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Paulo Freire e a consciência do inacabamento como motor do aprender sem limites

Paulo Freire e a consciência do inacabamento como motor do aprender sem limites

 

Em minha trajetória, no exercício da paternidade e também como educador em escola pública e em outros espaços de educação não formal, tenho cada vez mais me reconhecido naquilo que Paulo Freire chama de “inacabamento”, em Pedagogia da Autonomia: (…) essa consciência do mundo e de si como inacabado necessariamente inscrevem o ser consciente de sua inconclusão num permanente movimento de busca.

O pensador latino americano, Silo, seguindo nessa mesma linha, fala de um “aprender sem limites”, como esse movimento de busca, que nos impulsiona a sair do conhecido e nos aventurar em construir novos caminhos que deem sentido à ação individual e que faça sentido aos educandos e ao contexto em que estão inseridos. Penso que o trabalho do educador exige um constante movimento de busca e resistência, para dar significado e prazer ao que fazemos.

Há alguns dias, me recordava daquele professor que fui alguns anos atrás, que apesar de saber o que não queria fazer, terminava reproduzindo as práticas que tanto criticava. Apenas a certeza daquilo que eu não queria, não era capaz de me fazer criar e arriscar. Ao olhar para aqueles momentos, percebo que havia um certo transfundo de arrogância e egocentrismo. Arrogância ligada ao papel que socialmente é dado aos professores e também à escola, de detentores do conhecimento, que deslegitima outros tipos de saberes como o produzido nas ruas; já o egocentrismo me impedia — e me impede quando não estou atento a minha prática educativa — de ver os educandos sem as lentes das minhas projeções e expectativas.

Esse sentir foi deixando em mim um gosto de contradição entre meus pensamentos e sentimentos. A resignação e a frustração, além é claro, das dificuldades objetivas enfrentadas, ganham espaço a partir desse tipo de certezas que habitam em nós vindas da cultura, dos valores e das crenças, sobre aprender/ensinar, sobre nosso papel como adultos/ educadores etc… que ao chocar-se com a realidade mostram sua caduques.

Vivemos imersos em uma cultura de êxito, que por mirar sempre no resultado, desvaloriza os processos, pune o erro e exclui quem não se ajusta às normas ou padrões de exigência social. A ideia de fracasso dentro desse sistema de êxito, é mal vista. Pouco se questiona se o “normal” ou os modelos de “sucesso” propagandeados são realmente alcançáveis para todos, ou mais ainda, se o êxito em um modelo de sociedade de valores e crenças decadentes e altamente violento e excludente é realmente algo a que se aspirar.

A ideia de não se ajustar, ou fracassar, soa como algo negativo para a maior parte dos ouvidos. Mas se olharmos com outros olhos, veremos o quão interessante pode ser esse estado. Ao invés de buscar certezas, o fracassado tem dúvidas, aprende, busca. Se sente “inacabado”, se orienta cada vez mais pelo seu interior e não pelas ordens sociais da moda. Nesse interessante lugar, temos maior liberdade e soltura interna para decidir.

Assim, para se despir das certezas e abraçar os fracassos como um lugar impulsionador de buscas, é preciso voltar ao “inacabamento”, ao silêncio e ao vazio, próprios desses lugares internos. De forma muito convergente, Maria Montessori fala de “modificar o adulto para salvar a criança” e da humildade necessária nesse percurso, explicitando as características de uma sociedade adultocêntrica que não as crianças e os jovens, e que por isso, não as compreende.

Atualmente, esses têm sido os meus grandes desafios como educador, pai e adulto. A humildade, o silêncio, o observar e a escuta acabam por ser decorrentes da conscientização desse estado de inacabamento de si mesmo e do mundo. Essa falta de certezas implicam em um redimensionamento das nossas ações como educadores.

Foto 2  -  Legenda: "Ofício do Fogo" 6 a 12 anos - Roda de troca de ideias - Parque Caucaia -SP - 2013
Legenda: “Ofício do Fogo” 6 a 12 anos – Roda de troca de ideias – Parque Caucaia -SP – 2013

Olhares e ações mais amorosos, cuidadosos e democráticos, sair do lugar autoritário que nos é dado como adultos/professores e que, por consequência, muitas vezes, desumaniza o outro. Creio que tal mudança de postura e reconhecimento, não seja possível sem o exercício da atenção sobre nós mesmos e também do apoio em outros que estejam no mesmo caminhar, já que muitas vezes a falta de consciência das nossas práticas desumanizantes têm origem não somente na nossa biografia, mas também na falta de informação a respeito de possibilidades de se fazer e ser diferentes.

Como sabemos, a observação atenta das crianças e jovens em nossas casas e salas de aulas, nos torna exemplos, ainda que de forma inconsciente. Acredito que o cultivo de um futuro melhor possa partir desse grão de areia das nossas pequenas ações diárias, na convivência respeitosa e humanizadora. E muitas vezes essas ações estão mais relacionadas ao contemplar, a não ação, como nos ensina o Taoísmo, ao falar menos, gerando espaço para o reconhecimento e exercício da autonomia por parte dos educandos.

Foto 3 -  Legenda: "Ofício do Fogo" preparação do dia - Parque Caucaia -SP - 2013
Legenda: “Ofício do Fogo” preparação do dia – Parque Caucaia -SP – 2013

Atualmente temos visto um crescimento expressivo de um pensamento conservador, antidemocrático e autoritário, não somente no Brasil, mas no resto do mundo. Entre as múltiplas razões que possamos pensar como diagnóstico, creio que uma delas esteja relacionada a como educamos nossas crianças e jovens, afirmando certezas caducas como adultos e educadores, não nos permitindo estar no lugar de aprender, de ter dúvidas, de nos reconhecer como “inacabados”

É claro que, em uma sociedade pautada pelo êxito individual e que valoriza a externalidade, o lugar da dúvida, do vazio e da contemplação não é muito cômodo para se estar. Tratando-se diretamente do âmbito da educação, existe ainda uma supervalorização do performático, da “aula-show”, do educador que controla os processos e tempos, gestiona cada detalhe, planeja e executa se antevendo ao dia a dia, as sutilezas e as surpresas tão próprias das relações humanas.

A exigência, cada vez maior, desse tipo de mentalidade de gestor empresarial para os educadores nos afasta cada vez mais de humanizar os processos, de tornar as relações de aprendizagem mais significativas e respeitosas para os adultos e também para as crianças e jovens.

Uma vez escutei que os grandes ensinamentos estão nas formulações mais simples e que, como nos habituamos a complicar as coisas, desaprendemos a ver a complexidade na sutileza. Se queremos conviver melhor com nós mesmos e apoiar nossos educandos, também sendo referências para eles, simplifiquemos. Façamos silêncio. Criemos consciência da inconclusão nossa e do mundo que nos cerca, para, como nos ensina Paulo Freire, esperançar por novos tempos.

Samuel Chaves é geógrafo e educador formado pela Universidade de SP. Estudante de pedagogia e professor da rede municipal de SP. Coordenador pedagógico da Cooperativa de educadores da Cohab II e militante humanista.

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