido indicado por uma pessoa em quem depositava muita confiança e apenas apresentei a possibilidade de investimento para uma nova escola em Ubatuba por acreditar no potencial da cidade e no trabalho que seria capaz de realizar junto a linda equipe que imaginava constituir, mas não contava com tanta farsa, tanta pilantragem, tanta mentira. 

Isto apenas reforça a necessidade de fortalecermos e renovarmos o sistema público de educação e suas escolas, ainda que em contextos históricos retrógrados e de  militarização do ensino, escolas clandestinas se façam tão necessárias. 

Sai desta violenta reunião pensando, o que é o ser humano? Do que são feitas estas pessoas? Como são capazes de fazer isto com um outro? Não havia nenhuma relação comercial, eu havia sido contratado, não estava comprando nem vendendo nada, mas atuando diariamente para realizar aquilo que me propus, abrir uma escola maravilhosa, inclusiva e democrática.

Nós da Associação Janusz Korczak Brasil trabalhamos fortalecendo perspectivas e iniciativas pedagógicas que dialogam com uma visão viva e ética de criança e infância, que oferece integridade as pessoas, trabalhamos também denunciando todo tipo de fascismo, entendendo que não nos faz sentido apenas denunciar a história de Janusz Korczak e suas crianças, vítimas do nazismo alemão, pois entendemos necessário pensar e atuar na realidade do nosso território. 

O neoliberalismo é filhote do colonialismo, é o neocolonialismo, persiste a herança portuguesa europeia e eurocêntrica, seguem pisando e saqueando o Brasil, seguem nos observando de cima com único propósito de extrair e extrair, em benefício próprio. No lugar da cruz e da bala agora se fantasiam de empreendedores, promovem a pejotização da vida, exterminam as relações humanas, coisificam as pessoas e as tratam como produtos comerciais. Seguem matando os indígenas em nome da educação dos brasileiros. Espero que esta gente desista e se afaste da educação, que não sigam usando nem o Denis, nem o Pacheco e nem ninguém. 

O que você faria se fizessem isto com você, com os seus sonhos, com a sua família, com o seu trabalho, com as suas relações? Se estamos do mesmo lado, me ajude compartilhando este artigo para impedir que destruam ainda mais famílias e corações, não podemos permitir que sigam pisando e pisando no Brasil. 

Renasceremos!

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Denis Plapler
Sociólogo pela PUC, SP, Mestre em Filosofia da Educação pela FE USP, Presidente da Associação Janusz Korczak Brasil.