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Quem viver verá
9 de janeiro de 2021

É sempre muito difícil perceber uma revolução, enquanto ela acontece. Apenas ao passar dos anos, décadas, às vezes até séculos, conseguimos localizar no tempo as inflexões da história. Em muitas ocasiões chegamos a acreditar em retrocessos irremediáveis, perdas irreparáveis, mas o que vivemos é um efeito catártico de algo que se moveu. Como placas tectônicas que se movem, erupções vulcânicas que causam estrago, mas muitas vezes criam novas paisagens, ilhas que apenas vamos aprender a contemplar por muito tempo, até gerações após esses eventos.

Na educacao essas bombas de efeito retardado são perceptíveis a curto, médio e longo prazo. Um programa sólido de política pública é realizado através de anos de investimentos assertivos, continuidade, políticas afirmativas, democratização e universalização do ensino.

No Brasil, a “Roda Viva”, como já diria Chico Buarque, sempre tenta desfazer os avanços duramente conquistados. Na história recente de uma educação podemos lembrar do Plano Nacional de Alfabetização, Decreto nº 53.465, de 21 de Janeiro de 1964, criado pelo educador Paulo Freire, que fazia parte das “Reformas de base” de João Goulart, posteriormente deposto pelo Golpe de 64. Inclusive, quando o próprio Paulo Freire foi preso e exilado, bem antes do famigerado AI-5, em 1968.

Depois de amargamos 21 anos de Ditadura Civil Militar, com uma educação que promovia à obediência, civismo, acrítica e alienante, toda uma geração “formada” nessa égide que tem reflexos diretos ainda hoje. Desde as manifestações com caráter ufanista, “patriota”, que estouraram em junho de 2013, até a formação de grupos suprapartidários e legendas políticas que carregam o conservadorismo e o reacionarismo como suas bases mais sólidas. Ou seja, depois de experimentarmos algum espasmo progressista, no início dos anos 2000, na educação, eis que chega a “Roda Viva”, mais um vez.

Desta vez, com um golpe jurídico-midiático-legislativo que abriu as portas para “Escola Sem Partido”, redução da maioridade penal, revisão do sistema de cotas, desmonte do financiamento público de carreiras acadêmicas, precarização e sucateamento da educação universitária, perseguição à classe da educação, privatização da escola pública. Nada disso aconteceu sem forte resistência, enfrentamento por parte de uma grande parte da sociedade, estudantes, entidades de classe, o povo na rua, mesmo enfrentando violência estatal, difamação, perseguição por parte de uma outra camada da população que se revelava cada vez mais com traços protofascistas.

Mas o “estrago” já estava feito. Apesar de estarmos vivendo um dos piores períodos para educação na história republicana brasileira, o que era uma mera prática social, um reprodução da opressão da sociedade através da exclusão, do racismo, machismo, perseguição de grupos sociais historicamente oprimidos, precisou se converter em um discurso de ódio. A zona de conforto dos privilegiados já não é tão confortável. A superfície foi arranhada por quem acessou a educação, quem criou massa crítica, quem quebrou o ciclo geracional da miséria e agora não aceita mais a falta de acesso á universidade, ou ao conhecimento, imposta a tantas gerações. 

A chama que foi acesa não apagou. Sempre alimentada por uma população que não suporta mais viver nas condições que sempre foram normalizadas. Uma mudança, para além dos índices sociais, está em curso e tem um poder muito grande, pois não depende necessariamente da educação formal. Experimentamos hoje, uma mudança no imaginário das sociedades. A criança negra que nasceu na periferia, pobre, agora tem referências próximas de pessoas que subverteram o determinismo social e agora tem voz, corpo, posições, ocupam espaços de poder.

Criamos uma massa crítica suficiente para fazermos frente a todos os desmandos. Saímos das cordas, das posições de retaguarda e passamos a protagonizar a nossa própria luta. Essa massa que hoje ocupa espaços, antes “reservados” à uma elite branca, para além do trabalho político, institucional, tem se tornado o farol de um imaginário perdido. A população segregada, perseguida, exterminada, pode mais e está construindo coletivamente o amanhã desejado, mas não sem muito sangue suor e lágrimas.

Vivemos hoje a catarse de uma revolução que está em curso, mas quem sempre esteve no poder não aceita. Por isso resistem e perseguem, não aceitam que perderam o bonde da história. Não aceitam dividir ou perder o espaço para os grupos sociais que sempre foram inferiorizados por essa classe. Observam seus despreparos diante de uma onda que não tem volta. Ficam perplexos e reagem com violência à uma nova ordem social, em que a mulher, o povo negro, LGBTTQI+, indígenas e os mais diversos grupos com minorias representativas, além de não se calarem, ocupam os espaços de poder.

Os inimigos estão no poder, hoje. É fato. Mas por pouco tempo e quando caírem, dificilmente se recuperarão a curto e médio prazo. Pois no imaginário de uma grande parte da sociedade, não se pode mais fazer política, economia, publicidade, nada, sem a presença de quem foi historicamente perseguido, mas que hoje não aceita mais esta opressão. Não quer mais se tornar um número em um estatística, mas reconhecimento, nomes e sobrenomes, origens que sejam respeitados, mesmo depois de suas mortes.

Como reflexo de um pequeno período de nossa história democrática recente, alguns direitos foram efetivados, de alguma forma. Tanto a resistências a essas mudanças, como a reverberação e multiplicação delas, ainda será longa. Mas não há mais como voltar atrás. Esses que hoje tentam frear esse processo, passarão. Mas quem bebeu da água do conhecimento, do suor das lutas, seguirá. Não há mais como ocultar Paulo Freire, Ângela Davis, Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzales, Bell Hooks, Clóvis Moura, Conceição Evaristo, Marielle Franco, Abdias do Nascimento e tanta gente que vem chegando com brilho nos olhos e sangue nas veias. Quem viver, verá…

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Sócrates Magno Torres
Sócrates Magno Torres é Educador, Cientista Social e militante dos Direitos Humanos