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O que aprendi em 2020?
9 de janeiro de 2021

Sobre o que temos controle, afinal? Planejamento, será que é sempre desejável? 

Até que ponto conseguimos planejar nossas ações? Em que medida a vida acontece “dentro” do planejado por nós? O quanto de presença é necessário para estar plena? E mais ainda, para criar? Como se criam hábitos? Como se cria cultura? Como se cria uma mudança de hábitos e culturas? Quais pactos nós, humanos, fazemos para seguir vivendo?

Se a vida é mesmo o bem supremo, por que algumas vidas parecem ter mais valor do que outras? Por que parece que estamos anestesiados diante desse desequilíbrio de valores?

Afinal, se o mundo muda o tempo todo, como mudamos o mundo?

Quando parei para escrever esse texto, estava a refletir sobre o que eu aprendi com esse ano, que será um marco de transformação, inesquecível para a humanidade. 

O questionamento original foi: O que eu aprendi em 2020?

A cada frase que eu começava a escrever, percebia que não cabiam pontos finais, não conseguia concluir afirmações. Apenas interrogações brotavam, em mim! Só surgiam mais e mais perguntas… E não é que isso faz sentindo?!De certo, há os erros e mais dúvidas do que certezas.

Tenho a percepção de que 2020 obrigou a humanidade inteira a se questionar sobre valores, de toda ordem. Percebemos, de forma irrefutável, que estamos conectados por sistemas. Sistemas naturais, aqueles que estão dispostos pela natureza, e sistemas artificiais criados pela humanidade. 

Mas afinal, o que somos quando nos unimos, no que nos transformamos quando estamos juntos? O quê nos une? Circunstâncias, afinidades, propósitos?

Podemos criar e destruir, de acordo com aquilo que for mais valoroso para nós, enquanto indivíduos e enquanto coletivo. Então, podemos criar realidades tão diversas quanto forem diversos nossos valores, não é? Sim, o que move as pessoas são seus valores!

Valores reconhecíveis em inúmeras dimensões e escalas. Valores materiais como bens, posses, capacidade de prover as necessidades básicas ou promover desigualdades, estar entre aqueles que nos revelam quem somos e as condições que nos cercam. Como nós agimos, inseridos nessas condições, é que revela quem somos e o que nos move, de fato.

O quanto minha presença, meu simples respirar, impacta no mundo?Pois vivemos num presente, planetário, em que respirar perto de outros seres humanos, protegendo e cuidando, se tornou um ato de responsabilidade. Respirar se tornou uma ação implícita de consciência. Que metáfora!

Viver demanda estar consciente de suas escolhas e suas escolhas podem mudar o mundo!

Algo, creio, evidenciou- se sobremaneira diante dos desafios de 2020; estamos interligados, conectados. E em todos os níveis. Seja na relação dos corpos e suas necessidades de sobrevivência, sustento e amparo emocional, fortalecimento e crescimento intelectual ou progresso espiritual, fato é que precisamos uns dos outros para viver. E como temos nos comprometido com essa necessidade mútua? Buscamos equidade nessa relação?

Estamos comprometidos com a vida e suas manifestações criativas? Ou estamos sucumbindo aos, evidentes, sintomas mórbidos que nossos sistemas apresentam?

Percebo a urgência de recriarmos os sistemas, todos os sistemas, educacional, econômico, político, visando a saúde das relações humanas!

Vitalizar os sistemas de imunidade física, equilibrar os sistemas sociais e econômicos, respeitar e valorizar os sistemas de crenças diversas, regenerar os sistemas ecológicos, cuidar da casa/orbe que nos sustenta, de todos os seres que nele habitam e da partilha justa do que é produzido. 

Ou então seguimos,como autômatos, o script de um roteiro que nos foi imposto por um macrosistema que prioriza as coisas inanimadas em detrimento daquilo que temos de mais valioso; nosso tempo de vida. 

Qual o significado do verbo educar se não aprender o que é a vida em todas as suas possibilidades?

A vida acontece nas relações. Nas relações de cada ser com o ar, a água, o alimento, o abrigo que mantém cada templo/corpo vivo. Nas relações dos cuidados familiares, nas relações com nossa comunidade e na transmissão e construção de cultura.

Como temos cuidado de nossas relações?Haverá ar puro, água limpa, alimento sem veneno para nossos filhos? Haverá a presença plena, o senso de cuidado mútuo e a criação de vínculos de amor incondicional, na célula social chamada família? Haverá o compromisso social para garantir dignidade de bem viver e equidade de direitos e deveres entre todos os membros da comunidade, haverá responsabilidade política para gerir os recursos públicos primando pela justiça social e visando o progresso humano?

Não tenho nenhuma resposta, mas certamente 2020 revelou-nos que não há mais tempo para o caminhar solitário. Estamos, invariavelmente, conectados. Somos todos mestres e aprendizes de um novo mundo que só será possível, se trabalharmos em união.

Dentre as muitas perdas também vieram muitos aprendizados, verdadeiros presentes do universo. Descobri que através das telinhas é possível conhecer pessoas incríveis, que em outras circunstâncias seria improvável. Me foi possível fazer amigos, criar conexões verdadeiras. Aprender junto, repensar e experimentar viver um outro sistema educacional. Foi possível amar apesar da distância física, pois quando há a proximidade de afinidades, também há interações com propósito e com afeto.

Conheci tantas pessoas, de idades e localidades diversas. Foram tantas partilhas e construções coletivas, com as quais aprendi tanto! Como no percurso formativo Aprender em Comunidade, conduzido pelo mestre José Pacheco tive a oportunidade de me conectar à educadores e educadoras incríveis e com algumas delas cocriar a Reconfiguração Pedagógica Kune. 

Na Assessoria Pedagógica – Escolas Democráticas em Construção, conduzida pelo Sociólogo, Mestre em Filosofia da Educação, Denis Plapler, tive a oportunidade de aprender a ouvir e trocar inúmeras partilhas com educadores que vêm traçando percursos inovadores na educação.

Juntas, eu, Carol Corrêa Lima, Jéssica Otuzi e Janaína Chichôrro, idealizamos e realizamos também a Tutoria 2020, que agregou estudantes de várias regiões do Brasil e suas famílias. 

Se não fosse pela pandemia, isso não teria ocorrido.Isolada em casa, também me percebi integrada com o mundo, através da conexão dos sonhos e das práticas de parceria, colaboração e solidariedade. Nesse mosaico moderno de conexão que chamamos zoom, meet, team… ou qualquer outra tecnologia de conexão. Maravilhas contemporâneas! Também fruto da criatividade humana. O bom uso dessa ferramenta, como de qualquer outra, depende do usuário. 

Assim, agradeço pela dor que nos faz refletir com as entranhas e nos aproxima do que é essencial. Louvo o amor que nos permite esperançar novos tempos de cura planetária. 

Gratidão às nossas filhas e filhos, netos e netas, à todas as crianças que avançam o nosso  olhar para um futuro comprometido com o progresso humano, desejando que consigamos estabelecer uma cultura de paz e união.

Cuidemos de nossas relações, pois descobrimos que tudo que temos somos nós, em união… o tempo da solidão acabou!

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Angélica Auricchio
Angélica Auricchio é mãe, avó e educadora. Formada em Artes Cênicas, habilitações  cenografia e interpretação pela Uni-Rio.