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Reinventar a Educação para a Vida
24 de abril de 2019

Pelo quinto ano consecutivo, aconteceu em outubro último, a Cúpula Mundial de Inovação para a Educação – WISE, em Doha, capital do Qatar, país que começa a ser conhecido como sede da Copa de 2018.

Pelo quinto ano consecutivo, aconteceu em outubro último, a Cúpula Mundial de Inovação para a Educação – WISE, em Doha, capital do Qatar, país que começa a ser conhecido como sede da Copa de 2018.

O que mais impressiona neste encontro organizado pela Fundação Qatar, com apoio da UNESCO, de associações universitárias e outras organizações, é seu caráter efetivamente mundial: 1200 pessoas entre ministros, educadores, estudantes, empresários, políticos, pesquisadores e líderes sociais de mais de cem países se encontram durante três dias em palestras, workshops e mesas redondas.

O tema do encontro, Reinventar a Educação para a Vida, indica a perspectiva assumida. Reconhece-se que a educação como se organiza hoje no mundo – prioritariamente através da escola – precisa ser reinventada, conectada com a vida, possibilitando a inovação, a colaboração, a aprendizagem permanente.

Esta é a agenda a que está se dedicando a UNESCO. Irina Bokova, diretora geral da organização, informou que passados treze anos do famoso Relatório Delors, Educação, um Tesouro a Descobrir, a agência compreendeu que era o momento de criar novas linhas de pesquisa, orientadas pelos Objetivos do Milênio. Grupos de trabalho regionais estão se reunindo para produzir um novo documento de referência, sobre a aprendizagem ao longo da vida. Os temas estudados e debatidos por estes grupos voltam-se para a qualidade da educação, que é relativa a seu nível de relevância, inovação e flexibilidade, e objetiva a conquista de cidades educadoras e sociedades do conhecimento inclusivas.  Grande avanço em relação aos discursos que limitam a qualidade da educação à garantia de desenvolvimento de habilidades instrumentais supostamente universais.

Dada a agenda política, as diversas seções do encontro se organizaram em torno de três temas principais: as propostas e experiências que inovam na educação; o reconhecimento dos esgotamento do modelo escolar; e a desigualdade social produzida pelo fato de que grande contingentes de crianças e adolescentes não têm acesso à escola. As duas últimas parecem contraditórias – se o modelo escolar está esgotado, por que deveríamos propor que ela se universalizasse? Bem, porque, apesar disso, as crianças e adolescentes que não estão nas escolas são as que vivem nas mais graves situações de vulnerabilidade no mundo todo.

Projeto esgotado

Mudar o foco da qualidade da educação – das habilidades instrumentais para a relevância – implica questionar alguns modelos consagrados de educação no mundo. Por exemplo, o modelo japonês. Em uma das seções da WISE, com o sugestivo nome de Acertar arriscando errar, enquanto o pesquisador inglês Charles Leadbeater, o indiano Suneet Singh Tuli e o americano Merrick Shaefer, especialista em inovação do Banco Mundial, faziam o elogio do fracasso, quando este é parte de um processo de perseverança até o sucesso, o ex-senador japonês Kotaro Tamura ressaltava que a sociedade japonesa se constrói no sentido da busca da perfeição, com muito pouca tolerância para os erros e, portanto, pouco espaço para inovação. As consequências dos dois posicionamentos para a educação são claras: se no primeiro caso, busca-se um ambiente educativo que estimula a curiosidade, o risco, a criatividade, a troca entre os diferentes, a produção do novo, no segundo, o modelo japonês, o objetivo é ensinar aos jovens o que já é conhecido, fortalecendo nestes um posicionamento basicamente conformista. Este segundo modelo, dominante nas escolas do mundo todo, está agora sendo repensado, já que é preciso criar espaços para soluções inovadoras a questões sociais e ambientais que estão colocando em risco o futuro.

Os participantes desta roda de conversa lembraram também que, apesar de o modelo escolar ter muito pouco espaço para a experimentação, o erro e a descoberta, em relação aos sistemas educativos, há enorme tolerância ao fracasso. Há décadas, comprova-se em escala mundial que a escola como a conhecemos é falha e assim mesmo, insistimos no velho modelo do currículo externo, das séries, disciplinas, provas, notas e salas de aula. E no que a escola falha? Em debate sobre a alfabetização e o desenvolvimento das habilidades básicas em matemática, uma mesa que incluía ex-ministros da educação e pesquisadores, teve que reconhecer o fracasso mundial das escolas neste aspecto.

Na busca obstinada por reduzir o escopo da escola ao ensino das habilidades básicas, exercem papel decisivo as avaliações externas, em sua forma teste e produção de rankings de estudantes, professores, escolas e países. Trata-se de um dispositivo voltado para o conformismo, a reprodução, a competição, jamais os caminhos da descoberta, da investigação e criação. Em uma plenária, Cheng Kai Ming, da Universidade de Hong Kong, mostrou que os tão elogiados sistemas de Hong Kong, Singapura e Coréia, sofreram reformas orientadas pelos testes e rankings, que de fato reduziram cada vez mais o escopo do que é ensinado nas escolas, deixando de fora tudo que é realmente relevante na vida.

Em outra seção, o indiano Madhav Chavan, da Fundação Pratham, lembrou que a escola também fracassa em relação a seu objetivo de preparar para o ingresso na universidade, não o garantindo para a grande maioria dos que ali se formam. E também em relação à formação para o mundo do trabalho, como ressaltou Cheng Kai Ming, o modelo escolar forjado na revolução industrial, já não responde às necessidades do mundo do trabalho na sociedade do conhecimento.

Mas, como medir o sucesso da aprendizagem em uma perspectiva que valoriza os caminhos da descoberta, da investigação e da criação? Ai está o grande desafio, já que os caminhos da descoberta são sempre singulares, avessos a padrões homogeneizantes. E assim como a avaliação, o currículo também não pode ser homogêneo, decidido externamente à escola. Ele deveria partir do interesse daqueles que vão realizá-lo. Isso, sim, seria reinventar a educação para a vida.

Inovações na educação

Se a natureza da instituição escolar não for transformada, ela deixará de existir diante das novas tecnologias. Afinal, a demanda social é por educação, não por escolarização. A imensa evasão escolar entre os adolescentes é um fenômeno mundial e certamente fortalecido por este esvaziamento do sentido da escola, como lembrou Cheng Kai.

Reinventar a educação para a vida significa criar condições para que as pessoas possam desenvolver as habilidades necessárias para a resolução de problemas, para aprender com os erros, para a resiliência, empatia, aplicação de conhecimentos teóricos na prática. Talvez, como disse Cheng Kai Ming, o mais importante aprendizado para um futuro melhor seja como viver juntos, cuidando da família, participando da comunidade, frequentando grupos. Angie Motshekga, ministra da Educação Básica da África do Sul, acrescentou a importância do desenvolvimento emocional, do respeito aos outros, do compromisso, da capacidade de proteger o ambiente, de ser ativo e empreendedor. Para a formulação de políticas e programas com estes objetivos, a ministra reforçou a importância de se ouvir as crianças. Franciso Claro, da Universidade Católica do Chile, fez coro à fala da ministra e lembrou da importância de se descobrir e valorizar os talentos de cada um no processo de encantamento que deve ser a educação.

A dificuldade é transformar a natureza da escola, uma das mais rígidas de todas as sociedades. Por isso, Cheng Kai convocou a UNESCO a pesquisar e divulgar as muitas experiências educacionais escolares e não escolares que já se voltam para incluir a vida no processo de aprendizagem, com excelentes resultados.

Uma destas experiências é a Fundação Escuela Nueva, da Colômbia, cuja fundadora, Vicky Colbert, recebeu o Prêmio WISE 2013. A Escuela Nueva é uma ONG criada em 1987, que desenvolveu um modelo pedagógico, primeiramente para as escolas multisseriadas rurais e depois levado para as escolas urbanas, para as comunidades deslocadas pelos conflitos civis e também aquelas afetadas por desastres naturais. Usando ferramentas simples, a Escuela Nova promove a aprendizagem ativa, participativa e colaborativa, fortalecendo as relações escola-comunidade e estratégias adaptadas às condições, ritmos e necessidades das crianças. O foco da metodologia, centrada na criança, no contexto e na comunidade, tem impactos muito positivos na permanência e aprendizagem do estudante e na melhoria do ambiente escolar, tal como foi atestado por UNESCO, Banco Mundial, ONU e agora a Fundação Qatar.

Enfrentamento da desigualdade

O esgotamento do modelo escolar intensifica o processo de exclusão, na medida em que ficam de fora da escola as crianças e os adolescentes que não se adaptam a ele, mesmo em países em que haveria escolas suficientes para todos, como são os casos da Índia e do Brasil. Transformar a natureza da escola e investir nas novas formas de educação possibilitadas pelas novas tecnologias são as metas de governos e organizações determinados a enfrentar as imensas desigualdades sociais. Mas, isso é tema para outra coluna.

Helena Singer escreve para o Portal do Aprendiz

Pelo quinto ano consecutivo, aconteceu em outubro último, a Cúpula Mundial de Inovação para a Educação – WISE, em Doha, capital do Qatar, país que começa a ser conhecido como sede da Copa de 2018.

O que mais impressiona neste encontro organizado pela Fundação Qatar, com apoio da UNESCO, de associações universitárias e outras organizações, é seu caráter efetivamente mundial: 1200 pessoas entre ministros, educadores, estudantes, empresários, políticos, pesquisadores e líderes sociais de mais de cem países se encontram durante três dias em palestras, workshops e mesas redondas.

O tema do encontro, Reinventar a Educação para a Vida, indica a perspectiva assumida. Reconhece-se que a educação como se organiza hoje no mundo – prioritariamente através da escola – precisa ser reinventada, conectada com a vida, possibilitando a inovação, a colaboração, a aprendizagem permanente.

Esta é a agenda a que está se dedicando a UNESCO. Irina Bokova, diretora geral da organização, informou que passados treze anos do famoso Relatório Delors, Educação, um Tesouro a Descobrir, a agência compreendeu que era o momento de criar novas linhas de pesquisa, orientadas pelos Objetivos do Milênio. Grupos de trabalho regionais estão se reunindo para produzir um novo documento de referência, sobre a aprendizagem ao longo da vida. Os temas estudados e debatidos por estes grupos voltam-se para a qualidade da educação, que é relativa a seu nível de relevância, inovação e flexibilidade, e objetiva a conquista de cidades educadoras e sociedades do conhecimento inclusivas.  Grande avanço em relação aos discursos que limitam a qualidade da educação à garantia de desenvolvimento de habilidades instrumentais supostamente universais.

Dada a agenda política, as diversas seções do encontro se organizaram em torno de três temas principais: as propostas e experiências que inovam na educação; o reconhecimento dos esgotamento do modelo escolar; e a desigualdade social produzida pelo fato de que grande contingentes de crianças e adolescentes não têm acesso à escola. As duas últimas parecem contraditórias – se o modelo escolar está esgotado, por que deveríamos propor que ela se universalizasse? Bem, porque, apesar disso, as crianças e adolescentes que não estão nas escolas são as que vivem nas mais graves situações de vulnerabilidade no mundo todo.

Projeto esgotado

Mudar o foco da qualidade da educação – das habilidades instrumentais para a relevância – implica questionar alguns modelos consagrados de educação no mundo. Por exemplo, o modelo japonês. Em uma das seções da WISE, com o sugestivo nome de Acertar arriscando errar, enquanto o pesquisador inglês Charles Leadbeater, o indiano Suneet Singh Tuli e o americano Merrick Shaefer, especialista em inovação do Banco Mundial, faziam o elogio do fracasso, quando este é parte de um processo de perseverança até o sucesso, o ex-senador japonês Kotaro Tamura ressaltava que a sociedade japonesa se constrói no sentido da busca da perfeição, com muito pouca tolerância para os erros e, portanto, pouco espaço para inovação. As consequências dos dois posicionamentos para a educação são claras: se no primeiro caso, busca-se um ambiente educativo que estimula a curiosidade, o risco, a criatividade, a troca entre os diferentes, a produção do novo, no segundo, o modelo japonês, o objetivo é ensinar aos jovens o que já é conhecido, fortalecendo nestes um posicionamento basicamente conformista. Este segundo modelo, dominante nas escolas do mundo todo, está agora sendo repensado, já que é preciso criar espaços para soluções inovadoras a questões sociais e ambientais que estão colocando em risco o futuro.

Os participantes desta roda de conversa lembraram também que, apesar de o modelo escolar ter muito pouco espaço para a experimentação, o erro e a descoberta, em relação aos sistemas educativos, há enorme tolerância ao fracasso. Há décadas, comprova-se em escala mundial que a escola como a conhecemos é falha e assim mesmo, insistimos no velho modelo do currículo externo, das séries, disciplinas, provas, notas e salas de aula. E no que a escola falha? Em debate sobre a alfabetização e o desenvolvimento das habilidades básicas em matemática, uma mesa que incluía ex-ministros da educação e pesquisadores, teve que reconhecer o fracasso mundial das escolas neste aspecto.

Na busca obstinada por reduzir o escopo da escola ao ensino das habilidades básicas, exercem papel decisivo as avaliações externas, em sua forma teste e produção de rankings de estudantes, professores, escolas e países. Trata-se de um dispositivo voltado para o conformismo, a reprodução, a competição, jamais os caminhos da descoberta, da investigação e criação. Em uma plenária, Cheng Kai Ming, da Universidade de Hong Kong, mostrou que os tão elogiados sistemas de Hong Kong, Singapura e Coréia, sofreram reformas orientadas pelos testes e rankings, que de fato reduziram cada vez mais o escopo do que é ensinado nas escolas, deixando de fora tudo que é realmente relevante na vida.

Em outra seção, o indiano Madhav Chavan, da Fundação Pratham, lembrou que a escola também fracassa em relação a seu objetivo de preparar para o ingresso na universidade, não o garantindo para a grande maioria dos que ali se formam. E também em relação à formação para o mundo do trabalho, como ressaltou Cheng Kai Ming, o modelo escolar forjado na revolução industrial, já não responde às necessidades do mundo do trabalho na sociedade do conhecimento.

Mas, como medir o sucesso da aprendizagem em uma perspectiva que valoriza os caminhos da descoberta, da investigação e da criação? Ai está o grande desafio, já que os caminhos da descoberta são sempre singulares, avessos a padrões homogeneizantes. E assim como a avaliação, o currículo também não pode ser homogêneo, decidido externamente à escola. Ele deveria partir do interesse daqueles que vão realizá-lo. Isso, sim, seria reinventar a educação para a vida.

Inovações na educação

Se a natureza da instituição escolar não for transformada, ela deixará de existir diante das novas tecnologias. Afinal, a demanda social é por educação, não por escolarização. A imensa evasão escolar entre os adolescentes é um fenômeno mundial e certamente fortalecido por este esvaziamento do sentido da escola, como lembrou Cheng Kai.

Reinventar a educação para a vida significa criar condições para que as pessoas possam desenvolver as habilidades necessárias para a resolução de problemas, para aprender com os erros, para a resiliência, empatia, aplicação de conhecimentos teóricos na prática. Talvez, como disse Cheng Kai Ming, o mais importante aprendizado para um futuro melhor seja como viver juntos, cuidando da família, participando da comunidade, frequentando grupos. Angie Motshekga, ministra da Educação Básica da África do Sul, acrescentou a importância do desenvolvimento emocional, do respeito aos outros, do compromisso, da capacidade de proteger o ambiente, de ser ativo e empreendedor. Para a formulação de políticas e programas com estes objetivos, a ministra reforçou a importância de se ouvir as crianças. Franciso Claro, da Universidade Católica do Chile, fez coro à fala da ministra e lembrou da importância de se descobrir e valorizar os talentos de cada um no processo de encantamento que deve ser a educação.

A dificuldade é transformar a natureza da escola, uma das mais rígidas de todas as sociedades. Por isso, Cheng Kai convocou a UNESCO a pesquisar e divulgar as muitas experiências educacionais escolares e não escolares que já se voltam para incluir a vida no processo de aprendizagem, com excelentes resultados.

Uma destas experiências é a Fundação Escuela Nueva, da Colômbia, cuja fundadora, Vicky Colbert, recebeu o Prêmio WISE 2013. A Escuela Nueva é uma ONG criada em 1987, que desenvolveu um modelo pedagógico, primeiramente para as escolas multisseriadas rurais e depois levado para as escolas urbanas, para as comunidades deslocadas pelos conflitos civis e também aquelas afetadas por desastres naturais. Usando ferramentas simples, a Escuela Nova promove a aprendizagem ativa, participativa e colaborativa, fortalecendo as relações escola-comunidade e estratégias adaptadas às condições, ritmos e necessidades das crianças. O foco da metodologia, centrada na criança, no contexto e na comunidade, tem impactos muito positivos na permanência e aprendizagem do estudante e na melhoria do ambiente escolar, tal como foi atestado por UNESCO, Banco Mundial, ONU e agora a Fundação Qatar.

Enfrentamento da desigualdade

O esgotamento do modelo escolar intensifica o processo de exclusão, na medida em que ficam de fora da escola as crianças e os adolescentes que não se adaptam a ele, mesmo em países em que haveria escolas suficientes para todos, como são os casos da Índia e do Brasil. Transformar a natureza da escola e investir nas novas formas de educação possibilitadas pelas novas tecnologias são as metas de governos e organizações determinados a enfrentar as imensas desigualdades sociais. Mas, isso é tema para outra coluna.

Helena Singer escreve para o Portal do Aprendiz

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Aislan Munin
Pai da Liz. Membro cooperado do Portal da Educadora, Estudou Ciências Sociais na PUCSP e FESPSP, autodidata em Sistemas Web, uniu as duas áreas trabalhando como sócio-educador lecionando Introdução a Informática.