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Pas de croix!*
24 de abril de 2019

Quando a atriz Viviany Beleboni decidiu fazer uma performance utilizando o símbolo da cruz não imaginava que o negócio ficaria tão sério para o seu lado, como contou à Globo [1] no dia seguinte à 19?Parada LGBT paulista, que já constou do Livro dos Record

 

*Inspirado em ‘Pas d’hospitalité’ (1997)[1], de Jacques Derrida (1930-2004)

 

Quando a atriz Viviany Beleboni decidiu fazer uma performance utilizando o símbolo da cruz não imaginava que o negócio ficaria tão sério para o seu lado, como contou à Globo [1] no dia seguinte à 19a Parada LGBT paulista, que já constou do Livro dos Recordes como a maior do mundo [2].

Antes dela, os rappers Marcelo D2 [3] e Chris Brown [4], o sambista Bezerra da Silva [5], as divas pop Madonna [6] e Lady Gaga [7], entre outros, já haviam utilizado o símbolo polêmico em suas performances artísticas, e olha que sem nenhuma legenda tal como a incluída na da atriz paulista, que claramente dizia ser “contra a homofobia”. Isso se focarmos apenas os últimos trinta anos, para não voltar até os punks estadunidenses do final da década de 1970, eles próprios que “eram anti-religião, mas usavam cruzes” [8].

Tudo se passa como se cruz e cristianismo fossem inseparáveis. A sua união, contudo, foi política e datada. Segundo o poeta Pareta Calderash: “A representação da cruz é a mais controversa. Visto que quando Jesus Cristo morreu a crucificação era algo inexistente. A pena de morte era praticada por pregar a pessoa em um madeiro, ou poste reto. O símbolo da cruz foi inserido em um concílio da Igreja Católica (…)” [9]. Embora de origem duvidosa, a cruz e outros símbolos pagãos apenas foram adotados pela Igreja após o Segundo Concílio de Niceia, no século VIII [10].

Se durante boa parte do primeiro milênio de sua existência, o sinal da cruz permaneceu no limbo das crenças cristãs, a partir do século IX este assumiu um locus de identidade desta religião. O uso deste termo não é aleatório: possui um propósito muito claro para qualquer antropólogo. Pois se há um consenso entre as Ciências Humanas é o de que a identidade é não apenas um construto, e como tal, pode ser desconstruído (p.ex., revelando suas raízes históricas); como que tal construto é social, sendo produto das relações sociais entre segmentos necessariamente distintos.

A história recente de um órgão mundialmente famoso ilustra de modo surpreendente quais são estes segmentos distintos. Trata-se do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) que, pelo seu estatuto [11], integra o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Os dois símbolos (a cruz e o crescente) foram unidos após disputas de caráter religioso em que o princípio humanitário de preservação dos civis em conflitos armados era desrespeitado devido ao não-reconhecimento de uma das partes “do outro lado” que utilizava um símbolo determinado.

Assim, as batalhas bizantinas contra a expansão islâmica após a morte do Profeta Maomé [12] no século VII produziram efeitos para muito além de sua época. Em oposição a um lado, o outro se afirmou. Resta saber por quanto tempo sobrevive se ruírem as bases sobre as quais se firmou.

 

Notas:

 

[1] Globo, 08/06/15. Transexual 'crucificada' na Parada Gay relata ameaças em rede social. IN: <http://ego.globo.com/famosos/noticia/2015/06/transexual-crucificada-na-parada-gay-relata-ameacas-em-rede-social.html> [acesso: 09/06/15]

[2] Folha de São Paulo, 28/05/08. Guinness exclui recorde da Parada Gay. IN: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/destaquesgls/ult10009u406368.shtml> [acesso: 09/06/15]

[3] Isto É, 04/10/15. Bezerra por D2. <http://www.istoe.com.br/reportagens/103735_BEZERRA+ POR+D2> [acesso: 09/06/15]

[4] Huffington Post, 29/06/13. Chris Brown Feels Like Jesus On The Cross After Alleged Assault. IN: <http://www.huffingtonpost.com/2013/01/28/chris-brown-jesus-assault_n_2571159.html> [acesso: 09/06/15]

[5] Musicaria Brasil, Março 13. A polêmica capa do LP “Eu não sou santo”, Bezerra da Silva 1990. IN: <http://musicariabrasil.blogspot.com.br/2013/03/a-polemica-capa-do-lp-eu-nao-sou-santo.html> [acesso: 09/06/15]

[6] NPR, 16/08/06. Madonna's Cross Raises Thorny Questions. IN: <http://www.npr.org/templates /story/story.php?storyId=5658956> [acesso: 09/06/15]

[7] VC, 15/11/09. Lady Gaga's Bad Romance: The Occult Meaning. IN: <http://vigilantcitizen.com/musicbusiness/lady-gagas-bad-romance-the-occult-meaning/>  [acesso em: 09/06/15]

[8] ERRICKSON, April. A Journey into the punk subculture: punk outreach in public libraries. IN: <http://dc.lib.unc.edu/cdm/ref/collection/s_papers/id/192>  [acesso: 09/06/15]

[9] Portal JusBrasil, 08/06/15. A Parada Gay e o histórico de desrespeito a imagem de Cristo. IN: <http://pareta.jusbrasil.com.br/artigos/195939893/a-parada-gay-e-o-historico-de-desrespeito-a-imagem-de-cristo>  [acesso: 09/06/15]

[10] TANNER, Norman (Ed.). “Nicaea II: 787”. IN: Decrees of the Ecumenical Councils. Georgetown University Press (1990) ISBN: 9780878404902. (pp. 130-156). Capítulo disponível em: <http://faculty.cua.edu/pennington/Canon%20Law/Councils/Chalcedon%20451.pdf>  [acesso: 09/06/15]

[11] Estatutos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Disponível em: <https://www.icrc .org/por/resources/documents/misc/icrc-statutes-080503.htm> [acesso: 09/06/15]

[12] KALIN, Ibrahim. Islam and the West: Deciphering a Contested History. [s/d]. Disponível em: <http://www.oxfordislamicstudies.com/Public/focus/essay0409_west.html> [acesso: 09/06/15]

 

 

 

*Inspirado em ‘Pas d’hospitalité’ (1997)[1], de Jacques Derrida (1930-2004)

 

Quando a atriz Viviany Beleboni decidiu fazer uma performance utilizando o símbolo da cruz não imaginava que o negócio ficaria tão sério para o seu lado, como contou à Globo [1] no dia seguinte à 19a Parada LGBT paulista, que já constou do Livro dos Recordes como a maior do mundo [2].

Antes dela, os rappers Marcelo D2 [3] e Chris Brown [4], o sambista Bezerra da Silva [5], as divas pop Madonna [6] e Lady Gaga [7], entre outros, já haviam utilizado o símbolo polêmico em suas performances artísticas, e olha que sem nenhuma legenda tal como a incluída na da atriz paulista, que claramente dizia ser “contra a homofobia”. Isso se focarmos apenas os últimos trinta anos, para não voltar até os punks estadunidenses do final da década de 1970, eles próprios que “eram anti-religião, mas usavam cruzes” [8].

Tudo se passa como se cruz e cristianismo fossem inseparáveis. A sua união, contudo, foi política e datada. Segundo o poeta Pareta Calderash: “A representação da cruz é a mais controversa. Visto que quando Jesus Cristo morreu a crucificação era algo inexistente. A pena de morte era praticada por pregar a pessoa em um madeiro, ou poste reto. O símbolo da cruz foi inserido em um concílio da Igreja Católica (…)” [9]. Embora de origem duvidosa, a cruz e outros símbolos pagãos apenas foram adotados pela Igreja após o Segundo Concílio de Niceia, no século VIII [10].

Se durante boa parte do primeiro milênio de sua existência, o sinal da cruz permaneceu no limbo das crenças cristãs, a partir do século IX este assumiu um locus de identidade desta religião. O uso deste termo não é aleatório: possui um propósito muito claro para qualquer antropólogo. Pois se há um consenso entre as Ciências Humanas é o de que a identidade é não apenas um construto, e como tal, pode ser desconstruído (p.ex., revelando suas raízes históricas); como que tal construto é social, sendo produto das relações sociais entre segmentos necessariamente distintos.

A história recente de um órgão mundialmente famoso ilustra de modo surpreendente quais são estes segmentos distintos. Trata-se do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) que, pelo seu estatuto [11], integra o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Os dois símbolos (a cruz e o crescente) foram unidos após disputas de caráter religioso em que o princípio humanitário de preservação dos civis em conflitos armados era desrespeitado devido ao não-reconhecimento de uma das partes “do outro lado” que utilizava um símbolo determinado.

Assim, as batalhas bizantinas contra a expansão islâmica após a morte do Profeta Maomé [12] no século VII produziram efeitos para muito além de sua época. Em oposição a um lado, o outro se afirmou. Resta saber por quanto tempo sobrevive se ruírem as bases sobre as quais se firmou.

 

Notas:

 

[1] Globo, 08/06/15. Transexual 'crucificada' na Parada Gay relata ameaças em rede social. IN: <http://ego.globo.com/famosos/noticia/2015/06/transexual-crucificada-na-parada-gay-relata-ameacas-em-rede-social.html> [acesso: 09/06/15]

[2] Folha de São Paulo, 28/05/08. Guinness exclui recorde da Parada Gay. IN: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/destaquesgls/ult10009u406368.shtml> [acesso: 09/06/15]

[3] Isto É, 04/10/15. Bezerra por D2. <http://www.istoe.com.br/reportagens/103735_BEZERRA+ POR+D2> [acesso: 09/06/15]

[4] Huffington Post, 29/06/13. Chris Brown Feels Like Jesus On The Cross After Alleged Assault. IN: <http://www.huffingtonpost.com/2013/01/28/chris-brown-jesus-assault_n_2571159.html> [acesso: 09/06/15]

[5] Musicaria Brasil, Março 13. A polêmica capa do LP “Eu não sou santo”, Bezerra da Silva 1990. IN: <http://musicariabrasil.blogspot.com.br/2013/03/a-polemica-capa-do-lp-eu-nao-sou-santo.html> [acesso: 09/06/15]

[6] NPR, 16/08/06. Madonna's Cross Raises Thorny Questions. IN: <http://www.npr.org/templates /story/story.php?storyId=5658956> [acesso: 09/06/15]

[7] VC, 15/11/09. Lady Gaga's Bad Romance: The Occult Meaning. IN: <http://vigilantcitizen.com/musicbusiness/lady-gagas-bad-romance-the-occult-meaning/>  [acesso em: 09/06/15]

[8] ERRICKSON, April. A Journey into the punk subculture: punk outreach in public libraries. IN: <http://dc.lib.unc.edu/cdm/ref/collection/s_papers/id/192>  [acesso: 09/06/15]

[9] Portal JusBrasil, 08/06/15. A Parada Gay e o histórico de desrespeito a imagem de Cristo. IN: <http://pareta.jusbrasil.com.br/artigos/195939893/a-parada-gay-e-o-historico-de-desrespeito-a-imagem-de-cristo>  [acesso: 09/06/15]

[10] TANNER, Norman (Ed.). “Nicaea II: 787”. IN: Decrees of the Ecumenical Councils. Georgetown University Press (1990) ISBN: 9780878404902. (pp. 130-156). Capítulo disponível em: <http://faculty.cua.edu/pennington/Canon%20Law/Councils/Chalcedon%20451.pdf>  [acesso: 09/06/15]

[11] Estatutos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Disponível em: <https://www.icrc .org/por/resources/documents/misc/icrc-statutes-080503.htm> [acesso: 09/06/15]

[12] KALIN, Ibrahim. Islam and the West: Deciphering a Contested History. [s/d]. Disponível em: <http://www.oxfordislamicstudies.com/Public/focus/essay0409_west.html> [acesso: 09/06/15]

 

 

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Aislan Munin
Pai da Liz. Membro cooperado do Portal da Educadora, Estudou Ciências Sociais na PUCSP e FESPSP, autodidata em Sistemas Web, uniu as duas áreas trabalhando como sócio-educador lecionando Introdução a Informática.