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Rede de Escolas Municipais pela Inclusão: Instituto ComViver convida escolas municipais de São Paulo à ampliação do olhar por meio de trocas de experiências e reflexões entre educadores
12 de outubro de 2020

O trabalho por uma verdadeira educação inclusiva, que busca pela transformação da instituição escolar para se adequar à diversidade dos seus estudantes e suas múltiplas formas de aprender, se mantém um grande desafio para a maioria das escolas. É possível pensar que a mudança de paradigma da integração (ideia de que as crianças deveriam se adaptar à escola) à inclusão (proposta que demanda que a escola se repense para abarcar as diferenças) ainda está em processo e nos convida a buscar maneiras de ampliar essa compreensão: “Essa passagem da integração à inclusão vem acompanhada de diferentes compreensões, experimentações e tensões. A própria noção de inclusão/exclusão tem um escopo conceitual de enorme amplitude e complexidade. Diversos estudiosos e militantes desse campo já fizeram a crítica da inclusão como incluir em algo ou em algum regime já instituído, convocando a inclusão na sua dimensão de permanente regime de produção de si e de diferenciação, e alertando para a necessária política de universalização do direito à educação como direito à educação de qualquer um, isto é, do diverso” (VICENTIN, p.172)[1].

Desta forma, educadores são instigados permanentemente a buscar estratégias que rompam com as sutis e, às vezes não tão sutis, exclusões que permanecem ocorrendo com aqueles que não se encaixam no formato tradicional da escola. 

O cenário gerado pela pandemia de COVID 19, o qual impôs o desenvolvimento de um trabalho educacional remoto, intensificou ainda mais a necessidade de se pensar sobre as práticas utilizadas no trabalho com os estudantes público alvo da educação especial para que continuem se desenvolvendo academicamente, dentro de suas possibilidades, como os outros estudantes. A perda da dimensão corporal que o trabalho pelas telas nos traz afeta todos os estudantes de diversas maneiras, mas para aqueles que dependem ainda mais dos gestos, expressões, toque, olho no olho, leitura labial, entre tantas outras vivências que ampliam as possibilidades de compreensão no aprendizagem presencial, esta ausência gera desafios ainda maiores. Mesmo ao pensar sobre a possibilidade de retorno às atividades presenciais de acordo com o momento que estamos vivendo, não é possível acreditar que tudo voltará como antes. O diagnóstico de deficiência em si não implica necessariamente em critérios do grupo de risco para COVID 19, conforme Os Protocolos sobre educação inclusiva durante a pandemia de Covid 19 – um sobrevoo por 23 países e organismos internacionais elaborados pelo Instituto Rodrigo Mendes[2] afirma: “É importante esclarecer que não existe correlação automática entre deficiência e risco. A decisão sobre o retorno de tais estudantes deve ser baseada na análise individual de cada caso. É fundamental que essa análise envolva tanto as famílias, detentoras de informações valiosas sobre o que funciona melhor e quais as necessidades de cada estudante, quanto equipes médicas” (p. 32). Ainda que essa correlação entre deficiência e risco não seja automática, é sabido que muitas pessoas com algum tipo de deficiência apresentam um quadro mais frágil de saúde, o que possivelmente fará com que elas demorem ainda mais que os outros estudantes para retornar às atividades presenciais da escola. Cabe ressaltar também que os estudantes retornarão à escola em um formato diferenciado para atender às questões sanitárias, havendo por exemplo um rodízio de estudantes alternando a cada dia. Desta forma, o ensino remoto não deixará de ser uma realidade, se mantendo ainda como atividade importante no planejamento dos educadores e no processo de aprendizagem dos estudantes. Esta situação intensifica o risco de que estes estudantes permaneçam à margem do processo educativo ao longo desse período se não forem acionadas estratégias para lidar com essa situação.

MARCONDES (2004) aborda o impacto que o trabalho com crianças com dificuldades produz com frequência nos professores: “Muitas vezes, as dificuldades apresentadas pelas crianças produzem nos professores a sensação de eles não estarem preparados para trabalhar com a presença dessas crianças na sala de aula, ou a sensação de os problemas familiares serem tão intensos que não dá para ensinar certas crianças. Neste território no qual as dificuldades nos paralisam, essas dificuldades têm servido para isso mesmo: paralisar. E, fica parecendo que somente seria possível movimento, crescimento, desenvolvimento, mudança, criação, se houvessem as ilusórias condições ideais. Conhecemos também essa produção – estar fixado no que seriam as condições ideais acreditando que aquilo que acontece não deveria acontecer. Esse pensamento é ideológico, o que ocorre não é acidental, o fracasso é engendrado no cotidiano”.[3] Em consonância com esta visão, diante de um cenário tão complexo como o da pandemia, é muito possível que educadores se vejam paralisados por estarem extremamente distantes das tais condições ideais. Todo professor que já trabalhou ou trabalha com algum aluno em situação de inclusão sabe que este trabalho não se constitui com base em cartilhas a serem seguidas, mas em uma construção conjunta da comunidade escolar: gestão, educadores, funcionários, as famílias e os próprios estudantes. O trabalho exige uma costura delicada entre estes diversos atores, implicando um intenso envolvimento e constante reflexão do educador acerca dos caminhos desenhados para cada estudante. Conseguir romper com as concepções estanques de “aluno-problema” ou até mesmo o tão falado “aluno de inclusão” para olhar para a especificidade de cada estudante e sua construção singular com o saber e a produção de conhecimento de forma genuína é fundamental, mas não é fácil. Desgastados por todos os empecilhos que o trabalho remoto coloca, somadas às angústias inerentes à pandemia que afeta a cada um de diferentes maneiras, mas não deixa ninguém sair ileso, os educadores precisam também de espaços nos quais possam olhar para si, suas práticas, seus esforços, sua trajetória de forma acolhedora e respeitosa. É nesta direção que o Instituto ComViver propõe a criação e desenvolvimento de uma Rede de Escolas Públicas Municipais pela Inclusão com o intuito de contribuir na sustentação, fortalecimento e movimentação deste árduo trabalho do educador,  A ideia de uma rede nasce justamente da noção de que incluir é um projeto de todos, não apenas de um professor, de um coordenador ou de uma única escola. É um projeto que não se faz sozinho e não se sustenta sozinho, por haverem inúmeros desafios que surgem. É uma construção que demanda criatividade e ampliação de horizontes, portanto, quando os educadores restringem suas trocas às equipes de suas respectivas escolas, muitas vezes perdem de vista outros caminhos possíveis, outras questões inspiradoras e, principalmente, a sensação de que não estão sozinhos nesta jornada. A ideia de uma rede aposta que é pelo e no coletivo que o projeto de uma escola plural pode ganhar força e forma.

Para constituir a Rede de Escolas Públicas Municipais pela Inclusão o Instituto ComViver propõe que participem Escolas Municipais de São Paulo, inscrevendo ao menos um de seus  educadores, com interesse pelo tema, e que estejam dispostos a se implicar na construção de um saber coletivo, o qual possa ajudar a ampliar os olhares de outros educadores que entrem em contato com os frutos que essa rede venha a oferecer.

Ocorrerão quatro encontros virtuais mensais, com duração de 2 horas cada. Além disso, os psicólogos mediadores oferecerão horários de mentoria online em pequenos grupos garantindo um espaço de escuta para os desafios do cotidiano escolar, construindo coletivamente novas oportunidades de resolução de problemas. Como fruto desses encontros, será desenvolvido um site no qual serão divulgados relatos de experiências, estratégias interessantes e materiais que possam enriquecer a busca daqueles que pretendem desenvolver um trabalho com todo e cada um de seus estudantes. Lembrando sempre que qualquer material divulgado deve servir como inspiração, pois é apenas no encontro único entre cada educador e cada estudante que as melhores estratégias poderão ser desenvolvidas. 

Se você ficou interessado em inscrever sua escola municipal (município de São Paulo), entre em contato com Marceli, a coordenadora do Instituto, pelo telefone 11 994789554 ou escreva para redepelainclusao@comviver.org

Neste primeiro momento, só poderão se inscrever no Projeto escolas do município de São Paulo, mas o objetivo é ampliar esse alcance à medida que isso for possível, então se você não é de São Paulo, mas ficou interessado, nos escreva mesmo assim para podermos pensar em possibilidades conjuntamente. Por fim, caso conheça escolas que possam se beneficiar deste Projeto nos ajude a divulgar, assim, fortalecemos a luta por um novo modelo de escola!

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