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O retorno às aulas precisará respeitar o luto de estudantes e professores
18 de junho de 2020

O alto número de vítimas do Covid-19 no país nos obrigará a pensar as escolas como ambientes adequados ao acolhimento necessário para o contexto pós-pandemia.

Falar sobre o luto é falar sobre uma dor muito profunda, sobre uma perda irreparável, por isto não podemos perder de vista em primeiro lugar, que a criança, ou o professor, terá que lidar com isto para o resto de sua existência, será um processo de longa ou curta elaboração, segundo sua capacidade e possibilidade de lidar com a dor e, assim como a dor física, o limiar difere em cada um  de nós.

Não há regras nem etapas a serem seguidas, existem algumas fases citadas por grandes psicanalistas que servem como um horizonte, mas não como regras. O perigo está sempre nas generalizações, nos manuais e recomendações, nos palpites e nas suposições do que seria “útil” para aquele indivíduo  suportar uma dor que é tremendamente pessoal.

Há procedimentos médicos para estancar sangramentos que realmente são muito eficazes, mas nós não temos nenhum procedimento clinico para esta grave ferida psíquica, muito menos “protocolos”, para lidarmos com dores profundas, nem previsões de tempo necessário para elaboração destas dores, ou previsibilidade confiável para sabermos se este luto será patogênico ou não. Poderá o luto se transformar em uma melancolia? O que representaria um luto patológico? Quanto menor a criança, maior o risco?

Sempre há de se considerar a personalidade pré-existente e a capacidade de acolhimento do ambiente onde está inserida a criança, ou adulto. Por ambiente, entende-se a capacidade que os adultos mais próximos a ela terão, eles próprios, para lidar com perdas, dores e acolhimento.

Num momento de profunda dor, quão difícil é lidar com a dor do outro, que apesar de “outro” está tão próximo? Convenhamos, a pessoa que passará pelo luto, terá ao seu lado adulto severamente enlutado, também estará sofrendo a mesma perda da criança e, precisará aguentar ver uma criança sofrer. Haja força egóica para isto tudo!

Então, como agir? O que podemos fazer? Levar em conta este pano de fundo somado a consciência de que nenhum de nós tem grandes habilidades para falar ou lidar com este assunto tão doloroso. Que recursos podem ajudar? A observação! Sair de nossas crenças, tentar não “olhar” para a criança com o nosso próprio modo de lidar com a dor, olhar no sentido mais profundo, ver como ela está, que recurso ela tem para lidar com esta situação tão difícil. A criança pode ter um recurso poderoso neste momento que é sua própria fantasia, mais do que nunca pode ter o seu brincar como alívio de dor e de digestão de mundo, seu poder de negação, para não digerir a catástrofe de uma vez, vai negando até poder se dar conta da grande falta pela qual foi acometida.

Para ela poder fazer isto que lhe é natural, não forçá-la a falar sobre isto, igual qualquer assunto, esperar que ela pergunte, responder só ao que ela necessita saber, não ao que o adulto acha que ela necessita.

A criança é concreta, apesar de fantasiosa, então o cuidado com as palavras é fundamental. O cuidado para que o ambiente externo não se transforme num velório constante, pois rodeada de tristeza só poderá pensar em tristezas.

Se a normalidade de sua rotina puder ser mantida, menos doloroso será o seu processo de digestão de algo grande demais para ser deglutido de uma vez. Manter a rotina e sentir que pode contar com aqueles que com ela estão será o melhor remédio para este momento. Manter o que pode ser mantido em sua vida, manter as pessoas que costuma conviver, ajudará muito. Não adianta o adulto dizer “pode contar comigo” e estar estraçalhado” pela dor. A criança entenderá que está sozinha, que além de ter que lidar com a perda dos que se foram, terá que lidar com a “perda” dos que estão presentes, mas ausentes. À ausência na presença pode ser tão dura quanto a presença da ausência, até porque o que mais nos ajuda a pequenos e grandes no momento de dor profunda, de saudade dilacerante, é a presença dentro de nós, daquele que estamos chorando com ou sem lágrimas, desesperadamente, tomando consciência da desesperança de matar aquela saudade, no temor daquela dor devastadora se eternizar dentro de nós.

Só o humano dos que estão em nossa volta, poderá ajudar crianças e adultos a suportar o humano que perdemos. Se o adulto conseguir dentro de sua profunda tristeza amparar e cuidar da tristeza da criança, evitará algo muito comum de acontecer, que é a criança sufocar a sua dor, e ela se encarregar de cuidar dos adultos ao seu redor, com certeza o fará em detrimento dos seus direitos de ser cuidada, de diferentes modos, o que causará um dano muito grande em sua vida adulta, pois não terá tido o tempo necessário para poder lidar com sua dor e com sua meninice.

Talvez a escola possa ser um ambiente altamente salutar à criança, um lugar onde “nada mudou”, um lugar onde ela possa esquecer por horas a dor que a dilacera, terá o professor de ter a sensibilidade de reparar, se ela quer deixar aquele ambiente como “um oásis” para se abastecer, respirar e esquecer, ou neste oásis poder respirar, falar e se reestabelecer.

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Nicole Rebecca Levy Plapler
Pedagoga formada pela USP, psicopedagoga, terapeuta familiar e psicanalista pelo SEDES. Trabalha em consultório particular desde 1985