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Nós, os Kaduks
24 de abril de 2019

Conversando sobre os aspectos jurídicos da não escolarização das crianças, uma pessoa me perguntou se eu acho que as leis deveriam mudar.

Conversando sobre os aspectos jurídicos da não escolarização das crianças, uma pessoa me perguntou se eu acho que as leis deveriam mudar.


Não acho, eu disse, as leis estão ótimas. 


Ele estranhou, afinal a lei lhe parece autoritária ao impedir a liberdade das pessoas.


Eu não concordo. A lei que prevê o crime de abandono existe para proteger as crianças do abandono, e não para obrigar as crianças a aprenderem que o Ivo viu a uva. 


É claro que é sintoma de grave doença social precisar de uma lei que nos obrigue a cuidar das crianças, mas voltando ao assunto da conversa, essa lei não tem rigorosamente nada a ver com as pessoas que eu conheço que decidiram não matricular seus filhos em uma escola por preferirem lhes oferecer a oportunidade de aprender livremente.


É evidente a quem vê, é claro como água limpa, que essas crianças não estão em situação de abandono ou vulnerabilidade.


Mas as instituições nunca estarão aptas a perceber a diferença, ele disse, não são humanas, são conjuntos de procedimentos. Os agentes da lei têm que aplicá-la indiscriminadamente. Não escola = abandono intelectual.
Ah, bom, mas então o problema não está nas leis, e sim nos agentes. Se conseguirmos nos relacionar com e como pessoas, o caso está resolvido, não haverá a menor dúvida. Se as instituições não são feitas para perceber, as pessoas são. 


Adorno, apesar de tudo, viu e disse, em Educação Após Auschwitz, que talvez não possamos impedir o reaparecimento dos assassinos de gabinete, mas o buraco é mais embaixo, o buraco somos nós: o problema é a índole dos algozes, sua disponibilidade em ficar do lado do poder, sua participação decisiva. Nos campos de concentração os algozes eram os próprios camponeses… 


O problema é existirem pessoas em posições subalternas, como serviçais, fazendo coisas que perpetuam sua própria servidão, tornando-as indignas. Que continue a haver algozes, sentinelas de uma lei que mal compreendem, contra isso é possível empreender algo. Para Adorno, mediante a educação. Para mim, olho no olho, espelho do espelho. Feito gente.

Conversando sobre os aspectos jurídicos da não escolarização das crianças, uma pessoa me perguntou se eu acho que as leis deveriam mudar.


Não acho, eu disse, as leis estão ótimas. 


Ele estranhou, afinal a lei lhe parece autoritária ao impedir a liberdade das pessoas.


Eu não concordo. A lei que prevê o crime de abandono existe para proteger as crianças do abandono, e não para obrigar as crianças a aprenderem que o Ivo viu a uva. 


É claro que é sintoma de grave doença social precisar de uma lei que nos obrigue a cuidar das crianças, mas voltando ao assunto da conversa, essa lei não tem rigorosamente nada a ver com as pessoas que eu conheço que decidiram não matricular seus filhos em uma escola por preferirem lhes oferecer a oportunidade de aprender livremente.


É evidente a quem vê, é claro como água limpa, que essas crianças não estão em situação de abandono ou vulnerabilidade.


Mas as instituições nunca estarão aptas a perceber a diferença, ele disse, não são humanas, são conjuntos de procedimentos. Os agentes da lei têm que aplicá-la indiscriminadamente. Não escola = abandono intelectual.
Ah, bom, mas então o problema não está nas leis, e sim nos agentes. Se conseguirmos nos relacionar com e como pessoas, o caso está resolvido, não haverá a menor dúvida. Se as instituições não são feitas para perceber, as pessoas são. 


Adorno, apesar de tudo, viu e disse, em Educação Após Auschwitz, que talvez não possamos impedir o reaparecimento dos assassinos de gabinete, mas o buraco é mais embaixo, o buraco somos nós: o problema é a índole dos algozes, sua disponibilidade em ficar do lado do poder, sua participação decisiva. Nos campos de concentração os algozes eram os próprios camponeses… 


O problema é existirem pessoas em posições subalternas, como serviçais, fazendo coisas que perpetuam sua própria servidão, tornando-as indignas. Que continue a haver algozes, sentinelas de uma lei que mal compreendem, contra isso é possível empreender algo. Para Adorno, mediante a educação. Para mim, olho no olho, espelho do espelho. Feito gente.

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Aislan Munin
Pai da Liz. Membro cooperado do Portal da Educadora, Estudou Ciências Sociais na PUCSP e FESPSP, autodidata em Sistemas Web, uniu as duas áreas trabalhando como sócio-educador lecionando Introdução a Informática.