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OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA PARA PESSOAS COM (DE)EFICIÊNCIA
29 de novembro de 2020

A meta do Todos na Diferença é tornar visíveis aqueles seres humanos que a História e nossa cultura ocidental tentaram (e ainda tentam) tornar invisíveis.

Quando propus a realização da Oficina da Palavra e da Escrita Criativa “Todos na Diferença”, em 2015, no Instituto Casa do Todos e no Núcleo Morungaba: “Corpo, Arte e Convivência”, dois anos depois, não sabia quais fluxos iriam se conectar, quais vidas iriam surgir. Minha meta era promover experimentações livres de criação, buscando descortinar possíveis bloqueios que impedem as chamadas “Pessoas com Deficiência e/ou dificuldades de aprendizagem”, entre outras vistas como “diferentes”, a escreverem o que pensam do Mundo.

Os primeiros passos são sempre mais desafiadores e mesmo desconhecidos. Aos poucos, no entanto, luzes foram se abrindo e tudo começou a fluir. Encontros foram acontecendo e as palavras ecoaram no ar, como um universo a ser desbravado. A produção da equipe do Núcleo Morungaba e na Casa do Todos foi intensa. Todos os participantes demonstraram que, se houver investimento e oportunidade, os talentos aparecem.

METODOLOGIA

Não gosto muito da palavra metodologia, pois ter um método pode significar seguir apenas um caminho para todos e esperar a mesma resposta, em um tempo idêntico e linear. Por conta disso, a dinâmica colocada em prática nessa oficina é múltipla e tem forte conexão com o que Paulo Freire chamou de Educação Dialógica. 

São encontros semanais com vivências corporais, técnicas de visualização criativa e de meditação, além de exercícios práticos de escrita, interativos e experimentais de redação. É esse o desafio: mostrar que pessoas, histórica e culturalmente excluídas e até hoje não valorizadas como deveriam ser, têm toda potencialidade de se tornarem escritores e autores de seu próprio processo de criação.

Em um primeiro momento, procurei sair de mim mesmo e ir ao encontro do que chamarei aqui de aprendizes. Conheci suas histórias de vida, interesses, necessidades e dificuldades. Não deixei de estar atento para o próprio diagnóstico de cada um deles, mas não vendo ele como a carteira de identidade de quem foi diagnosticado.

Na sequencia, solicitei que trouxessem o que Paulo Freire denominou como palavras e/ou temas geradores para, em um passo seguinte, propor que escrevessem o que viesse de seus corações, independente da complexidade das palavras ou temas escolhidos por eles no transcorrer das oficinas. O intuito aqui foi provocá-los, sempre na mão dupla do diálogo, para que surgissem escritas autênticas e singulares.

E os resultados vieram! Cada um no seu tempo e espaço, na Oficina de Escrita Todos na Diferença teve (e tem) de tudo: desde Hai-Kais (pequenos poemas de origem japonesa) até poesias reflexivas, intimistas, pessoais e sentimentais, além de histórias em quadrinhos, crônicas, pensamentos ou mesmo desenhos, que foram publicados em sete edições da Revista Literária Todos na Diferença.

Ainda instigado por Freire, o objetivo foi desafiá-los para que todas e todos tivessem a oportunidade de irem “além de si mesmos”, ampliando dessa forma a percepção que tinham até então de seu próprio modo de existir. Na prática, é o que disse o próprio Paulo Freire:

“Cabe ao investigador, não apenas ouvir os indivíduos, mas desafiá-los cada vez mais, problematizando, de um lado, a situação existencial e, de outro, as próprias respostas que vão dando aqueles no decorrer do diálogo” (Pedagogia do Oprimido, Paz e Terra, 2007, pg 131).

E pensando também na concepção freiriana de que todos os seres humanos são “inconclusos”, novas “situações limites” foram surgindo e sendo sucessivamente desafiadas, em uma dinâmica ininterrupta e ilimitada. É como já nos mostrou, lá no século XVII, o filósofo Espinosa: Quando o limite de cada um é respeitado, mas esse limite não é visto como definitivo, o devir criação surge como maior facilidade e elasticidade. 

Tal processo significa, em um primeiro instante, embarcar de corpo e alma no princípio da escuta para, em seguida, promover vivências que provoquem uma complexificação cada vez maior do que cada aprendiz trouxer, sempre levando em consideração as palavras e/ou temas significativos que emergirem a partir da essência de cada um deles e delas.

Como diria o próprio Freire, não importa o quanto é simples o que os aprendizes revelam e sim o papel do educador é puxar, como se fosse um novelo, da “consciência do real” para a “consciência do possível” no momento presente.

“É importante reenfatizar que o tema gerador não se encontra  nos homens isolados  da realidade, nem tão pouco na realidade e separada dos homens. Só pode ser compreendido  nas relações homem-mundo. Investigar o tema gerador é investigar o pensar do homem  sobre a realidade, que é sua práxis, (…).  Os temas, em verdade, existem nos homens, em suas relações com o mundo, referidos a fatos concretos” (Pedagogia do Oprimido, Paz e Terra, 2007, pgs 114/115).

É nesse contexto que, na oficina da escrita Todos na Diferença, os aprendizes não tem como “tarefa” se adequarem a uma realidade imposta de fora para dentro e, sim, de se tornarem capazes de criarem sua própria realidade e de serem proativos em suas ações e reflexões.  Na prática, é um espaço aberto onde pessoas, que desejem desobstruir possíveis fluxos bloqueados e expandir seus campos de possibilidades criativas, podem construir projetos singulares de vida.

Acreditando que a potência transformadora da palavra é infinita, o compromisso do Todos na Diferença é investir na espontaneidade, expressividade, imaginação e autenticidade dos integrantes do projeto, nutrindo-os com oportunidades para que consigam criar a partir de seus desejos e afetos. 

Não significa negar a realidade e a condição sócio afetiva e psíquica de cada aprendiz, mas o importante é o talento e o potencial que todos têm, independente de valores hierárquicos e normativos. Ao contrário do que a história do mundo ocidental tentou nos mostrar, ter alguma deficiência não pode mais ser concebido como alguém que se encontra abaixo das expectativas normalizantes, imposta por outros supostamente mais fortes. 

Trata-se aqui de romper com a ideia, ainda embutida em grande fatia do imaginário popular e mesmo em parte da comunidade científica, que deficiência é o contrário de eficiência. Não se trata, portanto, de embarcar na superficialidade do capacitismo, ou seja, na crença de que Pessoas com Deficiência são ineficientes ou incapazes. Trata-se, em vez disso, de investir e, sobretudo, acreditar no potencial criativo que todos e todas têm.

Em linhas gerais, estamos diante de pessoas que não se adaptaram e foram excluídas de uma escola que insiste em separar os seres humanos em “iguais” de um lado e “diferentes” de outro. De tão arraigada no imaginário da grande maioria das pessoas, parece ser uma divisão aceita como se fosse natural do ser humano. 

HISTÓRICO DE VIDA 

Na prática, o Todos na Diferença não é apenas o resultado, jamais definitivo, de anos de prática educacional e reflexões teóricas como sociólogo e jornalista. É reflexo de minha experiência como pessoa e pai de um jovem com a Síndrome de Down. Toda minha trajetória profissional, como jornalista e sociólogo, veio ao encontro de um dos momentos mais marcantes de minha vida: o nascimento do Thiago, no dia 22 de fevereiro de 1997, o que me direcionou não só para o dilema inclusão-exclusão, mas também e, sobretudo, para a tênue fronteira, histórica e cultural, entre a chamada normalidade e o seu contraponto, a anormalidade.

Conheço bem esse dualismo excludente, que é uma criação histórica e cultural. Além do Thiago, também sou pai da Joyce, uma adolescente rotulada como igual a todas as outras pessoas que não têm nenhuma deficiência catalogada, ambos tendo de viver os fluxos negativos dessa fictícia separação. É importante considerar que as pessoas rotuladas como “iguais” também são invisíveis nesse processo em que os “diferentes” são tratados a partir de seus rótulos e não pelo que são em si.

Entre os “iguais” existem pessoas, cada uma com sua singularidade e história de vida. A exclusão, a partir dessa perspectiva, não é real apenas para as pessoas estigmatizadas como “diferentes”. Como já nos mostrou habilmente o especialista em alfabetização e idealizador da Escola da Ponte, em Portugal, José Pacheco, se continuarmos a acreditar que todos os “iguais” aprendem do mesmo jeito, o sistema de ensino, ainda hegemônico nos dias de hoje, permanecerá intacto e inalterado. Significa alimentar outro lado da exclusão, que é o da evasão escolar e da cultura do fracasso.

Na outra ponta desse tabuleiro com peças marcadas, todos os considerados “diferentes” terão de se adequar ao que podemos chamar de mito de normalidade como única condição para serem incluídos. Enfim, terão de deixar de ser o que são para entrarem no seleto mundo dos “iguais” e/ou “normais”. Podemos pensar, ao contrário, que, para oferecer oportunidades iguais para todos, temos de tratar as pessoas de forma diferente.

ALÉM DA IGUALDADE E DA DIFERENÇA

Finalizando com muita alegria mais esse artigo, trago de volta o filósofo Espinoza, que nos revela os conceitos de “bons” e “maus” encontros, sendo o bom encontro aquele que potencializa o agir do Outro, e o mau o que submete esse Outro ao poder de alguma pessoa ou grupo supostamente superior. A grande missão da Oficina da Palavra Todos na Diferença é tentar propiciar a seus aprendizes o máximo de bons encontros possíveis, para ajudá-los inclusive a enfrentar maus encontros que não poucas vezes terão ao longo de suas vidas.

Não negando as dificuldades de cada participante, aqui somos Todos em um só. Vivemos em um só Cosmo em que cada um tem a sua singularidade. Espero que você, que chegou ao final desse artigo, tenha tido um Bom Encontro, que também potencialize e talvez até transforme efetivamente o seu agir e o seu modo de enxergar o mundo e as diferenças humanas. 

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Guga Dórea
Guga Dorea é jornalista e sociólogo, além de doutor em Ciência Política pela PUC/SP. Atuou como professor de Sociologia, Filosofia, Ciência Política e História da Comunicação na Universidade Paulista (UNIP) e na Uni-Radial, além de professor convidado dos cursos de pós-graduação em Educação Inclusiva da Universidade Gama Filho, da UNI-FMU e da Faculdade Taboão da Serra, vinculada ao Instituto Nacional de Pós-Graduação (INPG), onde leciona os módulos “Aspectos Filosóficos na Educação Especial e Inclusiva”, “Contexto Social e Inclusão: Multiculturalismo” e “Políticas Governamentais e Não Governamentais em Educação Especial e Inclusiva”. Atualmente, é idealizador do projeto Todos na Diferença, em que coloca em prática o projeto Oficina da Palavra e da Escrita Criativa “Todos na Diferença” para as chamadas Pessoas com Deficiência, entre outras dificuldades de aprendizagem, no Instituto Casa do Todos e no Centro Cultural Alberico Rodrigues, ambas as instituições na cidade de São Paulo.