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Que serviços estão disponíveis sobre cuidados psicológicos para professoras/es?
30 de novembro de 2020

Cuidar de quem cuida, saúde mental nas escolas

Chegamos ao final do ano… E que ano! Estes 2020 ficarão marcados em nossa memória e em nossos corpos. Nos lembraremos disso tudo daqui a alguns anos: e o que estará presente na memória? O que ficará em cada um de nós?

A pandemia mundial trazida pelo Covid-19 fez com que vivêssemos diante de dificuldades, lutos, dores, esperanças, superações, aprendizagens, desafios e novas formas de relações. Com isso, nos reinventamos e criamos maneiras diferentes de adaptação a um novo cotidiano. Foi assim também com as/os profissionais da Educação, nossas/os professoras/es que até o início de março contavam com a tão conhecida “sala das/os professoras/es” onde se reuniam, tomavam café, davam risadas, trocavam angústias, anseios e conquistas, se depararam com novas situações em um curto período de tempo. 

O trabalho passou a fazer parte da rotina diária de suas casas; salas de estar ou de jantar viraram salas de aula, divididas muitas vezes, com filhas/os, companheiras/os e amigas/os, também em trabalho remoto. Enfrentaram cobranças de todos os lados por um ensino remoto e de qualidade; lidaram com limitações tecnológicas; as frustrações decorrentes das aulas remotas foram rapidamente percebidas frente às dificuldades nos contatos com estudantes e familiares. 

Estes contatos geraram diferentes sentimentos – ansiedade, tristeza, raiva, indignação… – uma vez que, em muitas situações, adentraram a casa de suas/eus estudantes e vivenciaram suas dificuldades de natureza econômica, social e afetiva. Foram testemunhas da miserabilidade, da violência doméstica, de diferentes formas de violação de direitos a que crianças e adolescentes sendo submetidas, dos lutos e sofrimentos em função de contaminação pela Covid-19 ou de pessoas próximas a elas. Também vivenciaram as próprias dores, faltas, perdas, além de relações de trabalho nem sempre éticas e justas. Enfim, educar em tempos de pandemia, passou a ser fonte de sofrimentos emocionais para muitas/os educadoras/es.

É importante frisar intensamente que todos esses sentimentos são adequados e esperados nesse contexto. Muitas pessoas, de diferentes profissões, as experimentaram no decorrer da pandemia. A questão que nos preocupa é a dificuldade de manejar esses sentimentos que muitas vezes acabam assumindo uma intensidade muito alta ou uma permanência temporal muito grande, dificultando seu controle. Podendo trazer resultados que acabam por complicar mais a vida das pessoas e atrapalham a realização dos trabalhos, os cuidados com a casa, o tempo para a família, a qualidade das relações familiares e sociais e o próprio tempo para si mesmo e o autocuidado.  

Essa sensação de “muita coisa para lidar ao mesmo tempo”, de cansaço, desânimo e esgotamento que temos percebido em muitas pessoas – e em nós mesmas/os – acontece porque agora não existe mais uma delimitação física entre trabalho e vida pessoal. Tudo foi sendo envolvido pelo contexto. E a saúde mental da/o professor/a grita por socorro!

Ao mesmo tempo que reconhecemos esta situação delicada que a pandemia nos traz, precisamos, também, fazer um alerta para evitar que caiamos na armadilha da patologização e da medicalização das vidas. Tem aparecido de forma acintosa, nas diferentes  mídias, que na pandemia e na pós pandemia  estamos tendo e continuaremos a ter um grande aumento de problemas ligados à saúde mental, na forma de agitação e ansiedade, depressão, fobias, estresse, autolesão, ideação suicida, tentativas de suicídio e outras formas de “transtornos mentais”. E se fala também na importância de incrementar os tratamentos – geralmente medicamentosos, como tem sido comum em nossa sociedade capitalista, que incentiva “uma farmácia em cada esquina”, em contraposição, muitas vezes, a espaços de lazer e de cultura e de convivência. 

Apesar das angústias e dos sofrimentos próprios dessa época que atravessamos, a maior parte das pessoas tem aprendido a lidar com eles, criando novas formas de convivência e interação social, auxiliadas pela tecnologia que nos permite trabalhar à distância e que também nos permite fazer festas e socializar remotamente, ou simplesmente fazer uma vídeo-chamada para matar saudades de nossos queridos. 

Também formas de cuidado à distância têm sido desenvolvidas, mostrando a extrema criatividade das pessoas. Temos, então, aulas para treinamentos físicos, espaços com ofertas de relaxamento, ofertas de diferentes práticas integrativas – sempre online, entre outras. Na medida da existência da acessibilidade tecnológica, estas ofertas ajudam as pessoas a manejar suas angústias e ansiedades de uma maneira mais saudável, sempre buscando por maior qualidade de vida. E, dessa forma, deixamos os “recursos de tratamento” apenas para as situações de crise que as pessoas possam vir a vivenciar.

Um estudo realizado pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo através do Núcleo de Educação trouxe como resultado, dentre outras questões, o quanto a/o professor/a tem buscado por alternativas para aliviar o estresse causado pelas situações decorrentes do ensino online. Mais ainda, evidenciou o desejo da presença da Psicologia no campo escolar. 

Outra pesquisa realizada pelo instituto Península sobre “Sentimento e percepção dos professores brasileiros nos diferentes estágios do coronavírus (COVID-19) no Brasil” classificou como 2,16 em uma escala de 0 a 5 o impacto da pandemia na saúde mental da/o professor/a. 

Sendo assim, torna-se cada vez mais necessário dialogarmos sobre o cuidado com essas/es profissionais, que cada vez mais assumem para si a vida da/o outro/a, cumprem o seu papel de mediadoras/es do conhecimento, dos conflitos; são as/os ouvintes; aquelas/es que acolhem o choro, as angústias. E mesmo frente à escassez de recursos, buscam se doar, lidam com tantos dilemas e se veem sozinhas/os no trabalho pedagógico e também no que excede o que seria sua função, pois as escolas – mesmo “fechadas” – seguiram como espaços de referência para famílias e estudantes durante a pandemia. 

Professoras/es e escolas foram, aliás, as/os que mais possibilitaram acesso da população em suas necessidades, uma vez que as políticas de saúde estavam voltadas prioritariamente à atenção aos casos de COVID-19, assim como muitos equipamentos da política de assistência também sofreram alteração em seus fluxos e restrições no acesso.

  • Apontamos a importância do cuidado com os estragos produzidos pela pandemia, pelo distanciamento social e pela precariedade do ensino remoto   essencial em tempos tão sombrios. Reforçamos a necessidade da Saúde Mental na escola – da/o professor/a, da equipe e da comunidade escolar – ser priorizada; evitando-se a patologização e a medicalização.  Uma forma de atuar em busca dessa qualidade é garantir a presença da/o psicóloga/o escolar na Educação. Já temos a aprovação da Lei 13.935/19, que trata da presença de psicólogas/os e assistentes sociais nas redes de educação básica, porém é importante agora a sua regulamentação nos Estados e Municípios. Só assim a comunidade escolar contará efetivamente com o apoio e o cuidado tão necessários e merecidos. São profissionais que, entre outras ações, poderão auxiliar na articulação com as demais políticas sociais de cada território em busca de respostas às dificuldades próprias de cada região. O momento é urgente: as/os profissionais de Educação anseiam por acolhimento e escuta; necessitam elaborar seus medos, sofrimentos e esperanças, assim como, coletivamente, precisam se sentir seguros e confiantes para construir, dentro da categoria educacional, formas de lidar com a ampla gama de situações que chegam à escola. Desta forma estaremos aptas/os a refletir e tensionar governos sobre a questão de “Qual escola queremos?” Qual é a função da escola na nossa sociedade?

O Sistema Conselhos da Psicologia tem articulado com os Conselhos Regionais de Serviço Social e outras entidades para construir formas de fazer valer a implementação da Lei 13935/19. 

Enquanto ainda não temos estas/es profissionais de forma justa e equitativa nas redes de Educação, e reconhecendo o sofrimento das/os educadoras/es, apontamos que algumas redes de profissionais psicólogas/os estão contribuindo, oferecendo apoio emocional às/aos professoras/es e à comunidade escolar como um todo, por meios remotos.

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CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DE SP